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Historinhas (Tentando Compor)

A Grande Aventura no Shopping

Foi num sábado abafado que a grande aventura do shopping começou. Davi e eu, entediados mortais, sem grana para o cinema e com o celular descarregado, decidimos que o Plaza Shopping seria nosso parque de diversões particular. - Tá vendo aquela velhinha com a bengala perto da fonte? - Davi sussurrou, os olhos brilhando com a maldade saudável de quem só quer uma risada. - Aposta que eu consigo passar correndo e fazer o vento balançar o vestido dela? - Aposta nada, você é um perna de pau. Olha só quem vai fazer isso,- retruquei, me agachando como um jogador prestes a fazer um drible desconcertante. E foi assim que começou. Um pega-pega épico, com regras não escritas e território delimitado pelas lojas de departamento. Eu era o fugitivo. Davi, com seu sorriso maroto, era o caçador. Deslizei entre um grupo de adolescentes, passei por trás de um quiosque de celulares e dobrei a esquina perto da livraria, quase esbarrando em uma pilha de best-sellers. - Chico, você é meu! - a voz do Davi ecoo

Foi num sábado abafado que a grande aventura do shopping começou. Davi e eu, entediados mortais, sem grana para o cinema e com o celular descarregado, decidimos que o Plaza Shopping seria nosso parque de diversões particular.

- Tá vendo aquela velhinha com a bengala perto da fonte? - Davi sussurrou, os olhos brilhando com a maldade saudável de quem só quer uma risada. - Aposta que eu consigo passar correndo e fazer o vento balançar o vestido dela?

- Aposta nada, você é um perna de pau. Olha só quem vai fazer isso,- retruquei, me agachando como um jogador prestes a fazer um drible desconcertante.

E foi assim que começou. Um pega-pega épico, com regras não escritas e território delimitado pelas lojas de departamento. Eu era o fugitivo. Davi, com seu sorriso maroto, era o caçador. Deslizei entre um grupo de adolescentes, passei por trás de um quiosque de celulares e dobrei a esquina perto da livraria, quase esbarrando em uma pilha de best-sellers.

- Chico, você é meu! - a voz do Davi ecoou, um pouco longe. Eu ri, sentindo a adrenalina do jogo. Não era uma bola, mas a emoção era parecida.

Minha estratégia era usar a multidão. Mergulhei na área de praça de alimentação, onde o cheiro de pipoca e pizza era intenso. Desviei de uma mãe com carrinho de bebê, pulei sobre uma pequena mochila deixada no chão e, num movimento que teria sido um belo drible no campo, contornei uma mesa onde um casal tentava comer em paz. O rapaz olhou assustado, um fio de espaguete pendurado no seu garfo.

Foi quando vi a escada rolante. Plano perfeito. Desci os degraus de três em três, ouvindo a voz do Davi ficando mais alta.

- Não vale escada, Chico!

No piso inferior, a coisa ficou séria. A área era mais aberta, com menos gente para me camuflar. Davi estava ganhando terreno. Corri em direção à loja de esportes, pensei em me esconder entre os manequins, mas era muito óbvio. Em vez disso, fiz uma curva fechada em direção à praça central, onde havia uma exposição de carros novos.

Foi o meu erro.

Na minha fuga cega, tentando olhar para trás para ver a distância do Davi, não vi o senhor elegante que admirava o parachoque de um sedan prateado. Colisão em pleno impacto. Não foi forte, mas foi o suficiente para fazê-lo tropeçar e derrubar a taça de smoothie que ele segurava. A bebida rosa voou, um arco perfeito, e aterrissou com um ploft no capô imaculado do carro da exposição.

O tempo parou. O senhor olhou para a sua camisa salpicada, depois para o capô manchado, e finalmente para mim, com uma expressão de puro choque. Davi, que havia alcançado o local, freou bruscamente, os olhos arregalados. Do meu lado, uma funcionária da loja com um crachá e um rádio apareceu como por magia, os braços cruzados.

- Meninos, - ela disse, e aquela única palavra tinha o peso de um milhão de sermões.

O que se seguiu foi um constrangimento monumental. Chamaram a segurança. O senhor do smoothie, felizmente, era mais compreensivo do que parecia, mas a funcionária da concessionária não estava para brincadeiras. Tivemos que esperar sentados em uns bancos de plástico duros enquanto chamavam nossos pais pelo alto-falante. A pior parte não foi a bronca do segurança, nem a multa simbólica que meus pais teve que pagar pela limpeza do carro.

A pior parte foi ver a cara da minha mãe quando ela chegou. Não era raiva. Era aquela decepção calculada, o olhar de engenharia que analisava o custo-benefício da minha existência naquele momento. Meu pai, por outro lado, fez o discurso completo, desde a responsabilidade até o “e se fosse um idoso, Chico?”.

Davi e nós fomos liberados com uma advertência por escrito e a proibição de voltar ao shopping por um mês. Na saída, sob o olhar vigilante dos nossos pais, Davi me deu um leve cotovelada.

- Pelo menos o drible na escada rolante foi bom, né? - ele sussurrou.

Eu não consegui segurar um sorriso. A vergonha era grande, o sermão ia ecoar por semanas, e minhas chances de ganhar uma mesada eram agora tão prováveis quanto eu virar o melhor aluno da escola.

Mas, entre um olhar de reprovação e outro, eu sabia. No campo, com uma bola, eu sabia o que fazer. Cada jogada, cada passe, tinha uma lógica. Fora dali, era tudo um pega-pega às cegas, e eu, pelo visto, ainda estava aprendendo as regras. A aventura no shopping tinha sido um gol contra, mas o jogo, como sempre, continuava. E pelo menos eu tinha o meu melhor amigo do lado, pronto para a próxima jogada, seja ela qual fosse.