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Professora Olívia

Agora, vamos ao desequilíbrio total do dia: a prova de Física. Minha mãe, Olívia Brandão, é engenheira. Ela não é rígida; ela é feita de concreto armado com um diploma de honra ao mérito. Meu pai, Marcos, é vendedor. O coração dele é mole, ele tenta me defender, mas quando vê meus boletins, parece que a palavra que ele ia falar fica presa na garganta e vira um suspiro. — Chico, temos que falar sobre suas notas — anunciou minha mãe no jantar, com a seriedade de quem vai lançar um foguete. — Mas, amor, o time ganhou hoje, ele fez dois gols — tentou meu pai, espetando um pedaço de batata. — Marcos, gols não passam de projéteis lançados em trajetória parabólica. É Física pura. Se ele entende isso em campo, pode entender na prova. E foi assim que, no sábado de manhã, troquei o treino pelo suplício. A cena: a sala de jantar, transformada em sala de aula. Eu, a vítima. Ela, a professora. O livro, o algoz. — Muito bem, Chico. Vamos começar pelo básico: as leis de Newton. — Primeira lei: um cor

Agora, vamos ao desequilíbrio total do dia: a prova de Física.

Minha mãe, Olívia Brandão, é engenheira. Ela não é rígida; ela é feita de concreto armado com um diploma de honra ao mérito. Meu pai, Marcos, é vendedor. O coração dele é mole, ele tenta me defender, mas quando vê meus boletins, parece que a palavra que ele ia falar fica presa na garganta e vira um suspiro.

— Chico, temos que falar sobre suas notas — anunciou minha mãe no jantar, com a seriedade de quem vai lançar um foguete.

— Mas, amor, o time ganhou hoje, ele fez dois gols — tentou meu pai, espetando um pedaço de batata.

— Marcos, gols não passam de projéteis lançados em trajetória parabólica. É Física pura. Se ele entende isso em campo, pode entender na prova.

E foi assim que, no sábado de manhã, troquei o treino pelo suplício. A cena: a sala de jantar, transformada em sala de aula. Eu, a vítima. Ela, a professora. O livro, o algoz.

— Muito bem, Chico. Vamos começar pelo básico: as leis de Newton.

— Primeira lei: um corpo em movimento tende a ficar em movimento… — ela começou, cheia de vigor.

— …até tentar um ollie em um corrimão muito alto e encontrar o repouso bruscamente no chão — completei, com um sorriso.

— Francisco Anísio! Isso não é engraçado! — ela bateu a caneta na mesa. — Vamos focar. Segunda lei: F = m*a. Força é igual à massa vezes a aceleração.

Meu cérebro, imediatamente, decidiu traçar um paralelo.

— Tipo… a força do senhor Zé, o padeiro, (F) é igual à massa do pão francês (m) que ele joga pra mim, vezes a aceleração (a) com que eu corro pra pegar antes do meu cachorro?

Minha mãe fechou os olhos e respirou fundo. Eu juro que vi um pequeno tremor no lábio dela. De raiva ou de riso reprimido? Mistério.

— Vamos tentar a terceira lei. Para toda ação, há uma reação de mesma intensidade e direção oposta.

Aí, brilhei.

— Ah, ESSA eu entendo! Tipo: a ação é a mamãe me obrigando a estudar. A reação é o meu cérebro desligando com a mesma intensidade e indo pensar em como melhorar meu kickflip.

Dessa vez, meu pai, que estava fingindo ler o jornal na cozinha, soltou uma risada abafada que terminou num ataque de tosse.

A gota d’água foi o problema da rampa.

— Um skatista de 60 kg desce uma rampa com inclinação de 30 graus… — ela leu, triunfante.

— Nossa, que específico! — comentei.

— Calcule a velocidade ao final da rampa, desprezando o atrito.

Eu olhei para o problema. Olhei para a janela. Olhei para o meu skate encostado no corredor. A conexão foi inevitável.

— Mamãe, posso ir testar na prática? Pra entender melhor o fenômeno?

— CHICO!

— Tá bom, tá bom! — ergui as mãos. — Mas o problema tá errado.

— Como assim, errado? — ela arregalou os olhos.

— Ninguém ‘despreza o atrito’ no skate. O atrito é o que te mantém vivo! Sem atrito, eu ia sair voando da rampa igual a um frango no espeto! E outra, quem é o skatista de 60 kg? O Davi deve ter uns 65, no mínimo. Esse problema é irreal.

Minha mãe ficou em silêncio por um longo minuto. Ela olhou para mim. Olhou para as anotações cheias de desenhos de skates e bolas de futebol que eu tinha feito na margem do caderno. Olhou para o céu, como se pedindo paciência aos deuses da engenharia.

— Marcos! — ela chamou, com uma calma assustadora.

Meu pai apareceu na porta, apreensivo.

— Sim, amor?

— Liga para aquele anúncio do professor particular. O de Física e… — ela fez uma pausa dramática, olhando para mim — “…preferencialmente que goste de esportes.”

E assim, a aula particular foi contratada. No primeiro dia, o professor, um cara jovem chamado Léo, chegou com uma bola de basquete e uma rampa de brinquedo.

— Ouvi dizer que você gosta de coisas em movimento, Chico. Que tal a gente calcular a força do seu chute no futebol?

Meus olhos brilharam. Pela primeira vez, Física não parecia uma língua alienígena. Era só a matemática da zoeira e do esporte.

E no final das contas, minha mãe tinha razão. Tudo era Física. Minha falta de equilíbrio nas provas e meu equilíbrio perfeito no skate. A ação dela de me ensinar e a reação do meu cérebro finalmente se interessar. E a lei mais importante de todas, descoberta por mim, Chico Brandão: para toda mãe engenheira desesperada, há um professor particular com uma bola nas mãos pronto para salvar o dia. E o semestre.