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Nair Monteiro. A Fortona

O Alto-falante

Somos um trio perfeito. O Davi com as ideias, eu com a cara de pau, e a Nair com… bem, com a força física e a habilidade de rir de tudo. Ela virou cúmplice oficial das nossas aventuras. É hilário. Ela tem um sorriso maroto que combina perfeitamente com as nossas tramoias. Pois bem, hoje foi um daqueles dias. O Davi faltou – disse que estava com uma virose, mas eu suspeito que ele só queria dormir até mais tarde. Fiquei eu e a Nair, sozinhos, encarando a manhã de segunda-feira. A primeira aula era inglês com a professora Carla, que tem a paciência mais curta que um palito de dente. A Nair sentou do meu lado e sussurrou: “Tédio nível máximo. Algum plano, Chico?” Eu olhei para a professora, que escrevia verbos no quadro, e depois para a mochila da Nair. “Você trouxe aquele… negócio?” Ela abriu um sorriso largo e, devagar, puxou de dentro da mochila um pequeno alto-falante Bluetooth. A gente tinha usado ele uma vez para tocar a vinheta do “Chaves” no meio da aula de história. Funcionou per

Somos um trio perfeito. O Davi com as ideias, eu com a cara de pau, e a Nair com… bem, com a força física e a habilidade de rir de tudo. Ela virou cúmplice oficial das nossas aventuras. É hilário. Ela tem um sorriso maroto que combina perfeitamente com as nossas tramoias.

Pois bem, hoje foi um daqueles dias. O Davi faltou – disse que estava com uma virose, mas eu suspeito que ele só queria dormir até mais tarde. Fiquei eu e a Nair, sozinhos, encarando a manhã de segunda-feira. A primeira aula era inglês com a professora Carla, que tem a paciência mais curta que um palito de dente.

A Nair sentou do meu lado e sussurrou: “Tédio nível máximo. Algum plano, Chico?”

Eu olhei para a professora, que escrevia verbos no quadro, e depois para a mochila da Nair. “Você trouxe aquele… negócio?”

Ela abriu um sorriso largo e, devagar, puxou de dentro da mochila um pequeno alto-falante Bluetooth. A gente tinha usado ele uma vez para tocar a vinheta do “Chaves” no meio da aula de história. Funcionou perfeitamente.

O plano era simples: a Nair iria fingir uma dúvida super complexa sobre “present perfect” para distrair a professora. Enquanto isso, eu, com a ajuda do meu skate (que eu insisto em trazer pra sala, contra todas as regras), faria o alto-falante deslizar silenciosamente pelo corredor central, até perto da mesa da professora. No momento exato, tocaríamos um efeito sonoro de galinha cacarejando. Por quê? Porque sim.

A Nair levantou a mão. “Professora, uma dúvida. Quando a gente usa ‘have been’ em vez de ‘has been’ em frases interrogativas no passado, considerando a possibilidade de um sujeito indeterminado em contextos subjuntivos?”

A professora Carla parou, piscou algumas vezes, e foi até a mesa da Nair. Era a nossa deixa. Eu apoiei o skate no chão, coloquei o alto-falante em cima e dei um leve empurrão. O skate deslizou liso e quieto, como um patins no gelo. Era lindo.

Só que a gente esqueceu de um detalhe: o rodízio do skate. Ele fez uma curva suave e perfeita… direto para debaixo da cadeira do Leandro, o aluno mais assustadiço da sala. O skate parou, mas o alto-falante, com o impacto, caiu no chão.

E então, no silêncio absoluto da sala, enquanto a professora tentava decifrar a dúvida da Nair, o alto-falante disparou. Mas não era o cacarejo da galinha.

Era a música-tema completa de “Kung Fu Fighting”, no volume máximo.

BA-DA-DA-DA-DA-DA-DA-DA-DA! DAN-DAN-DAN-DAN-DAN-DAN-DAN!

A professora deu um pulo. O Leandro gritou “SOCORRO!” e se escondeu embaixo da mesa. O resto da sala explodiu em gargalhadas. A Nair tentou manter a pose séria, mas começou a soluçar de rir. Eu, tentando ser discreto, dei de ombros e comecei a fazer uns movimentos de kung fu com as mãos, sem conseguir me controlar.

Resultado: agora estamos aqui, eu e a Nair, de castigo na sala de direção. Temos que escrever cem vezes “I will not use skateboards as delivery vehicles for sound equipment in class.”

A Nair está escrevendo rápido, com a mesma determinação com que levanta peso. “Pelo menos foi engraçado,” ela disse, sem levantar os olhos do papel.

“Foi épico,” eu corrigi, rabiscando mais uma linha. “O Davi vai se arrepender de ter faltado.”

Ela ri. “Amanhã a gente pensa em algo melhor.”

Eu só consigo imaginar a cara da minha mãe quando a diretora ligar. Meu pai vai tentar achar um lado positivo. “Pelo menos foi criativo, filho!”

E sabe de uma coisa? Eles até têm razão. Pode ser que eu seja o pior aluno da turma. Mas, com amigos como a Nair e o Davi, eu sou, sem dúvida, o campeão em fazer a escola ser menos entediante. E, no final das contas, isso já é uma grande vitória.