O sol de Curitiba já estava se pondo quando Nair Monteiro empurrou a porta do galpão onde a banda de Léo ensaiava. Ela chegava direto da academia — ainda vestindo seu moletom largo, calça de moletom e tênis de skate surrado. Os cabelos negros e compridos estavam presos num coque bagunçado, e ela carregava o skate debaixo do braço como quem carrega uma extensão do próprio corpo.
— Ei, Cearense! — Léo gritou do palco improvisado, sem parar de dedilhar as cordas da guitarra. — Pensei que tivesse ido pra aula de português!
— Prefiro comer vidro! — Nair respondeu, rindo com aquele sotaque forte que Léo já tinha começado a achar a coisa mais charmosa do mundo.
Ela jogou o skate no canto e foi direto pro sofá velho que servia de arquibancada. Os outros integrantes da banda — um baterista barbudo e um baixista tímido — acenaram. Nair levantou o polegar, já balançando a cabeça no ritmo.
Léo não conseguia parar de olhar pra ela entre uma música e outra. A garota de 1,8 m, com aqueles braços fortes de quem levantava peso todos os dias, parecia completamente em casa ali, no meio daquela energia caótica de rock independente. Ela não era delicada. Não era "fofinha". Era potência pura — e isso fazia o coração do menino emo de franja loira disparar.
Quando o ensaio acabou, Léo pulou do palco e foi até ela.
— Curtiu? — perguntou, ainda ofegante.
— Curti não, amor. AMEI. Nair se levantou, esticando os braços. — Vocês tão ficando bons pra caramba!
— E a rampa lá fora? — Léo apontou pra porta dos fundos, onde uma mini rampa de skate ficava esquecida no quintal do galpão. — **Tô vendo que você tá doida pra testar.
Os olhos de Nair brilharam.
***
Fazia seis meses que Nair tinha chegado do Ceará — meses de sentir falta do calor, da praia. Mas também seis meses de descobrir que andar de skate nas ruas de Curitiba, com aquelas ladeiras malucas, era um tipo diferente de liberdade.
E agora, três meses de namorar Léo.
Eles eram opostos em tudo: ela, toda energia explosiva, força bruta, cearense arretada; ele, magricela, loiro de franja que cobria metade do rosto, que passava horas compondo músicas no violão. Mas quando estavam juntos, algo acontecia. Algo que nenhum dos dois sabia explicar direito.
Na rampa, Nair era rainha.
Ela subiu na estrutura com aquela elegância que só quem vive no skate tem. Deu impulso, desceu, subiu no outro lado, executou um kickflip perfeito, pousou. Tudo num fluxo contínuo, bonito, poderoso.
— CARACA, NAIR! — Léo gritou, genuinamente impressionado.
Ela parou na beirada, sorrindo com orgulho.
— Vem cá, seu magricela! — chamou, estendendo a mão. — Hoje eu vou te ensinar a andar de verdade!
Léo riu, sem jeito.
— Eu sou HORROROSO de skate. Caio toda hora.
— E daí? -Nair deu de ombros. — Cair faz parte. Levanta e tenta de novo. Igual na música, né? Você não desistiu quando eu ouvi suas primeiras composições...
— Ei! — Léo fez cara de ofendido, mas sorria. — Elas eram boas!
— Eram TERRÍVEIS! — ela riu alto. — Mas você melhorou. Agora vem, deixa essa guitarra de lado e pega esse shape.
A aula foi caótica e engraçada.
Léo realmente era desastrado — tropeçava na própria sombra, tremia nas curvas, caía de bunda no chão pelo menos quatro vezes. Mas Nair tinha paciência infinita. Ela segurava a cintura dele, ajustava a postura dos pés, ria das quedas sem nenhuma malícia.
— Relaxa o ombro, amor. Você tá duro que nem pau.
— É que eu tô nervoso! — Léo confessou, ainda sentado no chão depois da quarta queda.
— Nervoso por quê? É só skate.
Ele olhou pra ela. Os olhos de Léo, normalmente escondidos atrás da franja, estavam completamente visíveis agora. Sinceros.
— Não é só skate. É... é você me ensinando. Eu quero impressionar você.
Nair sentou no chão ao lado dele. Pegou a mão dele — aquelas mãos de dedos longos, de músico, cheias de calos das cordas.
— Léo, você me impressiona todo santo dia. — ela falou baixinho, sem o tom de brincadeira de antes. — Quando você toca, quando você canta... meu Deus, eu fico arrepiada. Eu não sei fazer nada disso. Eu sou só... força. Só braço. Só queda de braço e skate.
— Você é muito mais que isso. — ele apertou a mão dela. — Você é... energia. É a coisa mais viva que eu já conheci.
Eles se olharam por um momento que pareceu eterno. O som distante de uma música no rádio de algum vizinho. O vento frio de Curitiba cortando o ar. Dois adolescentes completamente diferentes, completamente apaixonados.
— Tá bom — Nair quebrou o silêncio, se levantando e estendendo a mão pra ele. — Então vamos fazer um trato. Eu te ensino a andar de skate. Você me ensina a cantar.
