Uma História de Amor em Curitiba
O vento frio de Curitiba cortava as ruas do bairro quando Nair Monteiro desceu do ônibus escolar, seu moletom cinza balançando com o movimento ágil de seus 1,80m de altura. A menina cearense, que há apenas seis meses havia chegado do Nordeste trazendo consigo o calor de sua terra e uma energia contagiante, ajustou o rabo de cavalo preto e encaixou o skate debaixo do braço musculoso.
— E aí, cabra! — Chico Brandão surgiu de trás, com aquele cabelo preto desgrenhado e a franja jogada pra trás, sorriso largo estampado no rosto. — O Davi faltou hoje, então sou eu e você, parceira!
— Bora, Chico! — Nair deu um tapa nas costas do amigo, fazendo ele cambalear. — Hoje eu vou te ensinar aquele *flip* que você nunca acerta!
Os dois caminharam pelas ruas de paralelepípedo do bairro, rindo alto, competindo pra ver quem fazia a melhor imitação dos professores, compartilhando energia pura, juvenil e intensa. Chico, que antes da chegada de Nair era o melhor skatista da região, agora tinha encontrado em sua amiga uma rival digna — e uma amizade que transbordava alegria.
— Caraca, Nair, você é muito bruta, véi! — Chico ria, admirado, enquanto ela fazia um *ollie* perfeito sobre um corrimão. — Quando eu crescer quero ser igual a você!
— Você é novo ainda, seu besta! — Nair caiu no risada, mostrando aquele sorriso largo que conquistou não apenas o bairro, mas também o coração de Léo Soares.
Era exatamente esse momento de pura conexão, de amizade verdadeira e descompromissada, que um amigo da banda de Léo capturou com a câmera do celular. Chico, eufórico com a manobra que Nair acabou de ensinar, pulou nas costas da amiga em um abraço de comemoração. Nair segurou firme as pernas dele nas costas, os dois rindo como crianças, sem malícia, sem segundas intenções — apenas a energia vibrante de uma amizade sincera.
Mas a foto não contava essa história. A foto mostrava apenas: um abraço. Quente. Íntimo. Dois corpos juntos, sorrindo.
Naquela noite, enquanto Curitiba dormia sob uma fina garoa, Nair sentou na cama de seu quarto e ligou o notebook. A saudade de Léo era um peso constante no peito, uma mistura de orgulho pelo namorado que estava conquistando o Brasil com sua banda e uma dor silenciosa por não poder estar ao lado dele.
A notificação do vídeo chamada tocou. O rosto de Léo apareceu na tela — cabelo loiro com franja emo caindo sobre os olhos, aquele olhar meigo e suave que sempre desarmava Nair, mas agora... agora havia algo diferente. Uma sombra.
— Oi, amor... — Nair começou, mas foi interrompida.
— Quem é o cara? — A voz de Léo saiu mais dura do que pretendia. Ele mostrou a foto no celular. — Esse abraço aí, Nair. O que foi isso?
Nair sentiu o coração acelerar. Não de culpa — porque ela não tinha nada a esconder — mas de algo mais profundo. Ela reconheceu aquele tom. Era o mesmo que ela sentia toda vez que via fãs jogando rosas no palco, ou comentários apaixonados nas redes sociais do namorado músico.
— Léo... — ela respirou fundo. — É o Chico. Você sabe quem é. Meu amigo. Meu parceiro de skate. Ele tem dezesseis anos, amor. É só um moleque energético que fica feliz quando acerta uma manobra.
— A foto parece... — Léo hesitou, a voz falhando. — Parece muito íntima, Nair. Vocês parecem...
— Parecem o quê? — Nair sentiu as lágrimas brotarem, mas não de tristeza — de frustração, de saudade, de amor. — Léo, eu passo os dias na escola, na academia, no skate. Eu durmo com seu nome na cabeça e acordo pensando na sua voz. Eu sinto sua falta até na alma. E você acha mesmo que eu... que eu trocaria isso... por um abraço de um menininho?
Léo ficou em silêncio. Do outro lado da tela, em algum hotel de alguma cidade do tour, ele sentiu o ciúme dar lugar a algo mais verdadeiro: a saudade. A mesma saudade que corroía Nair.
