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Nair Monteiro. A Fortona

Boatos na Escola

Tudo começou numa terça-feira sombria, véspera da prova de matemática do professor Vilmar. Eu estava mais perdido que cego em tiroteio. A última vez que eu tinha entendido algo, o assunto era "frações" e eu estava no sexto ano. "Preciso de um milagre, Davi," eu disse, encostado no armário, depois da aula. "Ou de um terremoto. Um incêndio. Qualquer coisa que cancele essa prova." Davi ficou pensativo, olhando para o quadro de avisos. "Um terremoto é difícil de produzir com pouco aviso prévio… mas um boato…" Meus olhos brilharam. "Fala mais." Ele se aproximou, baixando a voz. "A gente espalha que a prova foi cancelada. Que o Vilmar teve um imprevisto. Ninguém estuda. A média da turma vai lá pra baixo. Na hora da prova, o choque vai ser geral, ele vai ficar maluco, e talvez… só talvez… ele dê uma prova mais fácil depois, por pena." Era arriscado, idiota e totalmente dentro do nosso estilo. "Eu tô dentro. Como a gente faz?" O plano era simples, mas requintado. Na manhã da prova, chegamos c

Tudo começou numa terça-feira sombria, véspera da prova de matemática do professor Vilmar. Eu estava mais perdido que cego em tiroteio. A última vez que eu tinha entendido algo, o assunto era "frações" e eu estava no sexto ano.

"Preciso de um milagre, Davi," eu disse, encostado no armário, depois da aula. "Ou de um terremoto. Um incêndio. Qualquer coisa que cancele essa prova."

Davi ficou pensativo, olhando para o quadro de avisos. "Um terremoto é difícil de produzir com pouco aviso prévio… mas um boato…"

Meus olhos brilharam. "Fala mais."

Ele se aproximou, baixando a voz. "A gente espalha que a prova foi cancelada. Que o Vilmar teve um imprevisto. Ninguém estuda. A média da turma vai lá pra baixo. Na hora da prova, o choque vai ser geral, ele vai ficar maluco, e talvez… só talvez… ele dê uma prova mais fácil depois, por pena."

Era arriscado, idiota e totalmente dentro do nosso estilo. "Eu tô dentro. Como a gente faz?"

O plano era simples, mas requintado. Na manhã da prova, chegamos cedo. Davi, com sua cara de anjo e mochila de bom aluno, foi direto à sala dos professores. Eu fiquei de sentinela.

Ele voltou cinco minutos depois, com um sorriso discreto. "Feito. Conversei com a secretária, Dona Marlene. Falei que ouvi o professor Vilmar comentando com a coordenadora sobre adiar a prova por causa de uma palestra. Só comentei, sabe, numa boa."

Aí entrou a minha parte. Eu comecei a espalhar a "notícia" com a urgência de um repórter de guerra. Procurei os alunos mais crédulos e os mais fofoqueiros.

"Fala sério, Chico? Cancelou?" me perguntou a Juliana, a primeira da turma, já surtada.

"Tá maluca? Claro que não! O Vilmar nunca cancela nada!" retrucou o Luis, o cético.

Aí o Davi entrava em cena, com sua autoridade de aluno exemplar. "Poxa, eu até confirmei na secretaria. A Dona Marlene não confirmou oficialmente, mas deu a entender que tinha um imprevisto. Melhor não arriscar e perguntar pro Vilmar, né? Mas se for verdade, que bom, dá mais um tempinho pra estudar."

Era o equilíbrio perfeito entre informação e dúvida. A semente da desconfiança estava plantada. Na hora do intervalo, o colégio inteiro já "sabia" que a prova de matemática talvez, possivelmente, quiçá, estivesse cancelada. Ninguém abriu um livro. O clima era de festa.

O sinal tocou para a quinta aula. Matemática. A turma entrou na sala cantarolando e rindo. O professor Vilmar, um homem sério de óculos e bigode, colocou uma pilha de folhas na mesa.

"Bom dia, turma. Podem guardar o material. Vamos à prova."

Um silêncio gelado caiu sobre a sala. A Juliana empalideceu. O Luis me lançou um olhar que poderia derreter chumbo. Eu baixei a cabeça, fingindo procurar uma caneta no chão. O Davi, ao meu lado, abriu a mochila com uma lentidão dramática, como se também estivesse surpreso.

"Algum problema?" perguntou o Vilmar, arqueando uma sobrancelha.

"Não, professor… é que…" gaguejou a Juliana. "Rolaram uns boatos…"

"Boatos?" ele repetiu, e seu olhar varreu a sala, pousando em mim e no Davi. Eu senti um suor frio. "Em minha aula, a única coisa que rola são fórmulas e problemas. Quem quiser rolar boato, que role nota baixa. Mãos à obra."

O que se seguiu foi um espetáculo de tragédia cômica. Olhares de pânico, suspiros profundos, mãos suando. Eu, claro, estava na minha zona de conforto: a do chute educado. Marquei "C" em metade e desenhei um bonequinho skateboard na folha de rascunho.

Davi, ao meu lado, fazia a prova com uma concentração absurda, mas de vez em quando eu via o canto da boca dele tremer, tentando segurar o riso.

A prova foi um desastre coletivo. Até os alunos medianos se afundaram. Quando o Vilmar recolheu as folhas, seu rosto era uma mistura de incredulidade e fúria contida.

"Em vinte anos de magistério," ele começou, segurando as provas como se fossem provas de um crime, "nunca vi uma turma se sair tão uniformemente mal em uma avaliação tão simples. Isso não é falta de estudo. Isso é… sabotagem."

Na saída, éramos um bando de fantasmas. A Juliana estava chorando. O Luis veio até nós.

"Vocês dois. Foi coisa de vocês, né?"

"Eu não sei do que você está falando," disse Davi, com uma inocência que merecia um Oscar. "A gente também foi pego de surpresa."

"É, surpresa mesmo," eu completei, tentando parecer indignado. "Devem ter confundido as datas da palestra."

"Cara," eu disse, um sorriso surgindo no meu rosto. "Foi a nota mais cara que eu já tirei. Mas o caos que a gente criou hoje… foi arte pura. Próxima vez, a gente só precisa de um plano de fuga melhor."

"Próxima vez?" Davi riu. "Seu pai não vai nos defender mais"

"Ah, ele sempre acha um jeito," eu disse, chutando a bola contra a parede. "Afinal, o que é a vida sem um pouco de confusão planejada?"

***

"FRANCISCO ANÍSIO BRANDÃO! O QUE É ESSE 1,5 EM MATEMÁTICA? E A COORDENADORA ME FALOU DE UM BOLETIM SOBRE B O A T O S NA ESCOLA?"

E mais uma vez meu pai tentou amortecer o golpe. "Olha, Olívia, talvez tenha havido um mal-entendido… o menino deve ter se confundido…"

"Confundido, Marcos? CONFUNDIDO? Ele confundiu a cabeça dele com um abacaxi! Sem skate por um mês! E o Davi, está proibido de vir aqui até as notas subirem!"

Olhei para o meu skate encostado no canto do quarto, agora em regime de prisão domiciliar. A turma toda estava nos odiando. Minha mãe estava pronta para me enviar para um internato militar.

Peguei a bola de futebol debaixo da cama e balancei na mão.

E, mesmo com o skate confiscado e a prova em frangalhos, naquele momento, eu me senti o gênio do crime mais bem-sucedido e mais burro do mundo. Pelo menos a história seria boa de contar. No futuro. Bem no futuro, quando a poeira baixasse e minha mãe parasse de me chamar pelo nome completo.