Найти в Дзене
Historinhas (Tentando Compor)

A Mudança da Nair

O calor de Fortaleza nunca me incomodou. Pelo contrário — ele me carregava, me impulsionava, me fazia suar na academia às seis da manhã sem reclamar. Mas aquele dia, o sol parecia diferente. Mais intenso, talvez. Ou talvez fosse só eu, sentindo cada raio como um adeus. - Nair, filha, você já arrumou as caixas do seu quarto? - A voz da minha mãe, Dona Ana, subiu pela escada. Veterinária há vinte anos, dona de mãos que curavam cachorros, gatos, e quando eu era pequena, também curavam meus joelhos ralados de skate. - Já, mãe! - Respondi, mas minha voz saiu mais rouca do que pretendia. Olhei ao redor do meu quarto. Paredes ainda cheias de pôsters de Rayssa Leal e Letícia Bufoni. Meus quatro skates — sim, quatro, cada um com uma história — alinhados na parede. As medalhas de campeonatos locais de skate penduradas, refletindo a luz que entrava pela janela. E as fotos. Ah, as fotos. Eu e os meus amigos na Praia do Futuro, eu e a galera da academia depois do treino de perna, eu e minha turma

O calor de Fortaleza nunca me incomodou. Pelo contrário — ele me carregava, me impulsionava, me fazia suar na academia às seis da manhã sem reclamar. Mas aquele dia, o sol parecia diferente. Mais intenso, talvez. Ou talvez fosse só eu, sentindo cada raio como um adeus.

- Nair, filha, você já arrumou as caixas do seu quarto? - A voz da minha mãe, Dona Ana, subiu pela escada. Veterinária há vinte anos, dona de mãos que curavam cachorros, gatos, e quando eu era pequena, também curavam meus joelhos ralados de skate.

- Já, mãe! - Respondi, mas minha voz saiu mais rouca do que pretendia.

Olhei ao redor do meu quarto. Paredes ainda cheias de pôsters de Rayssa Leal e Letícia Bufoni. Meus quatro skates — sim, quatro, cada um com uma história — alinhados na parede. As medalhas de campeonatos locais de skate penduradas, refletindo a luz que entrava pela janela. E as fotos. Ah, as fotos. Eu e os meus amigos na Praia do Futuro, eu e a galera da academia depois do treino de perna, eu e minha turma da escola no último dia de aula antes das férias.

Meu pai, o Sr. Daniel, médico cardiologista, subiu as escadas e bateu na porta. Seus olhos carregavam aquela mistura de orgulho e culpa que eu vinha vendo há semanas.

- Filha, eu sei que não é fácil. Curitiba é longe. É frio. É... diferente, - ele entrou e sentou na minha cama, que já estava sem lençóis. - Mas essa oportunidade naquele hospital... é o sonho da minha carreira. E lá, sua mãe também pode expandir a clínica dela. E você...

- E eu vou ter que recomeçar, - completei, cruzando os braços. Meus braços fortes, resultado de anos levantando peso, anos caindo do skate e levantando de novo.

- Não é recomeçar, Nair. É continuar. Com mais energia.- ele sorriu. - Você sempre teve energia de sobra. Desde pequena. Aquela menina alta, forte, que não parava quieta nem um minuto.

Eu ri. Era verdade. Tenho 1,8 m, braços definidos, pernas de atleta. Não sou aquela garota delicada dos filmes. Sou a que anda de skate de cropped e moletom largo, que levanta mais peso que metade dos caras da academia, que não tem medo de ralar o joelho.

A despedida foi na praia. Claro que foi na praia.

Meus amigos — Ju, Pedro, Camila, e os guris da pista de skate — se reuniram lá na Praia do Futuro, quarta-feira à tarde. O sol começava a descer, pintando tudo de laranja e rosa. A cor do Ceará. A minha cor.

- Nair Monteiro, você não vai virar paulista, né?- O Pedro brincou, jogando areia em mim.

- Paranaense, seu animal, - corrigi, dando um soco de brincadeira no ombro dele. - E nunca. Vou continuar sendo a mesma. Só que com casaco.

A Ju, minha melhor amiga desde o maternal, me abraçou forte. Ela era pequena, magrinha, o oposto físico de mim, mas a alma gêmea.

- Você vai arrasar lá, Nair. Eles nunca viram nada igual. Uma cearense de 1,8m andando de skate no frio de zero grau.

- Vai ser épico, - ri.

A Camila, que treinava comigo na academia, entregou-me uma caixa.

- Abre quando chegar lá.

Abri na hora. Era um cordão com um pingente de skate em miniatura. "Para você não esquecer de onde veio. E para lembrar que skate não tem endereço. Tem energia."

Engoli seco. Não queria chorar. Nair Monteiro não chora na frente dos amigos. Nair Monteiro dá risada, dá abraço de urso, dá high-five.

- Galera, - falei, subindo no meu skate para ficar mais alta, mais visível. - Eu vou sentir falta de vocês. De Fortaleza. Do calor. Do nosso povo. Mas eu levo vocês comigo. Na energia. Na força. E quando eu virar campeã de skate em Curitiba — porque eu vou virar — vocês vão estar aqui, torcendo, mesmo que de longe."

- Energia!- Gritaram todos juntos. Nosso grito de guerra desde o ensino médio.

Andei de skate na areia molhada, sentindo a água do mar salpicar nas minhas pernas. Mais uma vez. A última vez por um tempo. O vento quente do nordeste empurrava minhas costas, como se me desse momentum para o que viria.

O avião decolou à noite. Eu na janela, meus pais ao lado. Olhei Fortaleza lá embaixo, as luzes da cidade que me viu crescer, me viu cair e levantar tantas vezes.

Meu pai pegou minha mão.

- Pronta?

- Nasci pronta, - respondi. E era verdade.

Sou Nair Monteiro. Tenho quase 17 anos. Sou filha de um médico e uma veterinária, neta de cearenses arretados, amiga de gente boa, skatista, atleta, alta, forte, cheia de energia. E essa energia — essa energia que meus amigos me deram, que Fortaleza me deu, que meus pais me deram — não fica no lugar. Ela viaja. Ela cresce. Ela transforma.

Curitiba não sabe ainda, mas está prestes a receber um furacão. Um furacão de braços fortes, de risada alta, de skate na mochila e o coração cheio de calor cearense.

Energia não tem endereço. Ela tem alma.

E a minha alma é toda Fortaleza.