— Eu também sinto falta de você todo dia — ele sussurrou. — E quando eu vi essa foto... eu fiquei com medo, Nair. Medo de perder a pessoa mais incrível que já conheci. Você é tão... tão forte. Tão cheia de vida. E eu tô longe. E essas fãs... elas não me querem de verdade. Mas você... você me conhece. E eu tenho medo de não ser suficiente.
Nair sentiu o coração derreter. O ciúme dela pelas fãs, o ciúme dele pela foto — eram duas faces da mesma moeda: o amor profundo, o medo de perder algo precioso.
— Você é mais do que suficiente, Léo Soares — ela disse firme, olhando direto para a câmera. — Você é minha música favorita. Minha letra perfeita. Quando você voltar pra Curitiba, eu vou te mostrar. Vou te provar. Não existe ninguém, ninguém, que faça meu coração bater do jeito que você faz. Nem todo o skate do mundo. Nem todos os abraços de todos os amigos.
Léo sorriu, aquele sorriso meigo que ela amava, e enxugou uma lágrima.
— Falta uma semana pro show em Curitiba — ele disse, a voz cheia de promessa. — Espera por mim, Nair Monteiro. Espera que eu vou fazer valer a pena cada segundo de saudade.
***
A noite do show chegou como um sonho.
O Bar Opinião estava lotado, mas Nair não estava na plateia. Ela estava nos bastidores, de moletom e tênis, o coração batendo forte no peito forte de quem malha todos os dias mas que, naquele momento, sentia uma vulnerabilidade doce.
Quando Léo subiu no palco, ele não olhou para as fãs primeiro. Ele procurou nos bastidores até encontrar os olhos de Nair. E então, diante de centenas de pessoas, ele disse no microfone:
— Essa música eu escrevi numa noite de saudade. É pra uma garota que chegou do Ceará e conquistou Curitiba. E conquistou meu coração. Nair, essa é pra você.
As primeiras notas do violão preencheram o ar. Léo cantou uma canção de amor tão sincera, tão cheia de promessas e perdão, que Nair sentiu as lágrimas escorrerem livremente. Quando a última nota acabou, Léo pulou do palco — literalmente pulou — e correu para os braços dela.
O abraço que se seguiu não foi como o abraço da foto com Chico. Era diferente. Era fogo e água, suavidade e força, música e silêncio. Léo enterrou o rosto no pescoço de Nair, respirando seu cheiro, e ela segurou ele forte, como só ela sabia segurar — com aquela força de quem vive levantando peso, mas com a ternura de quem ama profundamente.
— Eu te amo — Léo sussurrou, a voz embargada. — Me desculpa o ciúme. Me desculpa ter duvidado.
— Eu também te amo — Nair respondeu, afastando o rosto para olhar nos olhos dele. — E eu também tenho ciúme das suas fãs, seu idiota. A gente é dois bestas apaixonados, né?
Léo riu, aquele riso meigo que ela tanto sentira falta, e beijou ela ali mesmo, nos bastidores do bar, enquanto a plateia aplaudia sem saber exatamente o que acontecia, mas sentindo que ali havia amor verdadeiro.
— Vamos pra casa? — Léo perguntou, a mão entrelaçada na dela, os dedos longos e de músico contrastando com os dedos fortes e calejados de skatista de Nair.
— Vamos — ela concordou. — Mas primeiro... — ela puxou o skate que estava encostado na parede — ...me dá um abraço de verdade. Um desses que só você sabe dar. O de namorado. O de amor.
Léo a puxou para si, e desta vez o abraço foi longo, profundo, cheio de promessas silenciosas. Quando se separaram, ele pegou o violão e tocou uma última nota, só para ela.
— Curitiba ficou mais bonita quando você chegou, Nair Monteiro — ele disse. — E meu coração ficou completo quando você disse sim.
Nair sorriu, aquele sorriso largo e energético de quem é jovem, forte e profundamente apaixonada. Pegou Léo pela mão e os dois saíram para a noite fria de Curitiba, skate debaixo do braço dela, violão nas costas dele, e entre eles, um amor que nem a distância, nem o ciúme, nem as fotos mal interpretadas, conseguiriam abalar.
Porque alguns amores, como bons skates e boas canções, são feitos para durar. Com energia, com paixão, com força — e com a suavidade de quem sabe que encontrou em outra pessoa o lugar exato onde pertence.