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Nair Monteiro. A Fortona

Energia Entre Nós

O sol de Curitiba já começava a se despedir quando Nair Monteiro saltou do ônibus escolar com seu skate debaixo do braço. A garota de dezessete anos, alta e de porte atlético — resultado de horas intermináveis na academia e manobras audaciosas no skate park — caminhava com aquela energia característica que só quem é cearense de coração carrega consigo, mesmo estando longe de Fortaleza há apenas seis meses. Seu cabelo preto, preso num rabo de cavalo desgrenhado, balançava conforme ela avançava pela calçada. Nair vestia seu moletom cinza *oversize*, jeans desbotado e tênis surrado de tanto uso. Ela odiava aula de Português — aquelas regras gramaticais a sufocavam — e mal conseguiu prestar atenção nas outras matérias. Mediana, como sempre. Ao chegar em casa, o silêncio a recebeu. Seus pais, Daniel e Ana Monteiro, ainda estavam em seus respectivos plantões — ele como cardiologista no hospital, ela finalmente feliz numa clínica veterinária de prestígio. A mudança para Curitiba foi dura, ma

O sol de Curitiba já começava a se despedir quando Nair Monteiro saltou do ônibus escolar com seu skate debaixo do braço. A garota de dezessete anos, alta e de porte atlético — resultado de horas intermináveis na academia e manobras audaciosas no skate park — caminhava com aquela energia característica que só quem é cearense de coração carrega consigo, mesmo estando longe de Fortaleza há apenas seis meses.

Seu cabelo preto, preso num rabo de cavalo desgrenhado, balançava conforme ela avançava pela calçada. Nair vestia seu moletom cinza *oversize*, jeans desbotado e tênis surrado de tanto uso. Ela odiava aula de Português — aquelas regras gramaticais a sufocavam — e mal conseguiu prestar atenção nas outras matérias. Mediana, como sempre.

Ao chegar em casa, o silêncio a recebeu. Seus pais, Daniel e Ana Monteiro, ainda estavam em seus respectivos plantões — ele como cardiologista no hospital, ela finalmente feliz numa clínica veterinária de prestígio. A mudança para Curitiba foi dura, mas necessária por causa da carreira do pai. Nair sentia falta do calor do Nordeste, mas aprendeu a encontrar refúgio em outras coisas.

E em outras pessoas.

Ela pegou o celular e digitou rápido, os dedos ágeis dançando sobre a tela.

"Leozinho, tô sozinha em casa. Vem?"

A resposta veio em segundos, acompanhada de um emoji de coração: "Já tô saindo. Te amo."

Nair sentiu aquele frio na barriga que nenhuma manobra de skate conseguia reproduzir. Quatro meses de namoro com Léo Soares, e ela ainda tremia como na primeira vez.

Léo chegou vinte minutos depois, sua guitarra caseira nas costas — ele nunca ia a lugar algum sem ela. O jovem de dezenove anos, magro e de aparência delicada, tinha aquela franja loira emo que caía sobre seus olhos sonhadores. Ele era tudo que Nair não era: suave, meigo, romântico, um poeta com voz de anjo que sonhava em conquistar palcos lotados.

— E aí, brutinha — ele sorriu ao entrar, usando o apelido carinhoso que só ele podia usar.

— E aí, cantor — ela respondeu, sentindo o coração acelerar.

Eles se conheciam. Conheciam os pais de Nair e suas desaprovações veladas. Daniel e Ana, apesar de modernos, achavam a filha nova demais para relacionamentos sérios. E Léo? Léo era "aquele músico", "nada sério", alguém que não representava "futuro estável". Mas Nair não ligava. Quando Léo tocava violão para ela, quando cantava composições próprias com aquela voz doce, ela sentia que estava exatamente onde deveria estar.

— Teus pais? — Léo perguntou, hesitante.

— Plantão duplo. Só voltam de madrugada — ela disse, puxando sua mão. — Vem.

