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Trabalho de Biologia

Eu nunca fui bom com livros, números, fórmulas... meu negócio sempre foi a bola. Me chamo Francisco, mas todo mundo me chama de Chico. Tenho 16 anos, sou paranaense de coração e, sem falsa modéstia, o pior aluno da escola. Minhas notas são um desastre. Mas coloca uma bola no meu pé e me bota num campo, aí a história é outra. Sou o melhor jogador de futebol que esse colégio já viu. Meu pai, o Marcos, que é vendedor e vive viajando, até brinca: "Filho, você é um gênio... mas só dentro das quatro linhas". Minha mãe, Olívia, que é engenheira, suspira toda vez que vê meu boletim. Ela sonha comigo numa faculdade, eu sonho com o gol da final do campeonato estadual. A única coisa que me salva na escola, além dos jogos, é o Davi. Davi Fernandes. Meu melhor amigo, meu parceiro no time e o cara que me tira das enrascadas acadêmicas. Ele é um bom aluno, mas não é nenhum nerd chato. Pelo contrário, é o mestre das brincadeiras dentro da escola. Se tem uma zoeira rolando, pode ter certeza que o Davi

Eu nunca fui bom com livros, números, fórmulas... meu negócio sempre foi a bola. Me chamo Francisco, mas todo mundo me chama de Chico. Tenho 16 anos, sou paranaense de coração e, sem falsa modéstia, o pior aluno da escola. Minhas notas são um desastre. Mas coloca uma bola no meu pé e me bota num campo, aí a história é outra. Sou o melhor jogador de futebol que esse colégio já viu. Meu pai, o Marcos, que é vendedor e vive viajando, até brinca: "Filho, você é um gênio... mas só dentro das quatro linhas". Minha mãe, Olívia, que é engenheira, suspira toda vez que vê meu boletim. Ela sonha comigo numa faculdade, eu sonho com o gol da final do campeonato estadual.

A única coisa que me salva na escola, além dos jogos, é o Davi. Davi Fernandes. Meu melhor amigo, meu parceiro no time e o cara que me tira das enrascadas acadêmicas. Ele é um bom aluno, mas não é nenhum nerd chato. Pelo contrário, é o mestre das brincadeiras dentro da escola. Se tem uma zoeira rolando, pode ter certeza que o Davi está por trás, ou no meio dela.

E foi justamente por causa do Davi que eu me meti na maior encrenca da semana: o trabalho de Biologia em grupo. A professora, claro, nos colocou juntos. "Chico, você precisa aprender. Davi, você precisa fazer ele aprender." Ela disse, com aquele sorriso que não era de brincadeira.

A gente marcou de fazer na minha casa, num sábado de tarde. Minha mãe estava feliz da vida, me vendo "estudando". Ela até fez um bolo. "Olha só, o Chico dedicado!", ela falou, toda orgulhosa. Eu e o Davi trocamos um olhar. Ele sabia tão bem quanto eu que aquele "estudo" ia durar uns dez minutos antes de descambar para o videogame ou para ficarmos vendo vídeos de jogadas no celular.

A proposta do trabalho era sobre o sistema digestório. Tínhamos que fazer uma maquete e uma apresentação. A gente se espalhou no chão da sala, com livros, papéis, e uma caixa de sapato que seria nosso "corpo".

"Então, Chico", o Davi começou, folheando o livro com uma seriedade cômica. "Vamos começar pela boca. A porta de entrada. O que acontece aqui?"

Eu encarei a ilustração colorida. "Cara, é simples. É tipo o goleiro. A bola entra, que no caso é o lanche. Os dentes são a defesa, trituram tudo. A saliva é o... é o gramado molhado, que ajuda a bola a deslizar."

Davi arregalou os olhos e começou a rir. "Não é a pior analogia do mundo. Continua."

"Beleza. Daí o bagaço vai pelaquele tubo, o esôfago. É o meio-campo, fazendo a condução. Leva a bola direto pro ataque, que é o estômago."

"O estômago é o ataque?", ele perguntou, já segurando a barriga de rir.

"Claro! É onde a mágica acontece. O cara que faz o gol. O estômago é o centroavante, dissolve tudo com aqueles ácidos. É o artilheiro do sistema."

Nesse ponto, a gente já estava rolando no chão. Minha mãe espiou da cozinha, sorrindo, pensando que estávamos nos divertindo com a Biologia. Mal sabia ela.

"E o intestino delgado?", Davi provocou, tentando recuperar o fôlego.

"Ah, esse é a zaga trabalhando. A defesa que fica circulando a bola, absorvendo os nutrientes bons, que são os passes certos. E o intestino grosso..."

"...É o goleiro de linha?", ele tentou.

"Não, bobão! É o cara que faz a limpeza, o que sobra do jogo. A eliminação. É o... é o varredor do campo no final da partida!"

A gente riu tanto que doía o lado. A maquete, que era pra ser séria, virou uma obra de arte absurda. A caixa de sapato virou um estádio. A boca era o túnel de entrada. O estômago a gente fez de massinha verde e colocou dentro como se fosse um jogador. O intestino era uma mangueira de aquário enrolada. Ficou horrível, mas era nossa.

No dia da apresentação, a gente foi lá na frente. Davi fez a parte séria, explicando os nomes técnicos. Quando chegou minha vez, eu soltei a minha "teoria futebolística do sistema digestório". A sala inteira veio abaixo. A professora tentou disfarçar o riso atrás da mão, mas os olhos dela estavam cheios de diversão. Até os alunos mais CDFs acharam graça.

No final, ela disse: "Chico, a criatividade para explicar o conteúdo foi... única. A precisão científica deixou um pouco a desejar. Mas você demonstrou que entendeu a função de cada parte, mesmo que de uma forma pouco ortodoxa. Sete para o grupo."

SETE! Eu nunca tinha tirado um sete em Biologia na vida! Olhei para o Davi, e ele estava com um sorriso de orelha a orelha, me dando um soco no braço. Naquele momento, eu entendi. Talvez eu nunca fosse o cara dos livros. Talvez meu lugar fosse mesmo correndo atrás de uma bola. Mas com um amigo como o Davi do lado, até o sistema digestório podia virar um jogo divertido. E quem sabe, só quem sabe, eu consiga passar de ano. Desde que eu possa explicar tudo com metáforas do futebol.