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Historinhas (Tentando Compor)

Dever de Casa Virou Show

Eu nunca fui muito fã de dever de casa. Sério, quem inventou essa tortura? Enquanto a galera fala de fórmulas de física e análise sintática, eu só consigo pensar em tabela do campeonato paranaense, no próximo treino, na jogada que errei no último jogo. Meu nome é Francisco, mas todo mundo me chama de Chico. Tenho 16 anos, sou paranaense de coração e, segundo os boletins, o pior aluno da escola. Mas no campo, é outra história. Lá, eu mando. Agora, imagine a cena: eu, sentado à mesa da cozinha, diante de um livro de matemática que parece escrito em grego antigo. Do meu lado, o meu porto seguro, o meu irmão de outra mãe, Davi Fernandes. Ele é o meu melhor amigo, do time e da vida. O cara é um bom aluno, tira notas boas sem parecer um nerd esquisitão, e o melhor: tem a paciência de um santo. Ou a insanidade de tentar me ensinar algo. — Chico, para de olhar pro relógio. Faltam só mais duas questões — disse Davi, rabiscando o caderno com uma calma que me irritava. — Duas questões que poderia

Eu nunca fui muito fã de dever de casa. Sério, quem inventou essa tortura? Enquanto a galera fala de fórmulas de física e análise sintática, eu só consigo pensar em tabela do campeonato paranaense, no próximo treino, na jogada que errei no último jogo. Meu nome é Francisco, mas todo mundo me chama de Chico. Tenho 16 anos, sou paranaense de coração e, segundo os boletins, o pior aluno da escola. Mas no campo, é outra história. Lá, eu mando.

Agora, imagine a cena: eu, sentado à mesa da cozinha, diante de um livro de matemática que parece escrito em grego antigo. Do meu lado, o meu porto seguro, o meu irmão de outra mãe, Davi Fernandes. Ele é o meu melhor amigo, do time e da vida. O cara é um bom aluno, tira notas boas sem parecer um nerd esquisitão, e o melhor: tem a paciência de um santo. Ou a insanidade de tentar me ensinar algo.

— Chico, para de olhar pro relógio. Faltam só mais duas questões — disse Davi, rabiscando o caderno com uma calma que me irritava.

— Duas questões que poderiam ser duas horas de treino, Davi. O Vitor não vai treinar aquele lançamento sozinho, sabe? — eu reclamei, girando a caneta entre os dedos como se fosse um bastão de malabarista.

A minha mãe, Olívia, passou pela cozinha a caminho da sala. Ela é engenheira, então tudo pra ela é lógica e solução. Me deu aquele olhar de “estou de olho em você” antes de sumir. Meu pai, Marcos, ainda não tinha chegado do trabalho. Vendedor, sempre chega cansado, mas nunca perde um jogo meu.

Davi ignorou meu drama e apontou para o livro. — Olha, é só aplicar a fórmula da função quadrática aqui. O vértice da parábola…

— Parábola? Isso é coisa de padre, não de matemática — cortei, fazendo uma careta. — Prefiro a parábola do meu chute, que sempre cai no ângulo.

Ele soltou uma risada, sacudindo a cabeça.

— Você é impossível. Olha, faz assim… — E começou a desenhar gráficos, explicando com uma clareza que, admito, até eu quase entendi. Quase.

Mas aí veio a minha parte favorita: a palhaçada. Enquanto ele falava de “x” e “y”, eu peguei uma bolinha de papel que tinha feito antes e comecei a fazer embaixadinhas com o joelho, sob a mesa.

— Chico! — Davi tentou soar bravo, mas o sorriso escapou.

— Tô treinando a coordenação motora, é importante! — defendi, fazendo a bolinha pular do joelho para o peito do pé. — Olha só, controle de bola. Isso sim é uma habilidade útil pra vida.

— Útil pra você não passar de ano, talvez — ele retrucou, tentando roubar a bolinha. Eu desviei, fazendo ela cair no livro, em cima do tal vértice da parábola.

— GOL! Contra do Davi Fernandes! A bolinha invade a área do livro e faz a lição desaparecer! — comentei em tom de narrador esportivo, erguendo os braços.

Davi não aguentou e caiu na risada. — Você é um caso perdido, cara.

— Perdido no campeonato, talvez. Na sala de aula, com certeza — concordei, rindo também. — Mas falando sério, me ajuda com essa última? Prometo que presto atenção.

Ele suspirou, mas os olhos ainda brilhavam de diversão. — Tá bom, mas sem embaixadinhas. E se você acertar, a gente joga uma partida de FIFA depois.

— Fechou! — aceitei na hora. Era o incentivo que eu precisava.

Enquanto ele explicava de novo, dessa vez com eu tentando focar (um pouco), eu fiquei pensando. É estranho. Na escola, eu me sinto sempre um peixe fora d’água, como se as coisas simplesmente não entrassem na minha cabeça daquele jeito. Mas no campo, com uma bola nos pés, tudo faz sentido. Cada passe, cada corrida, cada drible… é como se eu falasse uma língua que só eu e o gramado entendemos. E o Davi? Ele é o tradutor. Consegue viver nos dois mundos sem esforço.

Ele terminou de explicar, e eu, com muita concentração e algumas dicas dele, consegui rabiscar uma resposta que parecia mais ou menos certa.

— Pronto! — anunciei, fechando o livro com um baque. — Dever cumprido. Agora, FIFA. Prepare-se para a goleada.

— Vamos ver se seu controle no videogame é tão bom quanto com a bolinha de papel — ele provocou, levantando e indo em direção à sala.

Eu o segui, dando uma olhada para a cozinha vazia. Por um segundo, pensei no que minha mãe diria se visse a cena: o filho, o pior aluno, sendo salvo pelo amigo mais uma vez. Mas aí lembrei do que meu pai sempre fala: “Na vida, filho, a gente tem que saber pedir ajuda e ter amigos de verdade”. E eu tenho o Davi.

Então, talvez eu não seja o cara das fórmulas e dos gráficos. Sou o cara do drible, do passe e das palhaçadas na hora da lição. E tudo bem. Enquanto eu tiver o campo no fim de semana e um amigo pra me ajudar a encarar os deveres de semana, acho que vou sobreviver ao segundo ano. Ou, pelo menos, vou me divertir tentando.