A casa estava vazia, mas cheia de possibilidades.

Eles foram para o quarto de Nair — paredes ainda sem decoração, caixas parcialmente desempacotadas, provas de que a mudança ainda era recente. Léo deixou a guitarra encostada na parede e sentou-se na beirada da cama. Nair se jogou ao lado dele, as pernas cruzadas, aquele jeito descontraído de quem vive em movimento.

— Toca alguma coisa? — ela pediu.

— Prefiro cantar para você sem violão hoje — Léo disse, seus olhos fixos nos dela.

E ele cantou. Uma música que compusera na semana passada, algo sobre garotas fortes que carregam o mundo nas costas e ainda assim têm espaço para amar. Nair sentiu o calor subir pelo pescoço. Ela, que derrubava adversários no skate, que levantava pesos que assustavam garotos da escola, sentia-se derretida por aquele loiro magricela de voz suave.

Quando a música terminou, o silêncio entre eles era denso, carregado.

— Léo... — ela sussurrou.

— Eu sei — ele respondeu, e não havia mais nada a dizer.

Eles se aproximaram lentamente, o contraste entre eles perfeito — ela toda energia e força, ele todo suavidade e melodia. Quando seus lábios se encontraram, o mundo lá fora deixou de existir. Não havia Curitiba, não havia saudade de Fortaleza, não havia preocupações com escola ou futuro. Havia apenas aquela conexão, aquela energia trocada entre dois corações que batiam em sincronia.

Léo passou as mãos pelos cabelos de Nair, soltando o rabo de cavalo. Ela enterrou os dedos na franja loira dele. O beijo se aprofundou, doce e urgente, cheio de quatro meses de desejos contidos e encontros roubados.

Eles se deitaram na cama, Léo sobre Nair, ou talvez Nair sobre Léo — já não havia diferença. Mãos exploravam, respirações aceleravam. A música que não existia tocava alta em seus peitos.

— Eu te amo — Léo murmurou contra seus lábios.

— Eu te amo mais — ela respondeu, e ria, porque era impossível medir amor.

Eles se perderam no momento, esquecidos de tudo. Esquecidos do skate, da guitarra, das notas medianas, das aulas de Português. Esquecidos até de...

A porta da frente se abriu com um clique.

— Nair? Filha, estamos em casa! — a voz de Ana ecoou pelo corredor.

— O plantão foi cancelado, teu pai conseguiu... — a voz de Daniel se aproximava.

Nair e Léo se separaram como se tivessem recebido choques elétricos. Os olhos de Nair arregalaram-se — impossível, eles não deveriam estar aqui! Léo ficou pálido, a franja caindo sobre olhos agora petrificados.

— Meu quarto! — Nair sussurrou freneticamente, tentando arrumar a camiseta e prender o cabelo de novo.

Mas era tarde demais.

A porta do quarto se abriu, e ali estavam Daniel e Ana Monteiro — cansados após longos dias de trabalho, esperando apenas um banho e descanso. O que encontraram foi a filha deles, a garota forte e atlética que eles achavam "ainda nova para namorar", deitada na cama com "aquele músico nada sério", ambos com faces coradas, cabelos desarrumados, e a evidência incontestável de um momento íntimo interrompido.

O silêncio foi absoluto.

Léo foi o primeiro a se mover, levantando-se com aquela delicadeza que o caracterizava, embora suas mãos tremessem.

— Doutor Daniel, Dona Ana, eu... — ele gaguejou.

Nair se levantou também, erguendo o queixo. Ela não era de se esconder. Alta, forte, determinada — mesmo agora.

— A gente... a gente só tava... — ela começou.

— Eu posso explicar... — Léo tentou.

Ana olhou para o marido. Daniel olhou para a filha, depois para o rapaz magricela de franja emo que segurava a mão de Nair com ternura, apesar do pânico evidente.

E então, algo inesperado aconteceu.

