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Historinhas (Tentando Compor)

O Bolo Quase Perfeito

A vida era perfeita, até chegar o aniversário da minha mãe. Olívia Brandão. Engenheira. Mulher que faz ponte tremer de respeito. Rigorosa como uma prova de matemática avançada. Meu pai, Marcos Felipe, é vendedor e tenta ser meu advogado de defesa, mas quando o assunto são minhas notas… ele fica mais perdido que eu na aula de química. — Filho, precisamos melhorar essa média — ele diz, olhando o boletim com cara de quem encontrou um manual em chinês. — Melhorar como, pai? O Davi tenta me explicar, mas quando ele fala ‘mitocôndria é a usina da célula’, eu só consigo pensar em chutar uma bola dentro dela. Falando em Davi, ele é meu melhor amigo. Está na mesma turma, no mesmo time, e é um bom aluno. O diferencial dele é que ele acha minhas ideias geniais. E eu tive uma. A ideia surgiu na véspera do aniversário da mãe. Ela sempre faz tudo perfeito. Queria retribuir. — Pai, o que a mãe mais gosta? — De ver você com notas azuis, Francisco — ele respondeu, sem nem levantar os olhos do jornal. —
Aniversário da minha mãe tá chegando
Aniversário da minha mãe tá chegando

A vida era perfeita, até chegar o aniversário da minha mãe.

Olívia Brandão. Engenheira. Mulher que faz ponte tremer de respeito. Rigorosa como uma prova de matemática avançada. Meu pai, Marcos Felipe, é vendedor e tenta ser meu advogado de defesa, mas quando o assunto são minhas notas… ele fica mais perdido que eu na aula de química.

— Filho, precisamos melhorar essa média — ele diz, olhando o boletim com cara de quem encontrou um manual em chinês.

— Melhorar como, pai? O Davi tenta me explicar, mas quando ele fala ‘mitocôndria é a usina da célula’, eu só consigo pensar em chutar uma bola dentro dela.

Falando em Davi, ele é meu melhor amigo. Está na mesma turma, no mesmo time, e é um bom aluno. O diferencial dele é que ele acha minhas ideias geniais. E eu tive uma.

A ideia surgiu na véspera do aniversário da mãe. Ela sempre faz tudo perfeito. Queria retribuir.

— Pai, o que a mãe mais gosta?

— De ver você com notas azuis, Francisco — ele respondeu, sem nem levantar os olhos do jornal.

— Fora isso.

— Hum… ela adora aquele bolo de laranja da Dona Célia, da padaria.

Bingo. Não ia comprar. Ia fazer. Como? Não faço ideia. Liguei pro Davi.

— Ô, Davi, você sabe fazer bolo?

— Sei fazer miojo. E torrada. Por quê?

— Amanhã é aniversário da minha mãe. Vou fazer um bolo pra ela. Vem me ajudar.

— Você? Chico, você uma vez confundiu sal com açúcar no café e quase matou o tio Zé.

— Detalhes. O que importa é a intenção. Meus pais saem pra trabalhar às oito. Você vem às nove. Traz o celular, vamos pesquisar.

No dia seguinte, a cozinha era nosso campo. Davi chegou com o celular na mão.

— Beleza, chef. Encontrei uma receita: ‘Bolo de Laranja Fácil e Rápido’. Diz que é infalível.

— Infalível é o meu chute de canhota. Vamos lá. Primeiro passo?

— ‘Separe os ingredientes’. Temos farinha, açúcar, ovos… cadê o fermento?

— Fermento? A receita fala em fermento?

— Claro, Chico! É o que faz o bolo crescer!

— Ah, pensei que era o nosso talento natural.

Revistamos a despensa. Nada. Davi teve um lampejo de gênio.

— Refrigerante! Minha avó diz que refrigerante de laranja pode substituir o fermento!

— Gênio! Temos guaraná. Serve?

— A ciência dirá.

Começamos a misturar. A receita dizia “bata os ovos com o açúcar até obter um creme fofo e esbranquiçado”.

— Quanto tempo leva isso, Davi?

— Não sei. Até ficar fofo e esbranquiçado, ué.

— Já batemos cinco minutos. Tá branco, mas fofo não sei.

— Deixa eu ver… Ah! Esquecemos a manteiga!

— Coloca agora!

A massa ficou uma coisa meio líquida, meio grumosa, com pedacinhos de manteiga boiando. Adicionamos a farinha.

— Agora o guaraná no lugar do fermento — anunciou Davi, despejando a lata inteira.

— A receita diz meio copo, Davi!

— Ah, mais é mais, né? Mais gás, mais crescimento!

A massa transbordou da tigela. Colocamos na forma e no forno.

— Temperatura média, por quarenta minutos — Davi leu, bem profissional.

— Beleza. Agora é só esperar.

Dez minutos depois, um cheiro estranho começou a sair do forno. Doce, mas com um toque de… pneu queimado?

— Davi, isso é normal?

— Talvez seja o guaraná caramelizando. Inovação.

Vinte minutos. O cheiro piorou. E um som baixo, de ploft… ploft…, vinha do forno.

— Meu Deus, ele tá vivo! — falei, encarando a porta de vidro.

— Calma, é só o bolo crescendo.

No trigésimo minuto, uma fumaça cinza começou a escapar pelas frestas.

-2

— ABRE O FORNO, DAVI!

— EU NÃO QUERO MORRER!

Abrimos. A cena era digna de um filme de terror. A massa tinha crescido tanto que subiu, transbordou, e agora estava derretendo sobre as grades, queimada em baixo, líquida no meio. Parecia uma criatura de lava doente.

— É… acho que o guaraná foi longe demais — disse Davi, filosofando diante da tragédia.

— E agora? A mãe chega em uma hora!

Foi quando ouvimos a chave na porta. PÂNICO TOTAL.

— FILHO, ESTOU EM CASA MAIS CEDO! — era a voz da minha mãe.

Não deu tempo de esconder o crime. Ela entrou na cozinha, parou, e olhou para o forno, para nossa cara de pavor, e para a fumaça que agora ativava o alarme de incêndio.

— Francisco Anísio… Marcos Felipe! VENHA VER ISSO!

Meu pai chegou correndo, e quando viu, sua expressão mudou do susto para algo estranho. Ele começou a rir. Um riso baixo que virou uma gargalhada.

— Olívia, querida… eles tentaram fazer um bolo!

— Um bolo? Isso parece um experimento de laboratório que deu errado! — ela disse, mas o canto da boca dela tremia.

— Foi pra você, mãe — eu falei, baixinho. — Queria fazer algo especial. O bolo de laranja que você gosta.

Ela olhou para a massa catastrófica, olhou para mim sujo de farinha, para o Davi segurando a tigela vazia de guaraná, e para meu pai ainda rindo. E então, ela sorriu. Um sorriso de verdade.

— Francisco, meu filho… obrigada. Foi a lembrança mais doce que você já me deu. Mas da próxima vez… me chama pra ajudar, tá bom? E vamos pedir uma pizza. Agora, alguém me ajuda a desenterrar essa coisa do forno antes que o bombeiro apareça?

Davi e eu nos olhamos, aliviados. Meu pai pegou a câmera.

— Não, pai, não tira foto!

— Claro que vou! Essa vai pra moldura! “O dia em que o Chico quase cozinhou a casa, mas conquistou o coração da mãe”.

Foi o melhor bolo que nunca comemos. E, no fim, a risada da minha mãe valeu mais que qualquer nota azul. Mas, só entre nós… na próxima, vou de cartão.