Добавить в корзинуПозвонить
Найти в Дзене
Nair Monteiro. A Fortona

Chico contando. Cortador de Grama

Foi assim que, num sábado de sol que clamava por uma pelada no campinho, me vi de frente para o meu maior rival do final de semana: o cortador de grama do quintal. A grama estava alta, uma selva verde que desafiava minha paciência. — Chico, hoje é dia de cortar a grama — anunciou minha mãe, com a voz da inevitabilidade. — Nada de futebol até terminar. Resmunguei, arrastei o cortador pesado para o quintal e encarei a tarefa com o mesmo entusiasmo que tenho para estudar trigonometria. Foi quando ouvi a voz de socorro. — E aí, craque! Precisa de um ajudante? Era o Davi, pulando o muro baixo como sempre fazia. Seus olhos brilhavam com a perspectiva de uma missão, mesmo que fosse a mais chata do mundo. — Pode vir — disse, sem muita esperança. — Mas é sério, hein. Preciso terminar isso logo se quiser jogar bola depois. O Davi esfregou as mãos, como um cirurgião se preparando para uma operação complexa. — Deixa comigo! Sou expert em jardinagem. "Expert" foi um termo generoso. Nos primeiros ci

Foi assim que, num sábado de sol que clamava por uma pelada no campinho, me vi de frente para o meu maior rival do final de semana: o cortador de grama do quintal. A grama estava alta, uma selva verde que desafiava minha paciência.

— Chico, hoje é dia de cortar a grama — anunciou minha mãe, com a voz da inevitabilidade. — Nada de futebol até terminar.

Resmunguei, arrastei o cortador pesado para o quintal e encarei a tarefa com o mesmo entusiasmo que tenho para estudar trigonometria. Foi quando ouvi a voz de socorro.

— E aí, craque! Precisa de um ajudante?

Era o Davi, pulando o muro baixo como sempre fazia. Seus olhos brilhavam com a perspectiva de uma missão, mesmo que fosse a mais chata do mundo.

— Pode vir — disse, sem muita esperança. — Mas é sério, hein. Preciso terminar isso logo se quiser jogar bola depois.

O Davi esfregou as mãos, como um cirurgião se preparando para uma operação complexa.

— Deixa comigo! Sou expert em jardinagem.

"Expert" foi um termo generoso. Nos primeiros cinco minutos, ele decidiu que a melhor estratégia era fazer "zonas de ataque". Enquanto eu tentava fazer linhas retas e organizadas, ele começou a cortar em círculos, criando um padrão esquisito que parecia um labirinto.

— Olha que legal, Chico! Um campo de golfe em miniatura!

— Davi, a ideia é a grama ficar *baixa*, não *com desenhos*.

Ele riu, ignorando meu protesto. Sua "ajuda" rapidamente se transformou em entretenimento. Ele começou a perseguir uma lagartixa, fazendo manobras radicais com o cortador (desligado, graças a Deus). Depois, inventou um jogo onde palitos de grama cortada eram bolas de futebol, e nossos pés, os jogadores.

— Gol do Davi! Golaço! Olha a cavadinha!

Eu não aguentei e comecei a rir. A seriedade da tarefa foi por água abaixo. Em vez de cortar grama, estávamos no meio de um campeonato mundial de futebol de palitos. Até que, no auge da comemoração de um gol imaginário meu, o Davi deu um chute mais forte.

O palito de grama, um tufo verde e úmido, voou como um míssil. Não foi para o gol imaginário. Foi direto, com uma precisão absurda, para a janela semiaberta da cozinha.

*PLAF.*

Um silêncio mortal pairou sobre o quintal. A bagunça era monumental. O "labirinto" de grama do Davi, os montes de palitos espalhados por toda parte, e agora, o tufo verde escorregando lentamente pelo vidro da janela.

A porta da cozinha se abriu. Minha mãe, Olívia, apareceu. Seu olhar percorreu o quintal: o trabalho pela metade, os desenhos malucos na grama, a confusão generalizada e, finalmente, o adorno verde em sua janela.

Ela não disse nada. Apenas cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, o que era sempre pior.

O Davi, pálido, sussurrou:

— Acho que meu cartão de ajudante está suspenso.

Eu soltei o cabo do cortador.

— Acho que meu cartão de jogador de futebol também.

Ficamos ali, parados, dois craques do campo derrotados por um cortador de grama e um tufo de grama mal lançado. A aventura daquele sábado não foi no campo, mas no quintal de casa. E, pelo visto, íamos passar o resto da tarde não jogando bola, mas sim aprendendo, da maneira mais difícil, a como realmente se limpa uma bagunça. O Davi me olhou com um sorriso envergonhado.

— Pelo menos foi divertido até a parte do míssil de grama, né?

Eu só consegui balançar a cabeça. Com o Davi como ajudante, a vida nunca era simples, mas com certeza nunca era chata. Agora, era hora de enfrentar a fúria da engenheira e do vendedor. O jogo de verdade estava apenas começando.