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A Injeção

Tudo começou com uma dor de garganta besta. Eu, Chico, 16 anos, rei do campo, mestre do skate e… bom, vamos deixar claro, o terror das provas escolares. Minha mãe, Olívia, engenheira e especialista em encontrar defeitos em tudo, inclusive em mim, diagnosticou na hora: “Isso está feio. Vou chamar a enfermeira para uma injeção.” Injeção. A palavra soou como um apito de falta dentro da minha cabeça. Meu coração de atacante, que não treme na frente do goleiro, deu um salto mortal e foi parar na garganta. Eu tenho pavor de agulha. Não é um medinho, é um pânico nível “fuga em câmera lenta de filme de ação”. A enfermeira chegou. Era nova, uns 20 anos, com uma bolsinha que, para mim, parecia conter o equipamento de tortura mais moderno do mundo. Ela deu um sorriso simpático. Eu dei um sorriso congelado de pavor. “Vai ser rapidinho, Francisco”, disse minha mãe, no tom de quem está dando uma ordem para fechar um contrato. Rapidinho? Aquele segundo ia durar uma eternidade. Meu cérebro deu o sinal

Tudo começou com uma dor de garganta besta. Eu, Chico, 16 anos, rei do campo, mestre do skate e… bom, vamos deixar claro, o terror das provas escolares. Minha mãe, Olívia, engenheira e especialista em encontrar defeitos em tudo, inclusive em mim, diagnosticou na hora: “Isso está feio. Vou chamar a enfermeira para uma injeção.”

Injeção. A palavra soou como um apito de falta dentro da minha cabeça. Meu coração de atacante, que não treme na frente do goleiro, deu um salto mortal e foi parar na garganta. Eu tenho pavor de agulha. Não é um medinho, é um pânico nível “fuga em câmera lenta de filme de ação”.

A enfermeira chegou. Era nova, uns 20 anos, com uma bolsinha que, para mim, parecia conter o equipamento de tortura mais moderno do mundo. Ela deu um sorriso simpático. Eu dei um sorriso congelado de pavor.

“Vai ser rapidinho, Francisco”, disse minha mãe, no tom de quem está dando uma ordem para fechar um contrato.

Rapidinho? Aquele segundo ia durar uma eternidade. Meu cérebro deu o sinal. Meu corpo, treinado para dribles rápidos, obedeceu na hora. Corri em direção ao único lugar que me parecia seguro: o banheiro. Tranquei a porta.

“Francisco Anísio Brandão, você sai daí agora!” A voz da minha mãe atravessou a madeira. Do lado de fora, dava para ouvir o meu pai, Marcos Felipe, tentando fazer o seu papel de defensor: “Olha, Olívia, talvez dê para tomar um xarope…”. A resposta foi um olhar (eu senti sim) que deve ter feito ele engolir a sugestão junto com a saliva.

A negociação falhou. Ouviram-se chaves. A porta se abriu. Lá estavam eles, meus pais, formando uma dupla de defesa mais assustadora que qualquer zaga que eu já enfrentei. Meu pai, com cara de pena, e minha mãe, com cara de “isso vai acabar agora”.

Eles me agarraram, um de cada braço, e começaram a me arrastar para fora do banheiro. Eu me debati, igual um peixe no convés, mas a força combinada da engenharia e das vendas era muito para mim. A enfermeira assistia à cena, um pouco sem saber onde colocar a cara, segurando a sua bolsinha maligna.

Foi quando, no corredor, aconteceu o milagre. Ou a maior besteira da minha vida, ainda não decidi. Meu pai escorregou no tapete. Minha mãe, para não cair, soltou um pouco a minha camiseta. E eu, num reflexo digno da minha posição em campo, me soltei.

Mas em vez de correr para a porta da frente, o que qualquer pessoa normal faria, meu cérebro em pânico processou a informação de forma criativa. A ameaça era a enfermeira e a bolsa. A solução? Neutralizar a ameaça.

Em dois passos rápidos, eu estava atrás dela. Antes que ela ou meus pais reagissem, eu a agarrei gentilmente pelos ombros, empurrei-a para dentro do banheiro de onde eu tinha saído, e… TRANQUEI A PORTA.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eu fiquei do lado de fora, ofegante. Do lado de dentro, um leve “oi?” confuso da enfermeira. Meus pais pararam no corredor, completamente estáticos. Meu pai estava com a boca aberta. Minha mãe estava com os olhos arregalados, processando a inversão total dos papéis.

Foi meu pai quem quebrou o gelo. Ele olhou para a porta do banheiro, olhou para mim, e então começou a rir. Não era uma risadinha, era uma gargalhada gorda, daquelas que dobram a pessoa ao meio. “Ele… ele trancou a enfermeira!”, ele conseguiu falar entre um acesso e outro.

A minha mãe tentou manter a seriedade. “Marcos, isso não tem graça! Menino, destranca essa porta agora!”. Mas o queixo dela tremia. Ela estava segurando a risada com unhas e dentes.

Dentro do banheiro, a enfermeira falou, com uma voz surpreendentemente calma: “Tudo bem, dona Olívia. Eu… eu espero aqui. Quando o Chico se acalmar.”

Aí eu percebi a loucura do que eu tinha feito. Tranquei a pessoa que veio me ajudar no banheiro. A vergonha começou a bater, mas era misturada com um alívio enorme, porque a agulha ainda estava do outro lado da porta.

No final, depois do meu pai quase passar mal de rir e da minha mãe, finalmente, soltar um sorriso abafado, eu destranquei a porta. A enfermeira saiu, um pouco desconcertada, mas ainda sorrindo.

“Vamos tentar de outro jeito?”, ela sugeriu. E foi aí que ela revelou seu trunfo: ela tinha um spray para a garganta. Nem precisava de injeção. Era só um spray.

Eu fiquei ali, me sentindo o ser humano mais idiota do planeta. Toda aquela cena de cinema de ação, o sequestro da enfermeira no banheiro, o pavor épico… por um spray.

Minha mãe suspirou, mas os olhos dela estavam brilhando de diversão. Meu pai ainda estava se recuperando. “Filho”, ele disse, limpando uma lágrima, “no futebol você é bom, mas como fugitivo médico… você é lendário.”

Tomei o spray. A dor de garganta passou. E a história do dia em que eu, Chico, o medroso de agulha, fiz uma enfermeira refém no banheiro, entrou para a história da nossa família. Agora, toda vez que alguém fala em médico ou injeção, meu pai começa a rir de novo. E eu, bem… eu só espero que a enfermeira não tenha conta nas redes sociais.