Léo aceitou a mão, se levantando.
— Você quer cantar?
— Quero! — ela fez uma cara determinada. — Quero aprender a fazer aquilo que você faz. Quero... quero cantar junto com você algum dia.
***
No fim da tarde, já com as primeiras estrelas aparecendo, a cena era outra.
Léo conseguia, finalmente, descer a rampa sem cair. Era feio, era desengonçado, mas era DELE. Nair aplaudia de pé, vibrando como se ele tivesse acabado de ganhar uma competição.
E dentro do galpão, acontecia a outra parte do trato.
Léo sentou no sofá com o violão. Nair ficou em pé na frente dele, rígida, sem saber o que fazer com as mãos.
— Relaxa — ele disse, sorrindo. — Canta qualquer coisa. Só pra eu ouvir sua voz natural.
Nair fez cara de nojo.
— Minha voz natural é HORRÍVEL. Parece que tô arrastando lata no asfalto.
— Mentira. Canta.
Ela respirou fundo. Fechou os olhos. E cantou — desafinada, sem técnica nenhuma, mas com uma alma que Léo nunca tinha ouvido em ninguém. Era a voz de quem não tinha medo. De quem caía e levantava. De quem chegava em lugar novo e conquistava.
Quando acabou, Léo estava emocionado.
— Nair... isso foi lindo.
— Foi HORRÍVEL! — ela riu, envergonhada.
— Foi honesto. — ele se levantou, deixando o violão de lado. — E honesto é melhor que perfeito. Vamos treinar. Você vai cantar comigo na próxima apresentação. Prometo.
Os olhos dela se arregalaram.
— NÃO! Léo, eu vou passar VERGONHA!
— Nunca. — ele pegou o rosto dela nas mãos. — Comigo, você nunca passa vergonha. A gente aprende junto. Eu caio no skate, você desafina na música. E daí? A gente levanta, a gente tenta de novo. É assim que funciona, né?
Nair sorriu. Aquele sorriso largo, cearense, cheio de sol.
— É assim que funciona, sim.
***
Nas semanas seguintes, Curitiba testemunhou uma troca peculiar.
De manhã, Nair malhava na academia — agora com uma música de Léo nos fones, uma que ele tinha composto pensando nela. À tarde, ela andava de skate pelas ruas, ensinando o namorado magricela a não ter medo da velocidade. À noite, no galpão ou no apartamento minúsculo de Léo, ele a ensinava a respirar direito, a encontrar as notas, a confiar na própria voz.
E no bar onde Léo tocava, uma sexta-feira mudou tudo.
A banda estava no palco. O público era pequeno, íntimo — amigos, alguns fãs de carteirinha, o dono do bar. Nair estava na mesa da frente, como sempre, com o skate encostado na parede.
Mas dessa vez, no meio do set, Léo fez uma pausa.
— Essa próxima música — ele falou no microfone, olhando direto pra ela — eu escrevi pra alguém que me ensinou que não precisa ser perfeito. Só precisa ser verdadeiro. E ela vai cantar comigo.
O bar foi tomado por um "oooooh" coletivo. Nair congelou.
Léo estendeu a mão pra ela. O público começou a bater palmas. E Nair — a garota de 1,8 m, fortinha, cearense, que detestava aulas de português e vivia no skate — sentiu o coração disparar.
Ela subiu no palco. Tremia. Léo colocou um violão nas mãos dela — só pra apoio emocional, ele sabia que ela não ia tocar. Ficou de frente pra ela, com sua própria guitarra, e começou a tocar os primeiros acordes.
A música era simples. Um rock acústico, meio triste, meio esperançoso. E quando chegou a hora da voz, Nair cantou.
Desafinou em algumas partes. Esqueceu a letra em outra. Mas cantou com **tudo** que tinha. Com a alma de quem atravessou o país, de quem aprendeu a andar em ruas desconhecidas, de quem se apaixonou por um menino de franja loira que fazia música no escuro.
Quando acabou, o bar explodiu em aplausos.
Nair olhou pra Léo. Ele tinha lágrimas nos olhos.
— Eu te disse — ele sussurrou, só pra ela ouvir. — Você é imbatível.
Ela riu, envergonhada e feliz.
— Agora — ela falou, já recuperando o tom de comando — você vai descer a rampa comigo amanhã. Sem cair. Promete?
— Prometo. — Léo sorriu. — Desde que você prometa cantar comigo de novo.
— Feito.
Eles se beijaram no palco, sob os aplausos e os assobios do público. Dois mundos colidindo — o skate e a música, o Ceará e o Paraná, a força bruta e a sensibilidade artística.
Dois adolescentes aprendendo, juntos, que o amor é isso: ensinar, cair, levantar, e cantar mesmo quando a voz treme.
E na rampa do quintal do galpão, no dia seguinte, dois skates desceram juntos. Um com manobras perfeitas. Outro, desengonçado, mas de pé.
Dois corações batendo no mesmo ritmo.