No fundo do Mar Mediterrâneo, a cerca de 120 metros de profundidade, mais de 1.300 círculos gigantes desenhados na areia surpreenderam cientistas e mergulhadores. A precisão geométrica das estruturas e o tamanho da área coberta tornaram essa uma das descobertas mais incomuns da oceanografia recente.
Como os círculos gigantes do Mediterrâneo foram descobertos?
A história começa em setembro de 2011, quando a bióloga marinha Christine Pergent-Martini, da Università di Corsica Pasquale Paoli, observava as imagens do sonar de um navio de pesquisa na costa da Córsega. No monitor, surgiram dezenas de círculos perfeitos, cada um com cerca de 20 metros de diâmetro e uma mancha escura no centro, espalhados pelo leito marinho a grandes profundidades.
A missão era rotineira, um mapeamento de cartografia submarina. O que apareceu na tela não tinha explicação imediata. As formas eram simétricas demais para serem acidentais, e numerosas demais para serem ignoradas. A equipe estimou mais de 1.300 anéis distribuídos por uma área de aproximadamente 250 mil metros quadrados, equivalente a dezenas de campos de futebol.
Quem foi o mergulhador que desceu até os anéis para investigar de perto?
Em 2020, o biólogo marinho e fotógrafo Laurent Ballesta, conhecido por expedições submarinas extremas documentadas pela National Geographic, passou a colaborar com a pesquisa. Utilizando submersíveis, equipamentos de sonar de alta resolução e câmeras especiais, ele e sua equipe desceram até os anéis para confirmar o que as imagens mostravam à distância.
Ao se aproximar de um dos círculos, Ballesta fez uma observação que mudou o rumo das investigações: no centro de cada anel havia estruturas formadas por algas calcárias vermelhas, cercadas por rodolitos, pequenas algas coralinas. “Está vivo”, disse ele ao mergulhar até as formações. O que parecia uma marca geométrica no sedimento era, na verdade, um ecossistema ativo.
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Qual é a explicação científica aceita para a origem dessas formações?
A hipótese mais consistente, sustentada por análise de datação por carbono, indica que os anéis começaram a se formar há aproximadamente 21 mil anos, período que coincide com o último máximo glacial da Terra. Naquela época, o nível do mar era mais baixo, e o fundo onde hoje estão os círculos recebia luz solar suficiente para o crescimento de colônias de algas coralinas no leito marinho.
À medida que o planeta aquecia e o nível do mar subia, essas colônias foram submergindo progressivamente. O crescimento radial das algas, combinado com a ação das correntes oceânicas, teria organizado as estruturas nos padrões circulares simétricos que os mergulhadores encontraram. Esse processo natural gerou o que os pesquisadores passaram a chamar de “círculos de fada marinhos”, em referência a formações geométricas similares encontradas em desertos africanos e australianos.
Por que a descoberta importa além do mistério visual?
Os círculos não são apenas curiosos, eles são funcionais. As estruturas criadas pelas algas calcárias funcionam como habitat para diversas espécies marinhas, incluindo corais amarelos, peixes e crustáceos raramente observados no Mediterrâneo. A biodiversidade registrada dentro e ao redor dos anéis surpreendeu os pesquisadores pela densidade e pela variedade.
Além disso, por terem se formado há milênios e preservado registros de como o oceano evoluiu desde então, essas estruturas funcionam como um arquivo natural das mudanças climáticas. Estudá-las pode ampliar significativamente o conhecimento sobre a dinâmica do fundo marinho em diferentes períodos geológicos.
Os círculos estão em risco de desaparecer?
Sim, e esse é um dos pontos que mais preocupa os pesquisadores. Apenas uma parte das formações está dentro de uma área protegida, o Parque Natural Marinho de Cap Corse e Agriate. O restante permanece vulnerável ao tráfego de embarcações comerciais, cujas âncoras podem destruir em segundos estruturas que levaram milênios para se formar.
O conselho de administração do parque marinho trabalha em uma proposta para restringir a ancoragem comercial na região. Enquanto isso, a equipe de Ballesta segue com novas expedições para mapear e documentar as áreas ainda não protegidas. A descoberta mobilizou não só a ciência, mas também o debate sobre o quanto o fundo do mar, ainda pouco explorado, esconde de patrimônio natural que a humanidade ainda não sabe que existe.
O que são os rodolitos que formam os círculos
Os rodolitos são algas coralinas de vida livre, sem raízes fixas no substrato. Eles crescem lentamente em formas arredondadas e se acumulam no fundo marinho, criando estruturas tridimensionais que abrigam grande diversidade de organismos. O crescimento radial e simétrico dessas algas é o que explica, em grande parte, a geometria quase perfeita dos anéis encontrados na Córsega.