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Historinhas (Tentando Compor)

O Dia em Que Meu Cérebro Deu Férias

Meu nome é Francisco, mas todo mundo me chama de Chico. Tenho dezesseis anos, sou paranaense, e vou ser bem sincero: eu sou, oficialmente, o pior aluno da turma. Mas também sou o artilheiro do time e consigo fazer um ollie que deixa qualquer um de queixo caído. Mas isso não impressiona muito a minha mãe, a Olívia. Mamãe é engenheira. Ela não entende “nota baixa”. Ela acha que é uma opção de vida, tipo escolher uma camiseta feia. E ela tem um plano de ação pra tudo, menos pra minha capacidade de zerar uma prova de matemática. Meu pai, o Marcos Felipe, é vendedor. O coração dele é mole. Ele sempre tenta me defender. - Olha, Olívia, o menino tem habilidade! Viu o gol que ele fez no domingo? Foi coisa de craque! Aí minha mãe vira pra ele com aquele olhar que poderia derreter aço. - Marcos, o gol não vai pagar a faculdade dele. A bola não tem fórmula de Bhaskara escrita. Pois bem, o dia do meu apagão total começou como qualquer outro. Acordei atrasado, claro. - Chico! Desce agora, senão vo

Meu nome é Francisco, mas todo mundo me chama de Chico. Tenho dezesseis anos, sou paranaense, e vou ser bem sincero: eu sou, oficialmente, o pior aluno da turma. Mas também sou o artilheiro do time e consigo fazer um ollie que deixa qualquer um de queixo caído. Mas isso não impressiona muito a minha mãe, a Olívia.

Mamãe é engenheira. Ela não entende “nota baixa”. Ela acha que é uma opção de vida, tipo escolher uma camiseta feia. E ela tem um plano de ação pra tudo, menos pra minha capacidade de zerar uma prova de matemática.

Meu pai, o Marcos Felipe, é vendedor. O coração dele é mole. Ele sempre tenta me defender.

- Olha, Olívia, o menino tem habilidade! Viu o gol que ele fez no domingo? Foi coisa de craque!

Aí minha mãe vira pra ele com aquele olhar que poderia derreter aço.

- Marcos, o gol não vai pagar a faculdade dele. A bola não tem fórmula de Bhaskara escrita.

Pois bem, o dia do meu apagão total começou como qualquer outro. Acordei atrasado, claro.

- Chico! Desce agora, senão você perde o ônibus! – gritou minha mãe da cozinha, no tom de “alerta de míssil”.

Desci as escadas correndo, metade do uniforme vestido, uma meia de cada cor, e agarrei a mochila.

- Tá com tudo, filho? Caderno de matemática? Livro de história? – perguntou meu pai, tentando ser útil.

- Tá tudo aqui, pai, prometo! – eu disse, sem abrir a mochila para não estragar a surpresa (pra mim mesmo).

Encontrei o Davi no ponto do ônibus. Ele já estava impecável, lanche na mão.

- E aí, Chico, pronto pra prova de química?

Eu parei. Congelei. Uma sensação gelada subiu da espinha até o topo da minha cabeça.

- Prova? Que prova?

Davi riu.

- Mano, a gente estudou ontem. Ácidos e bases? Você desenhou o professor de bigode no seu caderno?

Um vazio. Um deserto absoluto na minha mente. Não só não me lembrava da prova. Eu não me lembrava de NADA do que deveria fazer naquele dia.

- Davi… sério. Qual é a nossa primeira aula?

- Matemática, com a Dona Marta.

- E depois?

- Português, com o Seu Alberto. Chico, você tá bem? Parece que viu um fantasma.

- Pior. Eu vi a minha memória indo embora de skate, - eu respondi, genuinamente assustado.

O dia foi uma sequência de desastres hilários. Entrei na sala de matemática e cumprimentei a professora:

- Bom dia, Dona Marta! Prontos pra desenhar… digo, pra calcular?

Ela me olhou com desconfiança. A prova de química era na terceira aula. Quando a professora entregou a folha, eu olhei para aqueles símbolos e fórmulas como se fossem hieróglifos egípcios. H₂SO₄? Para mim, parecia a placa de um carro roubado.

Decidi usar a criatividade. Uma das perguntas era: “O que é uma base?”. Escrevi: “É o lugar onde o jogador fica quando não está atacando. No futebol.” Não estava totalmente errado, mas duvido que a professora ia aceitar.

Na hora do almoço, na cantina, o Davi não aguentava de rir.

- Você entregou a prova de química com uma tática de futebol? Chico, você é um gênio!

- Não ria, seu traidor! Preciso de ajuda! O que mais eu esqueci?

- Hoje à tarde tem treino. E você é o capitão. Tem que dar o esquema tático.

Meu sangue gelou de novo. Capitão! Eu tinha esquecido completamente. O técnico tinha me passado um novo esquema, o 4-3-3, e eu tinha anotado… onde? Procurei freneticamente na mochila. Nada. Só um monte de papeis amassados e um skate keychain.

O treino foi o ápice da comédia. Fui tentar montar o time.

- Certo, pessoal! Hoje vamos de… 3-5-2! Não, 4-4-2! Na verdade, quem quiser jogar na frente, dá um grito!

Os caras me olharam como se eu tivesse falado em aramaico. O técnico, o Seu Wilson, colocou as mãos na cintura.

- Brandão! O esquema era 4-3-3! O que você tá fazendo?

- Treinando a improvisação, Seu Wilson! Habilidade importante pra vida!

Ele só balançou a cabeça, tentando não rir.

Ao chegar em casa, o ambiente estava tenso. Minha mãe estava com os braços cruzados. Na mesa da sala, estava minha prova de química, com um gigantesco “2,0” em vermelho.

- Francisco Anísio Brandão. Explique-me isso.

Eu respirei fundo. Hora da verdade.

- Mãe, eu… eu tive um dia muito peculiar. Meu cérebro decidiu tirar férias sem aviso prévio. Esqueci da prova, esqueci do esquema tático, quase esqueci de vir pra casa. Mas! Eu aprendi uma lição valiosa.

Ela ergueu uma sobrancelha. Meu pai, atrás dela, fazia sinais de “vai, filho!”.

- Aprendi que anotar as coisas num lugar que eu me lembre é mais importante do que fazer um gol de bicicleta. Talvez. E também que ácido não é só o apelido do nosso goleiro.

Ficou um silêncio. Meu pai não aguentou e soltou uma risada abafada. Minha mãe tentou manter a cara séria, mas um sorriso minúsculo apareceu no canto da sua boca.

- Está bem, Chico. ‘Peculiar’ é uma palavra nova. Usou bem. Mas amanhã, você vai sentar com o Davi e refazer essa prova. E vai me mostrar o caderno. O caderno de verdade, não o do bigode.

- Pode deixar, mãe! E pai, pode me ajudar com o esquema 4-3-3?

Meu pai abriu um sorriso largo.

- Claro, filho! Finalmente algo que eu entendo!

Fui para o meu quarto, exausto. Me joguei na cama e olhei para o skate no canto. Até ele parecia rir de mim. Foi o dia em que eu esqueci de tudo. Mas, no fim, lembrei do mais importante: ter uma família que, mesmo aos trancos e barrancos, me ajuda a não desistir do jogo. E que, às vezes, rir do próprio desastre é a única jogada inteligente.