Luciana Rocha, mineira de 17 anos, minha namorada desde que éramos crianças e só conseguia vir passar as férias aqui no Paraná na casa dos tios, que são vizinhos da gente. Ver ela era como respirar de novo. A gente tem essa ligação que ninguém entende, nem meus pais, nem os tios dela. Ela me entende sem eu precisar falar nada – entende que eu preciso me mexer, correr, sentir o vento, e que as fórmulas da lousa da escola às vezes parecem um idioma alienígena pra mim.
Foi ela quem teve a ideia. “Vamos na praia escondida, Chico. Só nós dois.” A tal praia era um pedacinho de areia atrás das pedras, um lugar que só a gente conhecia. A gente fugiu. Deixamos os celulares em casa de propósito. Era só nós, o som das ondas, o céu pintando de laranja e rosa, e a sensação de que o mundo lá fora, com broncas, notas baixas e expectativas, tinha sumido.
Foi mágico. A gente ficou sentado na areia, de mãos dadas, contando planos impossíveis. Eu disse que ia virar jogador profissional e levar ela comigo pra todos os jogos. Ela falou de querer estudar arte, coisa que a família dela acha “sem futuro”. A gente se beijou, e naquele momento, eu juro, nada mais importava. A gente era invencível.
A noite começou a cair e a gente nem percebeu. O problema é que alguém percebeu por nós.
De repente, a luz de uma lanterna cortou a escuridão. Era meu pai, com a cara branca de preocupação. Do lado dele, minha mãe, com aquele olhar de gelo que só uma engenheira que planeja tudo na vida pode ter. E pior: ao lado dela, seu Zeca, tio da Lu, com a expressão mais fechada que eu já vi.
O inferno se abriu. Minha mãe gritando, perguntando como a gente podia ser tão irresponsável. Meu pai tentando acalmar a situação, mas sem conseguir esconder o medo. E seu Zeca… seu Zeca foi direto ao ponto. Pegou a Lu pelo braço e falou, duro: "É isso. Chega. Você volta pra Minas comigo amanhã. Isso aqui não deu certo.”
A Lu ficou parada, com os olhos cheios de lágrima, mas nem uma saiu. Ela é forte assim. Eu só conseguia olhar, com um nó na garganta tão grande que eu achava que ia sufocar. Ninguém quis ouvir nossa versão. Ninguém quis saber que a gente só queria um momento de paz. Pra eles, foi uma rebeldia sem sentido, um perigo.
Agora, a Lu tá trancada no quarto dos tios dela, e eu tô aqui no meu, olhando pro skate encostado. Pela primeira vez, nem ele me chama. O silêncio da casa é pesado. Dá pra ouvir meus pais conversando baixo na sala. Meu pai tentando argumentar, minha mãe falando em “responsabilidade” e “futuro”.
O que a gente faz agora? Eu não sei. Só sei que o mundo ficou pequeno e cinza de repente, e o único pedaço de cor que ele tinha tá prestes a sumir no mapa, levada de volta pra Minas. E eu, o “pior aluno da turma”, tenho que encontrar uma maneira de consertar isso.
***
Só que naquele momento, tudo o que importava era que eu estava preso, e a Lu, minha namorada, estava presa também, do outro lado da rua.
A rua estava quieta. Todos no trabalho — mãe no escritório, pai na loja, tio Zeca no mercado. O coração batia no meu peito como um tambor de escola de samba. Respirando fundo, abri a janela. O muro era baixo, o telhado da garagem, um convite. Pulei. Meus pés, acostumados a aterrissagens de skate, absorveram o impacto sem fazer barulho. Corri pela calçada, a adrenalina misturada com o medo de ser pego.
A casa dos tios da Lu era igual à minha, só que com um jardim mais cuidado. A janela do quarto dela ficava no lado de trás, alta, com uma treliça de madeira que parecia frágil. Cheguei por trás, sussurrei o nome dela. Em segundos, o rosto dela apareceu atrás do vidro, os olhos vermelhos de tanto chorar, mas iluminados quando me viu.
— Chico! — ela sussurrou, abrindo a janela só um pouco.
— Tá tudo bem, Lu. Vamos embora daqui.
— Como? O tio Zeca trancou por fora.
Olhei para a treliça. Era velha, mas parecia firme. Sem pensar duas vezes, comecei a subir. A madeira rangia, meu coração parecia querer sair pela boca, mas em alguns segundos estava lá em cima, equilibrado na beirada da janela.
— Me dá a mão — falei, estendendo a mão para ela.
Ela hesitou, olhou para trás, para a porta do quarto, e então agarrou minha mão. Puxei-a com cuidado, ajudando-a a subir no parapeito. Por um instante, ficamos ali, os dois pendurados entre a casa e o mundo, o vento batendo leve nos nossos rostos.
— E agora? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Agora a gente pula.
Ela olhou para baixo, para o jardim, e depois para mim. Nos seus olhos, vi o mesmo medo e a mesma coragem que estavam dentro de mim. Sorri, tentando passar confiança.
— Confia em mim, Lu. Já pulei de lugares piores com o skate.
Ela respirou fundo, apertou minha mão com força e, juntos, pulamos. A queda foi rápida, aterrissamos na grama macia, rolando para amortecer o impacto. Levantamos, sujos de terra, mas livres.
Corremos pela rua vazia, mãos dadas, sem saber para onde ir, só sabendo que estávamos juntos. O sol começava a descer, pintando o céu de laranja e rosa. Olhei para ela, o cabelo desarrumado, a respiração ofegante, e senti uma coisa quente no peito, maior do que o medo, maior do que a bronca que ia levar quando me achassem.
— E aí, mineira — falei, tentando parecer descontraído. — Pra onde a gente vai?
Ela sorriu, aquela coisa linda que sempre me derretia.
— Não sei, Chico. Mas qualquer lugar é melhor se for com você.
E naquele momento, com a rua à nossa frente e o vento nos levando, eu sabia que não importava se eu era o pior aluno, se minhas notas eram um desastre ou se minha mãe ia me matar. A Lu estava comigo, e a gente tinha pulado a janela não só da casa dela, mas de tudo o que queriam impor pra gente. O resto? A gente ia descobrir juntos.