Ana, a veterinária que passava o dia cuidando de animais feridos, que conhecia o olhar de quem está protegendo algo precioso, viu nos olhos de Léo não a intenção que ela temia, mas algo mais puro. E Daniel, o cardiologista que ouvia corações o dia todo, percebeu o batimento acelerado e sincero entre os dois jovens.

— Léo — Daniel disse, sua voz grave mas não hostil —, acho melhor você ir para casa. Agora.

— Sim, senhor — Léo respondeu imediatamente, pegando sua guitarra.

— A gente se vê amanhã? — Nair perguntou, desafiando os pais com o olhar.

Léo olhou para Daniel e Ana, depois para Nair. Ele sorriu, aquele sorriso meigo e romântico que fazia Nair derreter.

— Amanhã, sim. No skate park. Eu levo meu violão.

Ele saiu, passando pelos pais de Nair com um aceno respeitoso. A porta se fechou.

O silêncio retornou, pesado.

— Nair — Ana começou, sentando-se na cama —, a gente precisa conversar.

— Eu sei, mãe — Nair disse, sentando-se ao lado dela. — Mas antes de você falar que eu sou nova demais, que eu tenho que estudar, que Léo não é sério... olha para mim.

Daniel e Ana olharam.

— Eu sou forte, né? — Nair continuou. — Eu caio no skate, eu levanto. Eu erro na escola, eu tento de novo. Eu vim parar aqui, longe de tudo, e eu aguentei. Eu aguento qualquer coisa. Mas quando eu tô com o Léo... eu não preciso ser forte. Eu posso ser só eu. E ele... ele é sério, sim. Sério sobre me fazer feliz. E isso é mais importante do que qualquer coisa.

Ana suspirou, pegando a mão da filha. Daniel massageava a têmpora, o cardiologista derrotado pela lógica sentimental de uma adolescente.

-2

— Seis meses — Daniel murmurou. — Seis meses aqui e você já... — ele gesticulou para a cama desarrumada.

— Pai, eu sou cearense — Nair sorriu, aquele sorriso largo e cheio de energia —. A gente sente as coisas forte. A gente ama forte. E Léo... ele é minha música favorita. Vocês vão ter que aprender a ouvir.

Ana riu, um som surpreso e genuíno. Daniel balançou a cabeça, mas havia um quase-sorriso em seus lábios.

— Amanhã — Ana disse, levantando-se —, esse rapaz vem jantar aqui. A gente precisa conhecer direito esse "músico nada sério".

— E você — Daniel apontou para a filha —, vai estudar Português. Sem discussão.

Nair saltou da cama, envolvendo os pais num abraço forte — daqueles que só ela conseguia dar.

— Deal! — ela exclamou, o inglês escapando, prova de que precisava mesmo estudar.

Mais tarde, deitada na cama, Nair olhava para o teto. Seu celular vibrou.

"Ainda tô tremendo. Teus pais me odeiam?"

Ela digitou rápido, sorrindo no escuro:

"Eles te convidaram para jantar amanhã. E eu te amo. Volta logo."

A resposta veio com um emoji de coração quebrado e outro consertado:

"Vou compor uma música sobre garotas que fazem seus pais querer me matar, mas que valem cada segundo. Te amo mais. Sempre."

Nair guardou o celular, sentindo a energia do dia ainda vibrando em seu peito. Curitiba não era Fortaleza. A escola era chata. Os pais eram protetores demais. Mas ali, naquele momento, tudo era perfeito.

Porque amor, ela aprendera, não era coisa de gente suave e delicada apenas. Era também coisa de garotas fortes que derrubavam barreiras — no skate park, na academia, e no coração dos pais.

E quando Léo cantasse essa nova música para ela, talvez em português ruim, talvez com algum erro gramatical que eles riam juntos, Nair sabia que seria a melodia mais bonita que ela já ouviria. Porque era a música deles. Energética, romântica, e inteiramente sua.