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Historinhas (Tentando Compor)

A Transformação de Nair Monteiro. Uma Comédia Cearense em Curitiba

Nair Monteiro tinha 17 anos, 1,8m de altura, braços que pareciam ter sido esculpidos por Michelangelo em um dia de inspiração, e uma voz que ecoava pelo corredor da escola como trovão numa tarde de verão em Fortaleza. Ela chegou a Curitiba quatro meses atrás, trazendo consigo não só as malas, mas também o skate, os quatro pares de tênis de rodinha, e a convicção de que moletom era vestido de gala. — Nair, filha, você vai congelar nesse moletom rasgado! — protestava Ana, sua mãe, toda manhã. — Mãe, aqui em Curitiba o vento é de lei, mas eu sou de Ceará. Meu sangue é quente que nem cajuína! E assim ela ia, deslizando pelo asfalto gelado de Curitiba, o skate fazendo flip sob seus pés enquanto ela atravessava o Parque Barigui gritando "Ó O LOCO, MEU!" para os tucanos assustados. Na escola, Nair havia encontrado seus parceiros de travessura: Chico Brandão, que tinha o talento único de transformar qualquer aula de química em stand-up comedy, e Davi Fernandes, cuja habilidade de desenhar big

Nair Monteiro tinha 17 anos, 1,8m de altura, braços que pareciam ter sido esculpidos por Michelangelo em um dia de inspiração, e uma voz que ecoava pelo corredor da escola como trovão numa tarde de verão em Fortaleza. Ela chegou a Curitiba quatro meses atrás, trazendo consigo não só as malas, mas também o skate, os quatro pares de tênis de rodinha, e a convicção de que moletom era vestido de gala.

— Nair, filha, você vai congelar nesse moletom rasgado! — protestava Ana, sua mãe, toda manhã.

— Mãe, aqui em Curitiba o vento é de lei, mas eu sou de Ceará. Meu sangue é quente que nem cajuína!

E assim ela ia, deslizando pelo asfalto gelado de Curitiba, o skate fazendo flip sob seus pés enquanto ela atravessava o Parque Barigui gritando "Ó O LOCO, MEU!" para os tucanos assustados.

Na escola, Nair havia encontrado seus parceiros de travessura: Chico Brandão, que tinha o talento único de transformar qualquer aula de química em stand-up comedy, e Davi Fernandes, cuja habilidade de desenhar bigodes nos retratos dos diretores era lendária. Os três eram a trindade do caos organizado.

— Ô, Nair, aposta quanto que eu consigo colar aquele cartaz do "Proibido Correr" na testa do professor de Educação Física sem ele perceber? — desafiava Chico.

— Aposto meu almoço! — respondia Nair, já posicionando o celular para filmar.

Mas havia uma quarta pessoa, ou melhor, uma força da natureza em forma de patricinha loira: Alice.

Alice era o oposto cósmico de Nair. Enquanto Nair usava camisetas três números maiores "para poder respirar, rapaz", Alice usava saias rodadas que pareciam ter saído de um filme da Disney. Nair tinha cabelo preso; Alice tinha cachos dourados que pareciam ter sido penteados por anjos. Nair comia três pratos de arroz na cantina; Alice trazia salada de quinoa em potinhos organizados por cores.

E Alice tinha uma missão: salvar Nair de si mesma.

— Nair, querida, você tem um potencial — dizia Alice, examinando a amiga como um arquiteto examina um terreno baldio. — Você poderia ser uma deusa. Olha essas pernas! Olha esse corpo! Com um vestido decente e um salto... meu Deus, você faria os garotos trocarem de calçada!

Nair dava gargalhadas que faziam as janelas vibrarem.

— Alice, eu de salto alto? Eu ando de skate, rapaz! Eu malho pesado! Eu sou mais bruta que pancada de borracheiro! Vestido é coisa que rasga quando eu faço agachamento!

— Mas é exatamente por isso que você precisa de uma transformação! — insistia Alice, seus olhos azuis brilhando com a determinação de quem queria fazer um makeover de programa de TV. — A festa de aniversário da Juliana é sábado. Eu desafio você. Uma noite. Apenas uma noite de princesa. Minha prima tem um vestido azul que vai ficar perfeito em você. E eu tenho um par de saltos prateados que...

— SALTOS? — Nair quase engasgou com o suco de laranja. — Alice, eu com salto alto sou tipo elefante em patins de gelo!

— Aceita o desafio ou tem medo de descobrir que pode ser bonita? — provocava Alice, sabendo exatamente onde cutucar.

Nair cruzou os braços, os músculos fazendo a manga do moletom esticar.

— Medo? EU? Nair Monteiro? Rapaz, eu enfrento raia de skate de quatro metros de altura! Eu levanto peso que três garotos juntos não conseguem! Eu como pimenta malagueta no café da manhã! Aceito seu desafio, Alice. Sábado eu vou aparecer na festa. Mas quando der errado — e VAI dar errado — você nunca mais tenta me enfiar em saia!

