A vida era simples. Treino, jogo, bronca por causa das notas, risada com o Davi. Até que chegou a carta.
Estava na mesa da cozinha, com o logotipo do posto de saúde. Era sobre a campanha de vacinação para adolescentes. Um reforço de alguma coisa. Só de ler a palavra “vacina”, meu estômago virou um nó.
Eu, Chico Brandão, que enfrento zagueiros de um metro e noventa e cem quilos sem piscar, tenho um medo irracional, profundo e vergonhoso de agulha. Não é frescura. É pânico mesmo. Um terror primitivo que sobe da espinha, gelado. A simples ideia daquela ponta de metal fina penetrando na minha pele me deixa tonto. Lembro-me perfeitamente da última vez, aos doze anos: suei frio, minha visão turvou e precisei me deitar depois. O enfermeiro riu. Foi humilhante.
“Chico, filho, é só uma picadinha rápida,” minha mãe disse, lendo meu pânico no rosto enquanto preparava o café. “Você, que leva bolada na canela e não faz cara, com medo disso?”
Era exatamente isso que não conseguia explicar. A bolada é um impacto honesto. A agulha é uma traição. É silenciosa e invasiva.
Escondi a carta na mochila. Talvez, se eu ignorasse, o problema desaparecesse. Mas o Davi, claro, viu.
“Carteira de vacinação em dia, craque?” ele perguntou no vestiário, depois do treino, com aquele sorriso maroto. “Ouvi falar que vão exigir para poder jogar o campeonato estadual.”
Eu congelei, enrolando as faixas das chuteiras. “Sério?”
“Brincadeira! Mas seria bom, né? Para o bem de todos.” Ele deu uma cotovelada em mim. “Vai encarar?”
“Claro que vou,” menti, com uma voz que soou estridente até para mim. “É nada.”
Nos dias seguintes, a agulha cresceu na minha mente. Virou um zagueiro imenso e intransponível. Não conseguia pensar em outra coisa. Errei passes simples no treino, o que fez o técnico gritar meu nome de um jeito que não gritava há tempos. Na aula, estava ainda mais distante. Até meu pai, normalmente descontraído, notou.
“Filho, você está mais quieto que o gol do adversário em dia de derrota. Tudo bem?”
Como explicar? Como dizer que o herói do campo, o cara que a torcida da escola grita o nome, tem pesadelos com uma seringa?
O dia marcado chegou. Era um sábado de sol. O posto de saúde ficava perto do campo onde íamos jogar à tarde. Uma ironia cruel. Minha mãe disse que me acompanharia depois do almoço.
A manhã foi um martírio. No café da manhã, a faca parecia uma agulha gigante. Meu coração batia no ritmo errado. O Davi apareceu em casa, de uniforme do time, pronto para o jogo.
“Vamos resolver isso logo, Chico. Te acompanho.”
“Não precisa…” tentei protestar, mas as pernas já estavam bambas.
“Precisa, sim. Porque se você desmaiar, eu seguro você. E se o técnico descobrir que você não tomou por medo, ele te bota no banco. E a gente precisa de você em campo.”
Ele tinha um ponto. O medo da vergonha era quase tão forte quanto o medo da agulha. Quase.
Caminhamos até o posto. O cheiro de álcool e o branco das paredes me fizeram suar instantaneamente. A fila era de mães com bebês e idosos. Eu, um moleque alto e atlético, suando frio no meio deles, era um espetáculo patético.
Quando minha vez chegou, a enfermeira sorriu. “Nome?”
“F-Francisco,” gaguejei.
“Vai ser rapidinho, lindo. Senta ali.”
A sala era pequena. A bandeja de aço com algodão, a seringa… Meu campo de visão começou a estreitar. O Davi ficou ao meu lado.
“Olha pra mim, craque. Não olha pra agulha. Me conta do gol que você vai fazer hoje.”
Eu fixei os olhos nos dele. Eram sérios, firmes. De amigo. De capitão.
“Eu… eu acho que vou de cobertura. Se o lateral abrir espaço…”
“Vai, sim. E vai ser lindo. A torcida vai enlouquecer. A gente vai ganhar.”
A enfermeira passou o algodão gelado no meu braço. Eu dei um salto.
“Calma, jovem. Respira fundo.”
Respirei. Olhei para o Davi. Ele acenou com a cabeça, um gesto de confiança total.
“Foca no gol, Chico. Só no gol.”
Eu fechei os olhos. Não senti a picada. Sério. Ouvi a voz da enfermeira dizendo “prontinho” e o Davi dando uma palmada nas minhas costas.
“Isso aí, guerreiro. Viu como foi nada?”
Abri os olhos. Estava um pouco tonto, mas de pé. A agulha, aquela monstruosidade que habitava meus pensamentos há semanas, tinha ido embora. Era só um pequeno algodão no braço.
A sensação que veio depois não foi de alívio, foi de vitória. Foi a mesma sensação de driblar o último defensor e ficar cara a cara com o goleiro. Um desafio vencido.
À tarde, no jogo, joguei como se tivesse tirado um peso das costas. O time adversário era forte, mas eu estava leve. Aos trinta do segundo tempo, recebi a bola no meio-campo, exatamente como havia imaginado no posto. Vi o lateral se adiantar. Dei um toque por cima dele, corri como se não houvesse amanhã e chutei com precisão. A bola entrou no ângulo.
O som da torcida foi ensurdecedor. Meus companheiros vieram me abraçar, o Davi foi o primeiro, gritando no meu ouvido: “Foi o gol da vacina, seu covarde!”
E eu ri, de verdade, pela primeira vez naquele dia. Talvez a maior coragem não seja enfrentar um adversário no campo, mas encarar os monstros que a gente cria dentro da própria cabeça. E, no fim, descobrir que, com um bom amigo ao seu lado, até o maior medo pode ser driblado.