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Nair Monteiro. A Fortona

A Fuga da Fortona. Um Ano Atrás.

— Muleque! — gritou um deles, enquanto Nair aterrissava perfeitamente, o rabo de cavalo preto balançando como uma bandeira de rebeldia. Ela usava uma camiseta três números maior que o seu tamanho, herdada do pai, que também era grandão, calça jeans surrada e tênis de skate todo rabiscado. A aparência dizia "não quero conversa", mas os olhos diziam "quero ação". — Ô, Nair! — chamou Júnior, um garoto magricela que tentava imitar suas manobras. — Tua mãe tá te procurando, véi! Falei que tu tava aqui! Nair fez uma careta. — Sai fora, Júnior! Eu tô no flow! Ela deu um impulso no skate e subiu no corrimão mais alto do parque, deslizando com a precisão de uma gata... se gatas tivessem 75 quilos de músculo e atitude de cearense arretado. Três horas antes, na Escola Estadual Padre Antônio Vieira, a professora Dona Raimunda segurava a prova de Português como quem segura uma sentença de morte. — ZERO, Nair Monteiro! — a professora bateu na carteira. — Você escreveu "corrijir" com J, "excessão"
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O sol escaldante de Fortaleza batia forte na calçada da Avenida Beira Mar quando Nair Monteiro, 16 anos, 1,75 m de pura musculatura adolescente, decolou de sua rampa de skate com uma backflip que fez os meninos do parque suspirarem coletivamente.

Muleque! — gritou um deles, enquanto Nair aterrissava perfeitamente, o rabo de cavalo preto balançando como uma bandeira de rebeldia.

Ela usava uma camiseta três números maior que o seu tamanho, herdada do pai, que também era grandão, calça jeans surrada e tênis de skate todo rabiscado. A aparência dizia "não quero conversa", mas os olhos diziam "quero ação".

— Ô, Nair! — chamou Júnior, um garoto magricela que tentava imitar suas manobras. — Tua mãe tá te procurando, véi! Falei que tu tava aqui!

Nair fez uma careta.

Sai fora, Júnior! Eu tô no flow!

Ela deu um impulso no skate e subiu no corrimão mais alto do parque, deslizando com a precisão de uma gata... se gatas tivessem 75 quilos de músculo e atitude de cearense arretado.

O Incidente da Prova

Três horas antes, na Escola Estadual Padre Antônio Vieira, a professora Dona Raimunda segurava a prova de Português como quem segura uma sentença de morte.

ZERO, Nair Monteiro! — a professora bateu na carteira. — Você escreveu "corrijir" com J, "excessão" com SS e "mais" no lugar de "mas"! Isso é um massacre da língua portuguesa!

Nair encolheu os ombros largos.

— Professora, eu sou mais de body do que de board de redação, tá ligada?

A sala caiu na gargalhada. Dona Raimunda não achou graça.

— Sua mãe vai saber disso!

E soube.

A Bronca

Ana Monteiro, veterinária de mãos firmes e olhar ainda mais firme, segurava a prova manchada de vermelho como se fosse um diagnóstico de raiva canina.

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Nair, pelo amor de Deus! — Ana era alta, com braços de quem segurava cachorros grandes e gatos bravos. — Tu não pode ficar só malhando e andando de skate! Tu precisa estudar!

Nair cruzou os braços musculosos.

— Mãe, eu vou ser atleta. Atleta não precisa saber onde põe o H no "excessão"!

— É exceção! — gritou o pai Daniel, aparecendo no corredor com seu jaleco de cardiologista. — E sim, precisa! Atleta precisa de cabeça! O coração bom não adianta se o cérebro tá... tá...

— Tá em fibrilação? — sugeriu Nair, fazendo trocadilho com a especialidade do pai.

— Não brinca com isso! — Daniel quase engasgou. — Olha aqui, filha, nós investimos na tua educação...

— E eu investi na minha bunda de 100kg no leg press! — Nair rebateu, já pegando o skate encostado na parede. — Tô indo pra academia!

— Nair! Não sai! A gente precisa conversar!

Mas Nair já tinha descido as escadas com passos pesados de elefante... elefante que fazia ollie.

A Fuga

Nair atravessou o bairro de Aldeota em velocidade, cortando entre carros, desviando de ambulantes, saltando sobre obstáculos. Ela era um furacão de 16 anos com shape de skate nas mãos.

Na Academia Fortaleza Fitness, ela destruiu o treino de pernas.

Ô, mona, tu vai quebrar o aparelho! — gritou o instrutor Beto, enquanto Nair empilhava 150 kg no leg press.

Tá suave, Beto! Eu sou forte que nem as dunas de Canoa Quebrada!

Ela fez agachamento, stiff, avanço, extensão de quadril. Suava, gemia, levantava peso como quem levanta a autoestima. O som do trap cearense no fone a fazia entrar em transe.

Depois de duas horas destruindo músculos, ela foi pro Skate Park do Cocó.

Lá, Nair voava.

