O calor de Fortaleza nunca me incomodou. Pelo contrário — ele me carregava, me impulsionava, me fazia suar na academia às seis da manhã sem reclamar. Mas aquele dia, o sol parecia diferente. Mais intenso, talvez. Ou talvez fosse só eu, sentindo cada raio como um adeus. - Nair, filha, você já arrumou as caixas do seu quarto? - A voz da minha mãe, Dona Ana, subiu pela escada. Veterinária há vinte anos, dona de mãos que curavam cachorros, gatos, e quando eu era pequena, também curavam meus joelhos ralados de skate. - Já, mãe! - Respondi, mas minha voz saiu mais rouca do que pretendia. Olhei ao redor do meu quarto. Paredes ainda cheias de pôsters de Rayssa Leal e Letícia Bufoni. Meus quatro skates — sim, quatro, cada um com uma história — alinhados na parede. As medalhas de campeonatos locais de skate penduradas, refletindo a luz que entrava pela janela. E as fotos. Ah, as fotos. Eu e os meus amigos na Praia do Futuro, eu e a galera da academia depois do treino de perna, eu e minha turma