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Historinhas (Tentando Compor)

"O Bicho"

Tudo começou quando a professora de Português, a Dona Célia, teve a brilhante ideia de que cada aluno teria que interpretar um poema na festa da escola. Eu, Francisco Anísio Brandão, mas todo mundo me chama de Chico, achei que era piada. Interpretar poema? Eu, que mal consigo interpretar o que a minha mãe quer dizer quando ela faz aquele silêncio carregado depois de ver meu boletim? Meu melhor amigo, Davi Fernandes, que é um bom aluno mas adora uma bagunça tanto quanto eu, deu um sorriso de orelha a orelha quando nos demos conta que seríamos dupla. "É a nossa chance de sermos estrelas, Chico!", ele falou, enquanto a gente chutava uma lata no pátio depois da aula. "Estrelas do vexame, você quer dizer", eu retruquei, imaginando a cena: eu, de pé no palco, com todo mundo olhando. Em casa, a coisa não estava melhor. Minha mãe, Olívia, a engenheira, quando soube, ficou com aquele olhar de "projeto com prazo apertado". "Francisco, isso é uma oportunidade para você levar algo a sério na escol

Tudo começou quando a professora de Português, a Dona Célia, teve a brilhante ideia de que cada aluno teria que interpretar um poema na festa da escola. Eu, Francisco Anísio Brandão, mas todo mundo me chama de Chico, achei que era piada. Interpretar poema? Eu, que mal consigo interpretar o que a minha mãe quer dizer quando ela faz aquele silêncio carregado depois de ver meu boletim?

Meu melhor amigo, Davi Fernandes, que é um bom aluno mas adora uma bagunça tanto quanto eu, deu um sorriso de orelha a orelha quando nos demos conta que seríamos dupla. "É a nossa chance de sermos estrelas, Chico!", ele falou, enquanto a gente chutava uma lata no pátio depois da aula. "Estrelas do vexame, você quer dizer", eu retruquei, imaginando a cena: eu, de pé no palco, com todo mundo olhando.

Em casa, a coisa não estava melhor. Minha mãe, Olívia, a engenheira, quando soube, ficou com aquele olhar de "projeto com prazo apertado". "Francisco, isso é uma oportunidade para você levar algo a sério na escola. Sem falhas. Quero ver ensaios." Meu pai, Marcos, o vendedor, tentou ajudar: "Filho, você é bom sob pressão, no futebol é sempre você que faz o gol decisivo. É só pensar nisso como um... gol de placa literário." Ele deu uma risada meio sem graça, mas eu vi a preocupação nos olhos dele. Ele sempre tenta me defender da fúria da mãe, mas as notas ruins são um território minado onde nem ele sabe por onde andar.

O poema era "O Bicho", do Manuel Bandeira. A gente decidiu que seria "diferente". Davi teve a ideia genial de a gente fazer uma encenação moderna, com skate e tudo. "Chico, você é o bicho! Um skatista faminto pela vitória na pista! É metafórico!", ele explicou, animadíssimo. Eu, que amo meu skate mais do que amo estudar verbo, achei a ideia incrível. Ensaiamos escondido no campinho de terra perto da minha casa. Eu fazia manobras (ou tentava) enquanto Davi recitava. Parecia perfeito.

O dia chegou. A festa da escola estava lotada. Pais, professores, alunos. Vi minha mãe na primeira fila, postura reta, caderninho no colo para anotar cada detalhe. Meu pai ao lado, dando um sorriso encorajador e um polegar pra cima. Meu coração batia mais forte do que antes de uma final de campeonato.

Subimos no palco. Davi começou a recitar, com uma voz dramática que nem sabia que ele tinha: "Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio...". Era minha vez. Eu peguei impulso com meu skate no palco, tentando um ollie simples para simbolizar o "bicho" se contorcendo. O plano era pousar suave e continuar.

Só que eu não calculei o tapete vermelho do palco. A roda dianteira pegou de lado, o skate voou pra um lado e eu voei pro outro, direto em cima do pé do microfone. O som de um estrondo ensurdecedor – *PÁÁÁÁCRUUUUM* – ecoou pelo ginásio, seguido por um agudo feedback que fez todo mundo tampar os ouvidos. Eu caí de bunda no chão, o microfone caiu com um baque seco e o skate deslizou até a beira do palco, quase acertando o diretor.

Silêncio mortal. Absoluto.

Davi, o desgraçado, tentou salvar. Continuou recitando, com a voz trêmula, para o microfone caído: "...catando comida entre os detritos." Mas a imagem era eu, de pernas para o ar, tentando me levantar, com o som do feedback ainda uivando.

Alguns colegas começaram a rir. Um riso contido que logo virou uma gargalhada geral. Eu olhei para a primeira fila. Minha mãe tinha o rosto mais branco do que giz de lousa, depois ficou vermelha de... não sei se era raiva ou vergonha. Ela fechou o caderninho com um estalo. Meu pai escondeu o rosto com a mão, mas pelos ombros tremendo, dava pra ver que ele também estava rindo, mesmo tentando não rir.

Foi o pior, o mais épico e o mais rápido fracasso da história da Escola São José. A professora Célia nem sabia o que dizer. Só suspirou profundamente e anotou algo no clipboard dela. Provavelmente "zero".

Depois, no corredor, Davi não parava de rir. "Cara, foi histórico! O 'bicho' literalmente DESTRUIU o pátio!" Eu dava risada também, mas por dentro estava um calafrio só de pensar em chegar em casa.

E cheguei. Minha mãe não gritou. Ela faz coisa pior: o Discurso Silencioso. Ela me olhou, respirou fundo, e disse apenas: "Seu skate está suspenso até as suas notas em Português refletirem, no mínimo, a capacidade de você ficar em pé em um palco. E você vai refazer a apresentação. Sozinho. Para mim e para o seu pai. Amanhã."

Meu pai, mais tarde, veio no meu quarto. "A tentativa foi... criativa, filho. Corajosa. Mas talvez, da próxima, a gente deixe o skate do lado de fora da interpretação poética, que tal?" Ele deu uma tapinha no meu ombro. "E estuda um pouco, pelo amor de Deus, senão sua mãe vai me suspender também."

Agora estou aqui, com o poema do Manuel Bandeira na minha frente e o skate proibido no cantinho do quarto. O pior aluno da turma, o melhor atacante do time, e agora, o pior intérprete de poesia da história. Mas pelo menos, dá pra rir da desgraça. E o Davi já está planejando nosso próximo número para o festival de ciências. Ele quer que a gente demonstre a força centrífuga com um pião humano. Alguém me esconde.