Ela deu kickflip, heelflip, tentou um 360 flip e quase acertou (caiu de bunda, mas levantou rindo). O vento da cidade entrava nos pulmões. A adrenalina era melhor que nota boa.

É nóis, rapaziada! — ela gritou, fazendo um grind de 20 metros no corrimão central.

O sol já se punha quando ela finalmente voltou pra casa, cansada, suada, feliz.

O Sonho

Nair caiu na cama sem jantar, sem tomar banho, sem olhar pro celular. O sono a pegou como um sleeper hold de luta livre.

E então, ela sonhou.

O cenário era uma versão distorcida da sala de estar. Tudo era maior. Mais alto. Mais forte.

E lá estava ela: Ana, a Mãe Suprema.

-3

A mãe do sonho tinha 2 metros de altura. Braços como troncos de carnaúba. Pernas que faziam o chão tremer a cada passo. Ela usava um jaleco de veterinária que parecia armadura de guerreira.

— NAIR MONTEIRO! — a voz ecoou como trovão na temporada de chuvas.

Nair, no sonho, estava pequena. Frágil. Usando uma camiseta apertada (horror!).

— M-mãe?

— TU TIROU ZERO EM PORTUGUÊS! — a mãe gigante batia na palma da mão com uma régua de metal. — E AINDA FUGIU DE CASA!

— Mãe, eu posso explicar...

— SILÊNCIO! — a mãe gigante apontou um dedo do tamanho de uma vara de pescar. — TU VAI APRENDER A SER RESPONSÁVEL!

Ela começou a enumerar no dedo:

— PRIMEIRO: SEM SKATE! — o skate de Nair desapareceu em poof de fumaça.

— NÃÃÃÃÃO!

— SEGUNDO: SEM ACADEMIA!

— MEUS GANHOS!

— TERCEIRO: SEM INTERNET! — o celular virou uma batata.

MEME! EU PRECISO DOS MEMES!

A mãe gigante cruzou os braços imensos.

— UM ANO INTEIRO! — ela declarou. — E TU VAI ESTUDAR PORTUGUÊS COM A DONA RAIMUNDA! TODOS OS DIAS! TRÊS HORAS!

Nair caiu de joelhos.

— Mãe, pelo amor de Deus... eu juro que eu vou estudar... eu vou escrever certo... "exceção" com S...

— COM Ç! — a mãe rugiu. — AGORA VAI PRA SEU QUARTO E ESCREVE "EU AMO A LÍNGUA PORTUGUESA" MIL VEZES!

Nair tentou correr, mas as pernas não respondiam. A mãe gigante a pegou pelo pescoço da camiseta (aquela camiseta apertada, o horror absoluto!).

— TU NÃO ESCAPA DA GRAMÁTICA, FILHA!

O Despertar

Nair acordou aos gritos.

— AAAAAAAAAH!

Ela estava sentada na cama, suando frio, ofegante. O coração batia como se ela tivesse acabado de descer a rampa do X Games.

Olhou pro lado. O skate estava lá. Intacto.

Olhou pro celular. A tela acesa, cheia de notificações.

Suspirou aliviada.

Cê tá doido, que pesadelo...

Mas então ela olhou pra porta. A mãe, a mãe real, entrou no quarto. Ainda alta, ainda forte, mas no tamanho normal.

— Acordou, Nair? — Ana falou, com uma voz... calma.

— M-mãe?

— Eu conversei com teu pai. A gente decidiu.

Nair sentiu um frio na espinha.

— Decidiu... o quê?

Ana sorriu. Um sorriso que faria um pitbull sentar e rogar patinhas.

— Tu vai ter um acordo. Tu pode continuar com skate e academia... MAS...

Nair engoliu seco.

— Mas?

— Mas tu vai ter aula particular de português todo sábado de manhã. Com a Dona Raimunda. E tu vai escrever um texto por dia. E se tu tirar menos que sete na próxima prova...

A mãe fez uma pausa dramática.

— ...eu confisco o skate por um mês.

Nair respirou. Não era o ano inteiro do pesadelo. Mas ainda assim...

— Tá bom, mãe — ela resmungou. — Eu vou estudar.

Ana sorriu e foi embora.

Nair olhou pro teto. O pesadelo tinha sido um aviso. Um sinal do destino. Ou talvez só indigestão de whey protein.

Ela pegou o celular e abriu o seu perfil numa rede social. Postou uma foto do skate com a legenda:

"Hoje eu aprendi que 'exceção' tem S e Ç. E que pesadelo com mãe gigante é pior que cair de skate. Bora estudar que o shape depende disso. #Fortaleza #SkateLife #AgoraVouEscreverCerto"

Os likes começaram a chegar.

Nair sorriu. Ela ia cumprir o acordo. Mas primeiro...

Ela olhou pela janela. O sol nascia. O parque chamava.

— Só uma voltinha rápida — ela sussurrou. — Depois eu escrevo o texto.

E saiu correndo, skate debaixo do braço, pronta pra mais um dia de ação, energia e... eventualmente... português.