A vida era perfeita, até chegar o aniversário da minha mãe.
Olívia Brandão. Engenheira. Mulher que faz ponte tremer de respeito. Rigorosa como uma prova de matemática avançada. Meu pai, Marcos Felipe, é vendedor e tenta ser meu advogado de defesa, mas quando o assunto são minhas notas… ele fica mais perdido que eu na aula de química.
— Filho, precisamos melhorar essa média — ele diz, olhando o boletim com cara de quem encontrou um manual em chinês.
— Melhorar como, pai? O Davi tenta me explicar, mas quando ele fala ‘mitocôndria é a usina da célula’, eu só consigo pensar em chutar uma bola dentro dela.
Falando em Davi, ele é meu melhor amigo. Está na mesma turma, no mesmo time, e é um bom aluno. O diferencial dele é que ele acha minhas ideias geniais. E eu tive uma.
A ideia surgiu na véspera do aniversário da mãe. Ela sempre faz tudo perfeito. Queria retribuir.
— Pai, o que a mãe mais gosta?
— De ver você com notas azuis, Francisco — ele respondeu, sem nem levantar os olhos do jornal.
— Fora isso.
— Hum… ela adora aquele bolo de laranja da Dona Célia, da padaria.
Bingo. Não ia comprar. Ia fazer. Como? Não faço ideia. Liguei pro Davi.
— Ô, Davi, você sabe fazer bolo?
— Sei fazer miojo. E torrada. Por quê?
— Amanhã é aniversário da minha mãe. Vou fazer um bolo pra ela. Vem me ajudar.
— Você? Chico, você uma vez confundiu sal com açúcar no café e quase matou o tio Zé.
— Detalhes. O que importa é a intenção. Meus pais saem pra trabalhar às oito. Você vem às nove. Traz o celular, vamos pesquisar.
No dia seguinte, a cozinha era nosso campo. Davi chegou com o celular na mão.
— Beleza, chef. Encontrei uma receita: ‘Bolo de Laranja Fácil e Rápido’. Diz que é infalível.
— Infalível é o meu chute de canhota. Vamos lá. Primeiro passo?
— ‘Separe os ingredientes’. Temos farinha, açúcar, ovos… cadê o fermento?
— Fermento? A receita fala em fermento?
— Claro, Chico! É o que faz o bolo crescer!
— Ah, pensei que era o nosso talento natural.
Revistamos a despensa. Nada. Davi teve um lampejo de gênio.
— Refrigerante! Minha avó diz que refrigerante de laranja pode substituir o fermento!
— Gênio! Temos guaraná. Serve?
— A ciência dirá.
Começamos a misturar. A receita dizia “bata os ovos com o açúcar até obter um creme fofo e esbranquiçado”.
— Quanto tempo leva isso, Davi?
— Não sei. Até ficar fofo e esbranquiçado, ué.
— Já batemos cinco minutos. Tá branco, mas fofo não sei.
— Deixa eu ver… Ah! Esquecemos a manteiga!
— Coloca agora!
A massa ficou uma coisa meio líquida, meio grumosa, com pedacinhos de manteiga boiando. Adicionamos a farinha.
— Agora o guaraná no lugar do fermento — anunciou Davi, despejando a lata inteira.
— A receita diz meio copo, Davi!
— Ah, mais é mais, né? Mais gás, mais crescimento!
A massa transbordou da tigela. Colocamos na forma e no forno.
— Temperatura média, por quarenta minutos — Davi leu, bem profissional.
— Beleza. Agora é só esperar.
Dez minutos depois, um cheiro estranho começou a sair do forno. Doce, mas com um toque de… pneu queimado?
— Davi, isso é normal?
— Talvez seja o guaraná caramelizando. Inovação.
Vinte minutos. O cheiro piorou. E um som baixo, de ploft… ploft…, vinha do forno.
— Meu Deus, ele tá vivo! — falei, encarando a porta de vidro.
— Calma, é só o bolo crescendo.
No trigésimo minuto, uma fumaça cinza começou a escapar pelas frestas.
— ABRE O FORNO, DAVI!
— EU NÃO QUERO MORRER!
Abrimos. A cena era digna de um filme de terror. A massa tinha crescido tanto que subiu, transbordou, e agora estava derretendo sobre as grades, queimada em baixo, líquida no meio. Parecia uma criatura de lava doente.
— É… acho que o guaraná foi longe demais — disse Davi, filosofando diante da tragédia.
— E agora? A mãe chega em uma hora!
Foi quando ouvimos a chave na porta. PÂNICO TOTAL.
— FILHO, ESTOU EM CASA MAIS CEDO! — era a voz da minha mãe.
Não deu tempo de esconder o crime. Ela entrou na cozinha, parou, e olhou para o forno, para nossa cara de pavor, e para a fumaça que agora ativava o alarme de incêndio.
— Francisco Anísio… Marcos Felipe! VENHA VER ISSO!
Meu pai chegou correndo, e quando viu, sua expressão mudou do susto para algo estranho. Ele começou a rir. Um riso baixo que virou uma gargalhada.
— Olívia, querida… eles tentaram fazer um bolo!
— Um bolo? Isso parece um experimento de laboratório que deu errado! — ela disse, mas o canto da boca dela tremia.
— Foi pra você, mãe — eu falei, baixinho. — Queria fazer algo especial. O bolo de laranja que você gosta.
Ela olhou para a massa catastrófica, olhou para mim sujo de farinha, para o Davi segurando a tigela vazia de guaraná, e para meu pai ainda rindo. E então, ela sorriu. Um sorriso de verdade.
— Francisco, meu filho… obrigada. Foi a lembrança mais doce que você já me deu. Mas da próxima vez… me chama pra ajudar, tá bom? E vamos pedir uma pizza. Agora, alguém me ajuda a desenterrar essa coisa do forno antes que o bombeiro apareça?
Davi e eu nos olhamos, aliviados. Meu pai pegou a câmera.
— Não, pai, não tira foto!
— Claro que vou! Essa vai pra moldura! “O dia em que o Chico quase cozinhou a casa, mas conquistou o coração da mãe”.
Foi o melhor bolo que nunca comemos. E, no fim, a risada da minha mãe valeu mais que qualquer nota azul. Mas, só entre nós… na próxima, vou de cartão.