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"Melhoras, Chico"

Aí chegou aquele fim de semana. O Davi viajou para São Paulo visitar os tios. Ficou combinado de eu e a Nair treinarmos. O céu estava limpo, aquele sol gostoso de final de tarde. Estávamos sozinhos no park. “Vou te ensinar a fazer um ollie perfeito, de verdade”, ela disse, com um sorriso maroto. “O seu ainda tá meio travado no ar.” “Travado? O meu ollie é suave!”, eu protestei, mas sabia que ela tinha razão. Ela demonstrou. Era bonito de ver. Seu corpo se movia com uma fluidez que parecia desafiar a gravidade. O skate grudava nos pés dela. Depois, foi minha vez. “Relaxa os ombros”, ela orientou, ficando ao meu lado. “Concentra no pop e no deslize do pé.” Tentei. Uma, duas, três vezes. O skate subia, mas de um jeito meio seco, sem a elegância do dela. Eu me concentrava tanto que até cerrava os dentes. “De novo”, ela insistia, paciente. “Você consegue.” Na quarta tentativa, algo clicou. Senti o movimento fluir. O skate subiu lindo, reto. Pela primeira vez, parecia certo. O sentimento f

Aí chegou aquele fim de semana. O Davi viajou para São Paulo visitar os tios. Ficou combinado de eu e a Nair treinarmos. O céu estava limpo, aquele sol gostoso de final de tarde. Estávamos sozinhos no park.

“Vou te ensinar a fazer um ollie perfeito, de verdade”, ela disse, com um sorriso maroto. “O seu ainda tá meio travado no ar.”

“Travado? O meu ollie é suave!”, eu protestei, mas sabia que ela tinha razão.

Ela demonstrou. Era bonito de ver. Seu corpo se movia com uma fluidez que parecia desafiar a gravidade. O skate grudava nos pés dela. Depois, foi minha vez.

“Relaxa os ombros”, ela orientou, ficando ao meu lado. “Concentra no pop e no deslize do pé.”

Tentei. Uma, duas, três vezes. O skate subia, mas de um jeito meio seco, sem a elegância do dela. Eu me concentrava tanto que até cerrava os dentes.

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“De novo”, ela insistia, paciente. “Você consegue.”

Na quarta tentativa, algo clicou. Senti o movimento fluir. O skate subiu lindo, reto. Pela primeira vez, parecia certo. O sentimento foi de pura euforia. Eu ia conseguir! No auge do salto, já antecipando a aterrissagem perfeita, as rodas dianteiras travaram num grão de areia que não tinha visto.

O tempo desacelerou. O skate parou no ar. Eu não. Minha perna esquerda torceu de um jeito nada natural, e eu caí de lado no concreto com um baque surdo que ecoou no park vazio.

A dor foi instantânea, uma facada quente e aguda que subiu da perna até o meu cérebro. Eu gritei. Um grito curto, rouco, de pura surpresa e agonia.

A Nair começou a rir. Acho que foi reflexo, vendo a queda besta. Mas a risada morreu na boca dela antes mesmo de começar. Ela viu meu rosto contorcer, viu eu tentar me levantar e cair de volta, segurando a canela.

“Chico?”, a voz dela perdeu todo o humor. “Chico, você tá bem?”

“Não”, eu consegui gemer. “Não tô não. Acho que quebrei alguma coisa.”

O rosto dela ficou pálido. Em dois segundos, ela estava ajoelhada ao meu lado. “Não mexe. Deixa eu ver.” Suas mãos, que eu só tinha visto fazendo manobras ou segurando um copo de suco, tocaram minha perna com uma delicadeza que me surpreendeu. Ela examinou rapidamente, profissionalmente. “Não tá exposto, mas inchou muito rápido. Temos que ir ao hospital. Você consegue ficar em pé se eu te ajudar?”

Eu balancei a cabeça, duvidando. A dor era uma coisa viva e latejante. Ela não hesitou. Colocou meu braço sobre os ombros dela. “Vamos. Põe o peso em mim.”

Ela era forte. Muito mais forte do que eu imaginava. Me levantou sozinha, e eu, mancando horrivelmente, me apoiei nela. O skate dela ficou para trás, esquecido. O caminho até a minha casa, que era perto, parecia uma maratona. Cada passo era uma facada. Eu suava frio.

Ela não reclamou nem uma vez do meu peso. Só falava baixinho: “Devagar… mais um pouco… você tá indo bem, Chico.” O cheiro dela era de protetor solar e suor leve, um cheiro real, de quem tinha acabado de se movimentar muito. Meu rosto ficava perto do pescoço dela a cada passo desengonçado.

Quando finalmente chegamos ao meu portão, eu estava quase desmaiando de dor e vergonha. Ela me ajudou a sentar nos degraus da frente. “Preciso chamar seus pais. Cadê a chave?”

Eu entreguei a chave, minhas mãos tremendo. Ela abriu a porta e sumiu dentro de casa. Ouvi a voz dela, firme e clara, explicando para minha mãe o que tinha acontecido. Minha mãe, normalmente tão controlada, apareceu na porta com os olhos arregalados de preocupação. Meu pai já estava pegando as chaves do carro.

Enquanto meu pai me ajudava a entrar no carro, a Nair ficou parada na calçada, os braços cruzados, observando. Sua camiseta estava suja de poeira do concreto onde ela se ajoelhou. Ela parecia… séria. Preocupada de um jeito que ia além do “ah, que pena que meu amigo se machucou”.

Meu pai estava prestes a dar partida quando ela se aproximou da janela do passageiro, onde eu estava. Ela se inclinou.

“Melhoras, Chico”, ela disse. E então, sem nenhum motivo aparente, ela esticou a mão e afastou um fio de cabelo suado da minha testa. O toque foi rápido, leve como a asa de um pássaro, mas pareceu queimar minha pele. “Depois me conta como foi no hospital, tá?”

Eu só consegui balbuciar um “tá”. Meu pai acelerou, e eu virei para olhar pela janela de trás. Ela ainda estava lá, em pé na calçada, vendo o carro ir embora, com a mão que tinha me tocado agora levantada em um aceno lento.

A dor na perna era uma coisa. Mas aquela sensação estranha no peito, quente e confusa, era outra completamente diferente. E, por mais estranho que pareça, naquele momento, a queda idiota no skate foi a última coisa na minha mente.