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O Sabor do Café Derramado. Uma História de Nair e Gui...

O sol de Curitiba não tinha nada a ver com o de Fortaleza. Nair Monteiro sentia isso na pele toda vez que saía de casa às seis da manhã, skate embaixo do braço, indo pra praça treinar antes das aulas. O frio cortava diferente — não era o calor úmido do Ceará que abraçava, era algo que pinicava, desafiava. Mas Nair não desafiava. Ela abraçava desafios. "Ô, Nair! Ollie de novo?" gritou o Davi, o amigo de escola que virou irmão de coração desde que ela chegou no Paraná. "Fica vendo, Fernandes!" Ela deu impulso. A prancha grudou nos pés como extensão do corpo. O salto foi limpo, perfeito. Aterrissou com aquele sorriso largo de quem nasceu para voar sobre quatro rodinhas e um pedaço de madeira. Davi bateu as palmas: "Arrasou, vizinha!" Nair riu, mas o coração deu aquela apertada. "Vizinha". Não. Ela queria outra coisa com o sobrenome Fernandes. Guilherme Fernandes tinha 21 anos, cursava Literatura na UFPR e vivia com o nariz enfiado em livros. Óculos redondos e aquele jeito quieto de quem

O sol de Curitiba não tinha nada a ver com o de Fortaleza. Nair Monteiro sentia isso na pele toda vez que saía de casa às seis da manhã, skate embaixo do braço, indo pra praça treinar antes das aulas. O frio cortava diferente — não era o calor úmido do Ceará que abraçava, era algo que pinicava, desafiava.

Mas Nair não desafiava. Ela abraçava desafios.

"Ô, Nair! Ollie de novo?" gritou o Davi, o amigo de escola que virou irmão de coração desde que ela chegou no Paraná.

"Fica vendo, Fernandes!"

Ela deu impulso. A prancha grudou nos pés como extensão do corpo. O salto foi limpo, perfeito. Aterrissou com aquele sorriso largo de quem nasceu para voar sobre quatro rodinhas e um pedaço de madeira.

Davi bateu as palmas:

"Arrasou, vizinha!"

Nair riu, mas o coração deu aquela apertada. "Vizinha". Não. Ela queria outra coisa com o sobrenome Fernandes.

Guilherme Fernandes tinha 21 anos, cursava Literatura na UFPR e vivia com o nariz enfiado em livros. Óculos redondos e aquele jeito quieto de quem observa mais do que fala.

Nair o conheceu no primeiro dia na casa dos Fernandes. Davi apresentou: "Meu irmão, o sábio." Gui olhou por cima do livro, sorriu educado, disse "Bem-vinda" e voltou a ler.

Só que Nair não conseguia parar de olhar.

Ela começou a malhar mais. Levantava peso na academia até os músculos gritarem, achando que força física se traduzia em idade, em maturidade, em possibilidade. Se ela fosse forte o suficiente, talvez ele visse. Se ela fosse alta o suficiente, imponente o suficiente...

"Nair, você tá ficando gigante," Davi brincava. "Vai virar Hulk!"

"Quero ficar adulta," ela murmurava entre séries de agachamento.

"Adulta? Você tem 17, pô. Aproveita!"

Mas Nair não queria aproveitar. Queria GUILHERME.

***

O outono chegou. As folhas caíam na praça onde Nair treinava, e ela inventou desculpas para passar na frente da casa dos Fernandes.

"Oi, Gui!" — ela tentava soar casual, jogando o cabelo preto para trás.

"Oi, Nair. Davi está em casa"

Sempre Davi. Sempre o irmão mais novo. Sempre a menina de dezessete anos que ele... ignorava como mulher.

Até que Nair decidiu. Chega. Ela ia se declarar.

Passou o dia inteiro escolhendo roupa. Nada de regata de academia. Roupa simples, jeans, uma blusa que não mostrava tanto os músculos — tentando parecer delicada, ou seja, adequada para um universitário magro e sério.

Foi até a praça onde sabia que Gui estudava às tardes. O coração batia tão forte que ela sentia na garganta.

E então viu.

Guilherme não estava sozinho. Estava sentado no banco de sempre, mas agora dividindo o espaço com uma garota de cabelo loiro claro, curto, óculos parecidos com os dele, rindo baixinho de algo que ele dizia no livro aberto entre ambos.

Paula. A colega da faculdade. A "séria igual a ele", como Davi mencionou uma vez sem querer.

-2

Nair parou. O mundo girou. Ela viu Gui tocar a mão de Paula para mostrar uma passagem. Viu os olhos dele brilharem daquele jeito que ela sonhava que brilhassem para ela.

"Sou muito nova", pensou. "Nunca serei Paula. Nunca serei séria o suficiente, madura o suficiente, adequada o suficiente."

Ela correu.

Não olhou para trás enquanto suas pernas fortes a levavam longe, longe, para onde não doesse.

