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Historinhas (Tentando Compor)

A Prova Não Pode Acontecer!

Eu nunca fui de estudar. Sério, acho que nasci com os pés em uma bola de futebol e o cérebro programado só para pensar em dribles e gols. Sou o pior aluno da turma. Mas, em compensação, sou o melhor jogador de futebol do time da escola. Atacante, claro. E quando não estou chutando uma bola, estou em cima do meu skate, deslizando por aí. O problema começou ontem. Tinha prova de História, aquele monte de datas e nomes de gente que morreu há séculos. Eu, é claro, não tinha estudado nada. Nem abri o livro. Na véspera, estava treinando finalização até o sol se pôr. Só lembrei da prova quando já estava na cama, quase dormindo. “Droga”, pensei. Aí veio o plano infalível: a cola. Só que, no meu estilo Chico, esqueci de fazer a bendita cola também. No dia, sentado na sala com a prova branca e ameaçadora na minha frente, o desespero bateu. Olhei para o Davi, que estava duas carteiras à frente. Ele virou e me viu com a cara de quem tinha visto um fantasma. Fiz uns gestos malucos com as mãos, tent

Eu nunca fui de estudar. Sério, acho que nasci com os pés em uma bola de futebol e o cérebro programado só para pensar em dribles e gols. Sou o pior aluno da turma. Mas, em compensação, sou o melhor jogador de futebol do time da escola. Atacante, claro. E quando não estou chutando uma bola, estou em cima do meu skate, deslizando por aí.

O problema começou ontem. Tinha prova de História, aquele monte de datas e nomes de gente que morreu há séculos. Eu, é claro, não tinha estudado nada. Nem abri o livro. Na véspera, estava treinando finalização até o sol se pôr. Só lembrei da prova quando já estava na cama, quase dormindo.

“Droga”, pensei. Aí veio o plano infalível: a cola. Só que, no meu estilo Chico, esqueci de fazer a bendita cola também. No dia, sentado na sala com a prova branca e ameaçadora na minha frente, o desespero bateu. Olhei para o Davi, que estava duas carteiras à frente. Ele virou e me viu com a cara de quem tinha visto um fantasma.

Fiz uns gestos malucos com as mãos, tentando transmitir a mensagem: “Preciso de ajuda! A prova não pode acontecer!”. A minha lógica genial na hora era: se algo acontecesse com a prova, ela seria cancelada, certo? O Davi entendeu na hora. Ou entendeu errado. Com ele, nunca se sabe.

Ele deu um sorriso maroto e, quando o professor virou de costas para escrever no quadro, o Davi fez o sinal. Era agora ou nunca. Eu peguei a minha garrafa d’água, meio cheia, e, fingindo um espirro colossal, joguei ela no chão, bem no meio da sala. O barulho foi perfeito, um "plash" molhado e dramático.

Mas o plano tinha um defeito fatal: a garrafa rolou direto para os pés do professor, encharcando os sapatos novos dele. E, pior, ela não tinha tampa. A água se espalhou como um mini-tsunami, atingindo as mochilas de pelo menos cinco pessoas, incluindo a da Maria Clara, que tem a mochila mais cara e cheia de enfeites da escola.

O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer gritaria. O professor olhou para o sapato encharcado, depois para a poça d’água, depois para mim, ainda com a cara de espirro congelada. O Davi tentou disfarçar, olhando para o teto como se estivesse muito interessado na lâmpada.

- Chico. Davi. Diretoria. Agora.

A caminho da diretoria, o Davi sussurrou:

- A ideia era fazer a prova não acontecer, não fazer um dilúvio particular, Chico!

Na sala da diretora, a senhora Marta, a diretora, nos encarou com aquele olhar que atravessa a gente. Ela nem precisou falar muito. Só disse:

- Contem.

E eu tive que contar. Tudo. A prova, o desespero, o plano da garrafa, o “acidente”. Usei a minha linguagem simples, de sempre:

- É que, senhora… eu não estudei. E esqueci de fazer cola. Aí pensei que se a prova molhasse, talvez… não rolasse. O Davi só fez o sinal. A culpa é minha.

O Davi cutucou meu braço:


- Eu ajudei na parte do sinal. Divido a culpa.”

A diretora suspirou, olhando para nós dois.

- Chico, seu talento no futebol é reconhecido por todos. Mas o mundo não é só um campo. Davi, você é um excelente aluno. Por que arriscar tudo por uma brincadeira?

Não soube o que responder. Ela ligou para os nossos pais.

Agora, estou aqui, esperando minha mãe chegar. Sei que vou ouvir um sermão histórico. Meu pai vai tentar amenizar, mas as notas ruins e agora isso… acho que até ele vai ficar sem palavras.

O Davi está do meu lado, olhando para o chão.
- Pelo menos foi divertido enquanto durou o plano, né?, ele sussurrou.

Eu ri, mesmo sem graça. A aventura de tentar cancelar uma prova deu mais errado do que qualquer prova poderia dar. Mas, no fundo, sei que a maior lição não vai vir da diretora ou da minha mãe. Vai vir de mim mesmo. Porque, no fim das contas, não dá para driblar a vida inteira. Às vezes, você tem que parar o skate, guardar a bola por um tempo, e abrir um livro.

Mesmo que seja só para não causar outro dilúvio na sala de aula.