Tudo na minha vida era um equilíbrio precário entre os treinos exaustivos, as recuperações na escola e as aventuras com o Davi… até que a notícia chegou. O Olímpico, um dos clubes mais tradicionais do estado, estava fazendo uma peneira para a categoria sub-17. Não era só mais um teste. Era a chance. A porta para tudo o que eu sempre sonhei. O problema? A peneira final era no mesmo sábado do maior e mais importante simulado do ano na escola, que valia como recuperação geral para três matérias que eu estava raspando. Falhar no simulado significaria, muito provavelmente, repetir de ano.
A crise se instalou na nossa mesa de jantar. Mamãe, séria, braços cruzados.
- Francisco, você não pode simplesmente ignorar a escola. Esse simulado é crucial, -disse ela
- Eu sei, mãe. Mas essa peneira… é o Olímpico. É uma chance na vida.
Meu pai suspirou, profundamente.
- Eu sei o que essa chance significa, filho. Mas você tem que ser mais que um par de pés bons. Você precisa ter cabeça. O que você vai fazer se uma lesão acontecer? Se as coisas não saírem como o planejado?
Eu não tinha resposta. Só tinha um nó na garganta e um desespero imenso no peito.
Foi o Davi quem arquitetou o plano. Um plano tão maluco que só poderia ser nosso.
- Escuta, Chico, - ele disse, na nossa guarida secreta, um galpão abandonado perto do campo onde sempre treinamos. - Você vai na peneira. Você tem que ir. Mas você também não pode faltar ao simulado.
- Como, Davi? Eles são no mesmo dia, na mesma hora! Eu não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo!
Um sorriso lento se abriu no rosto do meu amigo.
- Quem disse que você precisa estar?
O plano era o seguinte: Davi, com sua caligrafia que milagrosamente se assemelhava à minha depois de uma semana de treino furtivo, faria o simulado por mim. Ele se disfarçaria com meu moletom com capuz, entraria na sala de cabeça baixa, e responderia as questões com o conhecimento dele, mas com a letra “minha”. Era arriscado, era errado, e se fosse descoberto, a expulsão seria certa para nós dois.
- Davi, eu não posso pedir isso pra você, - argumentei, o coração batendo forte.
- Você não pediu. Eu estou oferecendo, - ele respirou fundo. - É por uma boa causa. É pelo seu sonho. E… é por uma aventura. A maior que a gente já encarou.
O dia chegou. Uma névoa fria típica do Paraná cobria a cidade, combinando com o frio na minha barriga. Vestido com o uniforme do Olímpico que eu havia comprado com meses de economia, me despedi dos meus pais com um abraço rápido. A preocupação no rosto deles era palpável. Eles achavam que eu estava indo para uma sessão de estudos intensivos com o Davi antes do simulado.
Enquanto eu pegava o ônibus para o centro de treinamento do Olímpico, do outro lado da cidade, Davi entrava na escola, o capuz do meu moletom cobrindo parte do rosto, uma postura desleixada que ele treinou para parecer com a minha. Ele me mandou uma mensagem simples: “O jogo começou. Agora vai lá e arrasa.”
A peneira foi a coisa mais intensa da minha vida. Cem garotos, todos com o mesmo sonho nos olhos. Os exercícios técnicos, os testes de velocidade, o pequeno jogo no final. Cada toque na bola era um passo para longe da sala de aula, cada drible bem-sucedido era um “não” para as fórmulas de química. Eu joguei como se minha vida dependesse disso. Porque dependia. Suava, corria, sentia cada músculo queimar. Em um lance, recebi a bola na intermediária, enxerguei um corredor minúsculo entre dois defensores, e arranquei. Foi como se o mundo desacelerasse. Driblei do primeiro, passei pelo segundo com um corpo fechado rápido, e chutei com o pé esquerdo, colocado no cantinho. O goleiro nem se mexeu. O silêncio por um segundo, seguido pelo assobio agudo do técnico, foi a música mais linda que já ouvi.
Enquanto isso, na escola, Davi enfrentava seu próprio desafio. Mais tarde, ele me contaria tudo, ainda pálido. “Foi tenso, Chico. A professora Helena passou na minha mesa duas vezes. Achei que ela ia me pedir para tirar o capuz. O cara da frente, o Cássio, virou e ficou me encarando. Eu só grunhi, igual você faz. Fiz a prova, coloquei umas respostas erradas de propósito pra não ficar muito óbvio, e saí correndo.”
No final do dia, nos encontramos no galpão. A adrenalina ainda corria nas nossas veias. Eu estava exausto, sujo de grama, mas com um brilho nos olhos que não existia há meses. Davi estava com as mãos trêmulas, mas sorrindo.
- E então?- ele perguntou.
- Acho que fui bem. Muito bem. O técnico me chamou depois, pediu meus dados.
- E o simulado? - eu retruquei, o peso da culpa finalmente me atingindo.
Davi abriu a mochila e tirou a prova. Nota: 65. Suficiente para passar nas recuperações. Não era uma nota minha, era uma nota nossa. Um misto do conhecimento dele e da minha sorte de ter ele como amigo.
- Davi… como eu vou pagar por isso?”
Ele me deu um soco no ombro, fraco.
- Você paga me dando um ingresso para a sua primeira partida profissional. E me tirando dessa cidade quando você for famoso.
A confissão para os meus pais foi a parte mais difícil. Sentamos na sala, e eu contei tudo. Sobre a peneira, sobre o plano, sobre a prova. Esperei o sermão, a decepção, o castigo eterno. Mamãe ficou em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade.
Foi ela quem quebrou o silêncio.
- Foi errado, Francisco. Muito errado. A mentira, a quebra de confiança… isso tem consequências.
Meu coração afundou.
- Mas, - ela continuou, olhando para o pai e depois para mim, - eu também vi o relatório do técnico do Olímpico hoje à tarde. Ele me ligou.
Eu arregalei os olhos.
- Ele disse que viu algo especial em você. Disciplina, garra, e um talento raro. Ele te convidou para integrar o time júnior, em caráter de experiência.
O ar saiu dos meus pulmões. Não conseguia acreditar.
A sua ‘aventura’ com o Davi foi irresponsável, - concluiu minha mãe. - E vocês dois vão arcar com as consequências. Vão limpar a garagem, o quintal, e fazer trabalho voluntário nos fins de semana pelo próximo mês. Mas…- ela fez uma pausa, e um pequeno sorriso, o primeiro que vi nele naquela noite, apareceu. - Mas também demonstrou lealdade de amizade e uma determinação pelo seu sonho. Só não faça isso de novo. O seu futuro vai ser construído com trabalho duro nos dois campos: no gramado e na sala de aula. A partir de agora, teremos um professor particular. O Olímpico exige boas notas para você continuar. Entendeu?
- Sim, senhora! - eu disse, a voz embargada de emoção.
Naquela noite, deitado na cama, eu olhava para o teto. A aventura com Davi tinha sido a mais arriscada das nossas vidas. Tínhamos quebrado regras, cruzado linhas. Mas também tínhamos conquistado algo. Uma chance. Um caminho. Eu não era mais só o garoto com notas ruins que jogava bem. Eu era Francisco Anisio Brandão, jogador do Olímpico (em experiência), aluno em recuperação, e melhor amigo do cara mais leal do mundo. O jogo importante tinha sido vencido, mas eu sabia que era só o primeiro de muitos. E, pela primeira vez, eu mal podia esperar pelo próximo.