A praça central de Curitiba estava cheia. Nair corria sem ver, sem sentir, as lágrimas misturadas com o vento frio que ela nunca aprende a amar.

Bateu em alguém.

O impacto foi seco. Ela — alta, forte, musculosa — contra ele, que era quase da sua altura mas mais magro, mais... surpreso.

O copo de café voou. Explodiu no chão, líquido quente espirrando nas pernas de ambos.

"Meu Deus, desculpa!" Nair disse automática, a voz embargada.

"Nossa, foi mal, eu não vi" - ele começou.

Eles se olharam.

O garoto tinha cabelo loiro, olhos claros, uma camiseta de banda que Nair não reconheceu. E um sorriso... um sorriso que não parecia irritado, mesmo com café na calça jeans.

"Você tá chorando," ele notou.

"Não," ela mentiu.

"Está sim." Ele pegou um lenço de papel do bolso — quem carrega lenço de papel? — e ofereceu. "Aqui. E olha, o café era meu, mas você parece precisar mais."

Nair riu. Um som surpreso, rouco, real.

"Sou Leonardo. Léo." Ele estendeu a mão. "E você é a garota que acabou de destruir meu café e provavelmente minha dignidade, porque todo mundo tá olhando."

Nair olhou em volta. Realmente, algumas pessoas observavam. Ela riu de novo, mais forte.

"Nair. E desculpa mesmo. Posso... posso te pagar outro?"

Léo fingiu pensar. "Hmm, depende. Você vai continuar correndo assim? É perigoso. Pode derrubar alguém menos compreensivo."

"Não," ela disse, e dessa vez era verdade. "Acho que... parei de correr."

Ele sorriu. Não era o sorriso sério e contido de Guilherme. Era aberto, cheio de dentes, cheio de vida.

"Então aceito o café. E talvez... uma explicação? Sobre por que uma skatista profissional — vi você treinando ontem, aliás, manobra insana — tá chorando no meio da praça?"

Nair arqueou uma sobrancelha. "Me viu treinando?"

"Sou fã agora. Número um. Tenho até camiseta pra provar." Ele mostrou a blusa: SKATE OR DIE.

Ela riu. De verdade. E pela primeira vez em dois meses, não pensou em Guilherme Fernandes.

***

Três semanas depois, Nair ainda malhava, andava de skate. Ainda era alta, forte, cearense em território paranaense.

Mas algumas coisas mudaram.

Ela não tentava mais parecer adulta. Não tentava ser Paula. Não tentava encolher seus músculos ou esconder suas manobras.

E estava na praça tomando café leve com Léo. Ele era músico, de 19 anos, tocava guitarra e violão em um bar e ria das piadas dela mesmo quando não eram engraçadas.

-3

"Então," Léo disse, "aquele cara que você mencionou uma vez..."

"Gui?"

"Esse. Você ainda...?"

Nair pensou. Pensou nos olhos de Gui sobre os livros, na Paula séria ao lado dele, na menina de 17 anos que achava que precisava mudar para ser amada.

"Não," ela disse, e soube que era verdade. "Ele nunca me viu de verdade."

"E o que você é?"

Nair sorriu. Olhou para suas mãos fortes, para as pernas que a levavam voando no skate, para o coração que batia livre agora.

"Sou Nair. Skatista. Cearense. Forte demais, alta demais, barulhenta demais. E tá tudo bem."

Léo olhou para ela. Realmente olhou. E seu sorriso foi tão quente que fez Nair esquecer o frio de Curitiba.

"Barulhenta é bom," ele disse. "Eu toco música. Combina."

E naquele momento, enquanto o sol se punha sobre a praça e o café — dessa vez intacto — esfriava entre as mãos deles, Nair entendeu.

Amor não era sobre ser adequada. Era sobre ser vista.

E Léo via cada pedaço dela — a força, a queda, o riso, a garota que derrubava cafés e corações sem querer.

Do outro lado da praça, Guilherme Fernandes passou com Paula. Olhou para Nair, reconheceu, levantou a mão num cumprimento distante.

Nair acenou de volta. Educada. Distante. Livre.

E voltou para a conversa com Léo, que estava contando uma história ridícula sobre um gato que invadiu o palco durante um show.

O coração de Nair não apertou. Não doeu. Apenas... bateu. Normal. Forte. Cheio de possibilidades que não envolviam mudar quem ela era.

E quando Léo, corando, perguntou se ela queria ir a um show dele no sábado, Nair disse sim.

Não porque precisava parecer adulta.

Mas porque queria ver o que acontecia quando duas pessoas se olhavam de verdade.

E na praça de Curitiba, sob o sol que não era de Fortaleza mas tinha seu próprio brilho, Nair Monteiro aprendeu que o amor verdadeiro não exige que você malhe até virar outra pessoa.

Ele apenas pede que você seja — inteira, forte, e pronta para cair e levantar de novo.