— Fechado! — Alice sorriu, já planejando a transformação.

Os dias que se seguiram foram um espetáculo de preparação. Alice arrastou Nair para shopping, depois para o salão de beleza, depois para a casa da prima para experimentar o vestido.

— Nair, para de rir! A máscara de cílios vai borrar! — reclamava a manicure.

— É que a Alice tá com cara de quem descobriu a cura pro câncer, rapaz! Tô só de vestido, não tô sendo batizada!

Quando Nair finalmente se olhou no espelho, até ela ficou sem palavras por três segundos — recorde mundial.

O vestido azul realmente valorizava seus ombros largos e cintura fina. O salto prateado de 12 centímetros fazia suas pernas parecerem intermináveis. O cabelo, solto e com ondas suaves, caía como uma cascata pelas costas. A maquiagem suavizava seus traços fortes sem escondê-los.

— Eu... eu tô... — Nair gaguejava.

— Linda — completou Alice, lágrimas nos olhos. — Você está absolutamente linda, Nair.

— Eu tava pensando em "desconfortável", mas "linda" também serve — Nair riu, já tropeçando nos saltos. — Alice, como é que vocês andam nessas coisas? Parece que tô equilibrando dois palitos de dente em cima de uma bola!

— É só prática! — Alice demonstrava, deslizando graciosamente pela sala. — Coloca o peso no calcanhar, depois na ponta. Postura ereta. Quadril levemente para fora. Sorriso delicado.

Nair tentou. Parecia um robô com falha no sistema. Depois parecia um flamingo com cãibra. Depois parecia simplesmente Nair tentando não morrer.

— Vai dar certo — Alice dizia, mais para si mesma do que para Nair.

A noite da festa chegou. Chico e Davi foram buscar as meninas na casa de Alice.

Quando a porta se abriu e Nair apareceu, os dois ficaram em silêncio por exatos cinco segundos — outro recorde mundial.

— É... é a Nair? — Chico piscou.

— Em carne, osso, e salto alto — Nair fez uma pose desajeitada, quase caindo no sofá. — Fala logo que eu tô ridícula, Chico. Eu sei que tá na ponta da língua.

— Ridícula não — Davi finalmente encontrou a voz. — É que... você tá diferente. Tipo, muito diferente. Tipo, se eu te visse na rua não ia reconhecer diferente.

— Isso é bom ou ruim? — Nair perguntou, já sentindo a ansiedade no peito.

— É... — Chico trocou olhares com Davi. — É que a gente gosta de você do jeito que você é, sabe? Com seu moletom e seu skate e seu "ó o loco, meu!".

— Eu sei, eu sei — Nair suspirou, ajustando o vestido. — Mas é só uma noite. Uma noite de princesa pra provar pra Alice que não dá certo, e aí ela me deixa em paz com meus tênis de rodinha.

A festa era na casa de Juliana, uma mansão no Batel com piscina, DJ, e gente bonita por todos os lados. Quando Nair entrou — ou melhor, quando Nair entortou pela porta, segurando na moldura para não cair — a atenção se voltou para ela.

— Uau, quem é essa? — alguém sussurrou.

— É aquela menina nova, a do skate... — outra pessoa respondeu.

Nair sentiu o calor subir pelo pescoço. O salto estava matando seus pés. O vestido não permitia movimentos amplos — e Nair era TODO movimento amplo. Ela se sentia presa numa armadura de seda.

— Você está arrasando! — Alice sussurrou, radiante. — Todo mundo está olhando!

— É, tão olhando pra ver quando eu vou cair — Nair resmungou, tentando pegar um suco sem dobrar os joelhos (impossível no vestido).

Chico e Davi apareceram ao lado dela.

— Nair, vem dançar! — Davi puxou seu braço.

— Não posso! O vestido... os saltos... eu vou...

— Vai nada! É só uma música!

Nair hesitou, mas viu Alice observando com aquele olhar de "você consegue". Respirou fundo. Uma música. Apenas uma música. Ela podia fazer isso.

A música começou. Nair tentou balançar os quadris — o vestido rangeu em protesto. Tentou girar — o salto pegou na própria perna. Tentou dar um passo para trás — e foi aí que a física cearense encontrou a gravidade curitibana.

O salto deslizou na pista de dança lustrada.

Nair tentou se equilibrar, acenando os braços como uma turbina de helicóptero.

O vestido rasgou na lateral com um som de "riiip" que ecoou pelo salão.

E então, em câmera lenta digna de filme de comédia, Nair Monteiro caiu.

Mas não foi uma queda qualquer. Foi uma queda espetacular. Ela derrubou a mesa de doces no caminho. Engoliu um balão decorativo. Aterrisou na piscina rasa de plantas ornamentais. O vestido azul voou por cima da cabeça. Um salto alto foi parar no bolo de aniversário. O outro atingiu o DJ, que pulou e trocou a música de funk para "I Will Survive" — apropriado, mas involuntário.

