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Historinhas (Tentando Compor)

O Fantasma, ou Cancela a Prova, Fessora

A Nair virou nossa cúmplice oficial. Com a força dela, a gente conseguia fazer brincadeiras mais pesadas. Tipo trocar todos os mapas murais da sala de geografia por mapas do Super Mario World. Ou colar na cadeira do professor de química um adesivo que dizia "Cuidado: Elemento Radioativo". Mas a obra-prima, a que quase nos fez ser expulsos (e ao mesmo tempo foi a coisa mais genial que já vi), foi o Grande Plano Para Cancelar a Prova de Português. A professora, Dona Célia, era famosa por suas provas maratonas sobre análise sintática. Era um terror. A Nair teve a ideia. "E se a gente fizer ela achar que a sala está assombrada pelo fantasma de um escritor clássico?", ela propôs, com os olhos brilhando. O plano foi elaborado como um esquema tático. Na véspera da prova, depois da aula, entramos escondido na sala. O Davi, com seu talento artístico, desenhou um fantasma minúsculo e triste no canto do quadro, com a legenda: "Sou Machado de Assis. Parem com essa tortura sintática!". Eu, com minh

A Nair virou nossa cúmplice oficial. Com a força dela, a gente conseguia fazer brincadeiras mais pesadas. Tipo trocar todos os mapas murais da sala de geografia por mapas do Super Mario World. Ou colar na cadeira do professor de química um adesivo que dizia "Cuidado: Elemento Radioativo". Mas a obra-prima, a que quase nos fez ser expulsos (e ao mesmo tempo foi a coisa mais genial que já vi), foi o Grande Plano Para Cancelar a Prova de Português.

A professora, Dona Célia, era famosa por suas provas maratonas sobre análise sintática. Era um terror. A Nair teve a ideia. "E se a gente fizer ela achar que a sala está assombrada pelo fantasma de um escritor clássico?", ela propôs, com os olhos brilhando.

O plano foi elaborado como um esquema tático. Na véspera da prova, depois da aula, entramos escondido na sala. O Davi, com seu talento artístico, desenhou um fantasma minúsculo e triste no canto do quadro, com a legenda: "Sou Machado de Assis. Parem com essa tortura sintática!". Eu, com minha habilidade de skate, subi nas janelas altas e coloquei fios de nylon quase invisíveis em algumas cadeiras. A Nair, a músculo da operação, moveu a mesa da professora alguns centímetros para o lado e colocou um dicionário velho, aberto na página do verbo "perdoar", em cima.

No dia da prova, entramos na sala com o coração batendo na boca. Dona Célia chegou, severa como sempre. Ela foi até a mesa, parou, franziu a testa. "Quem mexeu na minha mesa?". Ninguém respondeu. Ela sentou, e ao se aproximar do quadro para escrever, viu o desenho. "O que é isso? Machado de Assis?". A sala inteira ficou em silêncio. Aí, ela foi pegar o giz e uma das cadeiras, puxada pelo meu fio de nylon, rangeu e se moveu sozinha uns cinco centímetros.

Dona Célia congelou. Olhou para a cadeira, olhou para o desenho no quadro, olhou para o dicionário aberto em sua mesa. O rosto dela, normalmente corado de severidade, foi ficando pálido. Ela pegou o dicionário, leu a página, olhou para nós. A gente segurava o riso com uma força desumana, suando frio.

"Alunos...", ela disse, com uma voz meio trêmula. "Há... há algo de muito estranho aqui hoje. Algo sobrenatural." Ela olhou novamente para o dicionário. "O verbo 'perdoar'... está me dando uma mensagem."

Ficou um silêncio total. Eu já via a prova indo pelos ares. Era a nossa vitória!

Foi quando o Zé Roberto, o aluno mais nerdy e sem noção da sala, levantou a mão e disse, com toda a inocência do mundo: "Professora, acho que o fantasma do Machado quer que a senhora perdoe a gente e cancele a prova, né?".

A sala inteira explodiu em risos. Incluindo a Nair, o Davi e eu, mesmo sabendo que era nossa sentença de morte. Dona Célia ficou vermelha, não de medo, mas de fúria. Ela tinha sido feita de trouxa.

A prova não foi cancelada. Foi aplicada na hora, e foi a mais longa e difícil de todas. Ganhamos três dias de detenção, cada um. Meus pais foram chamados. A bronca da minha mãe durou aproximadamente o mesmo tempo que a Era dos Dinossauros.

Mas, sentado naquela cadeira da detenção, ao lado do Davi de olho roxo (por causa da bola) e da Nair tentando rabiscar um novo truque de skate no caderno, eu não conseguia parar de rir. Foi a derrota mais engraçada da minha vida. E, olhando para meus dois cúmplices, eu pensei: ter amigos que quase fazem uma prova ser cancelada pelo fantasma do Machado de Assis é muito melhor do que ser apenas o pior aluno ou o melhor atacante. É ser lendário, mesmo que seja só na sala da diretoria.