Найти в Дзене
Historinhas (Tentando Compor)

O Nome Que Virou Confusão

Meu nome é Francisco Anísio Brandão. Sério. Parece nome de tabelião aposentado ou de um político que ninguém nunca ouviu falar. Todo mundo me chama de Chico, o que já é um pouco melhor, mas ainda assim não me representa. Eu, Chico, tenho dezesseis anos, paranaense; sou o pior aluno da turma (orgulho relativo, mas é um fato), o melhor jogador de futebol do time da escola (aí sim, orgulho total), e meu pé direito praticamente nasceu em cima de um skate. Agora, o que me representa de verdade? Perpetum Mobile. Perfeito, né? Significa "movimento perpétuo" em latim. É o que eu sou! Sempre em movimento, seja correndo atrás da bola, deslizando no concreto ou fugindo da bronca da minha mãe por causa das minhas notas. É poético, é dinâmico, é eu. O problema foi anunciar isso em casa. Estávamos no jantar. Mamãe, Olívia Brandão, engenheira, mulher que constrói pontes e a minha ruína com a mesma precisão matemática. Papai, Marcos, vendedor, o cara que consegue convencer alguém a comprar um freeze

Meu nome é Francisco Anísio Brandão. Sério. Parece nome de tabelião aposentado ou de um político que ninguém nunca ouviu falar. Todo mundo me chama de Chico, o que já é um pouco melhor, mas ainda assim não me representa.

Eu, Chico, tenho dezesseis anos, paranaense; sou o pior aluno da turma (orgulho relativo, mas é um fato), o melhor jogador de futebol do time da escola (aí sim, orgulho total), e meu pé direito praticamente nasceu em cima de um skate.

Agora, o que me representa de verdade? Perpetum Mobile. Perfeito, né? Significa "movimento perpétuo" em latim. É o que eu sou! Sempre em movimento, seja correndo atrás da bola, deslizando no concreto ou fugindo da bronca da minha mãe por causa das minhas notas. É poético, é dinâmico, é eu.

O problema foi anunciar isso em casa.

Estávamos no jantar. Mamãe, Olívia Brandão, engenheira, mulher que constrói pontes e a minha ruína com a mesma precisão matemática. Papai, Marcos, vendedor, o cara que consegue convencer alguém a comprar um freezer no Polo Norte, mas não consegue convencer a mamãe de que "um 4,5 em Física é quase um 5, que é quase um 6, que é quase uma aprovação".

– Passa o arroz, Francisco – disse mamãe, com aquele tom que faz o arroz tremer no prato.

Aproveitei a deixa.

– Na verdade, mãe, a partir de hoje, prefiro ser chamado de Perpetum Mobile.

O garfo do meu pai parou no ar. Minha mãe piscou lentamente, como um robô processando um comando absurdo.

– Perpétuo o quê? – ela perguntou, a voz mais fina que um fio de cabelo.

– Mobile. Perpetum Mobile. É latim. Significa que estou em constante movimento, como um princípio da física. Combina comigo.

Meu pai tentou salvar a situação, com aquele sorriso de vendedor.

– Olha, Olívia, até que tem um charme… Moderno. Diferente.

– Diferente? – minha mãe replicou, erguendo uma sobrancelha. – Marcos, o boletim do seu "Perpetum Mobile" chegou hoje. Em Movimento Perpétuo, sim: movimento perpétuo *para baixo* das médias. Em Física, especificamente, ele está mais para "Repouso Absoluto" ou "Inércia Total".

– Mas mãe! – protestei. – Na quadra, eu sou o Perpetum Mobile! O Davi até concorda!

Falei do Davi Fernandes, meu melhor amigo, o cara que divide comigo as cadeiras na sala de aula e os passes em campo. Ele é bom aluno, mas tem um lado brincalhão que só eu conheço.

No dia seguinte, na escola, fiz o anúncio oficial.

– Atenção, turma! – gritei, subindo na cadeira (movimento perpétuo, lembra?). – De hoje em diante, podem me chamar de Perpetum Mobile!

A professora de Português, dona Célia, quase derrubou os óculos.

– Francisco, desça daí. E "Perpetum Mobile" não se flexiona? É "o Perpetum Mobile"? Soa como uma marca de ventilador.

A sala toda riu. O Davi, é claro, foi o primeiro a aderir, mas de um jeito totalmente errado.

– Beleza, Perpétuo! E aí, Móbile, vem cá! – ele gritava no corredor. – Cadê o Móbile? O Perpétuo Móbile tá on!

Virou uma zona. Metade me chamava de "Perpétuo", a outra metade de "Móbile". Alguns espertinhos da sala do fundo começaram a cantarolar "Perpétuo Móbile, Perpétuo Móbile" com a melodia daquela música de propaganda de inseticida.

O auge da confusão foi no treino de futebol. O técnico gritava:

– Chico, sobe! Chico, cai na direita!

E eu, parando a jogada:

– Técnico, é Perpetum Mobile!

O time inteiro parou. O goleiro, o Zé, gritou de longe:

– Como é que eu chamo uma falta? "Falta no Perpétuo"? Parece horóscopo!

Na hora do lance mais importante do jogo, um contra-ataque, o Davi, para ser engraçado, gritou:

– MÓBILE, TÁ LIVRE!

O cara do time adversário ficou tão confuso que parou pra olhar pra quem o Davi estava chamando. Eu aproveitei, driblei e fiz o gol. O técnico, coçando a cabeça, disse:

– Se funciona… na próxima, grita "Móbile" de novo.

A situação em casa não melhorou. Minha mãe, para provar um ponto, começou a usar o nome com um sarcasmo digno de um Oscar.

– Perpetum Mobile, seu movimento perpétuo de bagunça deixou meias no sofá.

– Perpetum Mobile, esse prato não vai se lavar sozinho em movimento algum.

Meu pai tentava usar, mas sempre esquecia.

– Filho… quer dizer, Chico… ops, Per… Pet… a coisa… vem ajudar aqui.

Até que, no sábado, veio a prova final. A vovó veio jantar com a gente. Coitada, ninguém a avisou.

– Chico, meu neto lindo! – ela disse, me apertando.

– Vovó, agora é Perpetum Mobile – falei, cheio de esperança.

Ela olhou pra mim, depois pra minha mãe, com a confusão mais genuína do mundo.

– Perpétuo Móvel? Meu neto virou um móvel? Um sofá perpétuo?

Foi a gota d'água. Até minha mãe, a rainha da rigidez, soltou uma risada. Meu pai se engasgou com a água. Eu, Perpetum Mobile, fiquei paralisado (uma contradição ambulante).

No fim das contas, fizemos um acordo. Em casa e na escola, continuo sendo Chico. Mas no futebol e no skate, a turma pode me chamar do que quiser. O Davi, claro, inventou um novo: "Perpétuo Gol" ou "Móbile do Skate".

E eu percebi uma coisa. Talvez um nome não precise ser perfeito. Talvez, enquanto eu estiver em movimento – correndo atrás de uma bola, deslizando numa rampa ou fugindo das broncas da mãe –, o nome é o que menos importa. Desde que me chamem para jogar, tá valendo.

Mas, entre nós… Perpetum Mobile é muito mais legal que Francisco, né? Só não conta pra minha vó. Ela ainda acha que eu virei um sofá.