O silêncio durou um segundo.

E então, antes que qualquer outra pessoa pudesse reagir, antes que Alice pudesse correr para ajudar, antes que Chico e Davi pudessem conter o riso, uma gargalhada enorme ecoou pelo salão.

Era Nair.

Deitada na fonte, molhada, vestido rasgado, maquiagem escorrendo, segurando um peixinho ornamental que nadava em seu colo, Nair ria. Ria de barriga, ria de alma, ria com toda a força dos seus 17 anos de cearense que não sabia ficar de salto alto.

— Ó O LOCO, MEU! — ela gritou entre gargalhadas. — EU AVISEI! EU AVISEI QUE IA DAR ERRADO!

E então, como se tivessem esperado permissão, todo o salão explodiu em risadas. Chico e Davi choravam de rir, apoiados um no outro. Alice, inicialmente chocada, começou a rir também — uma risada tímida no começo, depois descontrolada. Até Juli, a aniversariante, ria enquanto tirava o salto do bolo.

Nair se levantou da fonte, toda molhada, o vestido azul agora colado e rasgado de formas estratégicas que a faziam parecer uma sereia que tinha passado por um acidente de trator. Ela fez uma reverência teatral para a plateia, quase caindo de novo.

— Senhoras e senhores! — ela anunciou, como se estivesse no palco do Teatro Guaíra. — A transformação de Nair Monteiro! De princesa para... para... — ela olhou para si mesma — ...para Nair molhada!

Aplausos. Mais risadas. Alguém gritou "mitou!"

Alice finalmente conseguiu chegar até ela, ofegante.

— Nair, meu Deus, você tá bem? O vestido da minha prima... o salto no bolo... eu tô tão...

— Alice — Nair segurou os ombros da amiga, ainda rindo. — Alice, olha pra mim. Olha bem.

Alice olhou. Nair estava desgrenhada, molhada, sem maquiagem, o cabelo voltando ao seu estado natural, o vestido destruído, um pé descalço e outro ainda no salto que sobrevivera.

— Eu sou assim — Nair disse, simples. — Eu sou desastre ambulante. Eu sou barulho. Eu sou skate, academia e moletom rasgado. Eu sou "ó o loco, meu!" e risada que quebra vidro. Eu não sou princesa, Alice. Eu sou... eu sou a Nair. E sabe de uma coisa?

Ela olhou ao redor. Chico e Davi ainda riam, mas era risada de carinho, de "a nossa Nair voltou". Outros colegas se aproximavam, não para zombar, mas para dar high-five, para tirar selfies com a "Nair da fonte", para dizer que aquela tinha sido a melhor festa de todos os tempos.

— Sabe de uma coisa? — Nair repetiu, sorrindo. — Todo mundo gosta de mim assim. E eu gosto de mim assim. Então, obrigada pelo vestido. Obrigada pela noite. Mas eu vou voltar pro meu moletom agora, pode ser?

Alice olhou para a amiga, realmente olhou, e pela primeira vez viu que Nair não precisava de transformação. A beleza dela estava na força, na autenticidade, na capacidade de rir primeiro de si mesma.

— Pode — Alice disse, sorrindo. — Mas eu vou manter uma foto dessa noite. Para provar que você pode ser princesa quando quiser. Só escolhe não ser. E isso é ainda mais poderoso.

— Isso aí é papo de patricinha motivacional? — Nair brincou.

— É papo de amiga que aprendeu uma lição.

Nair tirou o salto sobrevivente, jogou para o alto — Chico pegou no ar como se fosse uma bola de futebol — e caminhou descalça pela festa, deixando rastros de água da fonte, cumprimentando todo mundo, já planejando como contaria essa história para os pais.

Os pais da Nair, Daniel e Ana, quando ouviram, riram até doer a barriga.

— Minha filha — Daniel disse, orgulhoso. — Você caiu, mas caiu sendo você. Isso é que é importante.

— E da próxima vez — Ana acrescentou — usa tênis de rodinha debaixo do vestido. Só para garantir.

Nair adorou a ideia.

Na segunda-feira seguinte, ela apareceu na escola com o skate, o moletom favorito, o tênis surrado, e uma camiseta nova que Chico e Davi tinham feito para ela. Dizia:

"CAÍ, LEVEI A MESA DE DOCES, MAS MITEI."

E embaixo, em letras menores:

"Transformação de Alice. Patrocínio: uma fonte ornamental e um bolo de aniversário."

Alice usou a camiseta também. Com uma saia rodada e sapatilha.

E assim, entre risadas e skate, Nair Monteiro continuou sendo exatamente quem ela era: alta, forte, bruta, autêntica, e absolutamente adorável do seu jeito.

Porque no final das contas, a única transformação que importa é a que te faz ser mais você.

E Nair nunca mais usou salto alto. Mas guardou o vestido azul rasgado como troféu. E às vezes, só para provocar Alice, usava ele por cima do moletom para andar de skate.

— Ó O LOCO, MEU!