O sol da tarde de quinta-feira batia forte nas janelas da sala 213 do Colégio São José, enquanto a professora Célia escrevia na lousa: "Prova de Língua Portuguesa — próxima terça-feira". Um murmúrio de apreensão percorreu a sala, mas dois alunos, em particular, sentiram um frio na espinha.
Francisco Anísio Brandão — Chico para os amigos — encostou-se na cadeira com um suspiro dramático. Aos dezesseis anos, ele era conhecido por duas coisas: marcar gols impossíveis no time da escola e ser, sem contestação, o pior aluno da turma do segundo ano. Não que ele não tentasse — pelo menos às vezes. Mas entre os treinos de skate no Parque Barigui e as partidas de futebol, sobrava pouco tempo — e menos paciência — para crase e regência verbal.
Ao lado dele, Nair Monteiro cruzou os braços musculosos e bufou. A garota de dezessete anos havia se mudado do Ceará para Curitiba há apenas dois meses, trazendo consigo não só o sotaque nordestino que ainda marcava suas palavras, mas também uma energia avassaladora. Alta, forte e com uma determinação de ferro, Nair havia conquistado o bairro em tempo recorde: não apenas era a nova skatista a ser batida no Parque Barigui — deixando Chico comendo poeira em várias manobras — como agora também era colega de turma do antigo campeão.
— Ó, professora — Chico levantou a mão com um sorriso torto —, essa prova não podia ser... digamos... opcional?
A classe riu. A professora Célia suspirou, já acostumada com as tentativas de negociação do atacante.
— Francisco, você diz isso toda semana.
— Mas dessa vez é sério! — Chico apontou para Nair — A Nair também tá sofrendo, né, Nair?
Nair ergueu uma sobrancelha. Ela não gostava de admitir fraquezas, mas a verdade era que o português formal brasileiro tinha suas particularidades bem diferentes do que ela aprendeu no Ceará, e a adaptação estava sendo... interessante.
— Eu... tô me virando — ela respondeu, nem muito convincente.
— "Me virando"? — Davi Fernandes, que ocupava a carteira atrás de Chico, inclinou-se para frente com um sorriso malicioso. O melhor amigo de Chico desde a infância era o contraste perfeito do atacante: aluno exemplar, notas azuis em todas as matérias, e ainda assim um dos principais jogadores do time ao lado do amigo. — Vocês dois são um desastre, admitam.
— Ei! — Chico e Nair protestaram ao mesmo tempo, depois se olharam surpresos com a sincronia.
Davi cruzou os braços com ar de desafio:
— Aposto que eu consigo tirar uma nota melhor que a de vocês dois juntos. Na verdade, aposto que consigo tirar uma nota melhor que a média das notas de vocês dois.
— Isso é injusto! — Chico reclamou. — Você é o sábio da turma!
— E vocês são... — Davi fez uma pausa teatral — ...uma dupla dinâmica de desastres linguísticos. Aceitam o desafio?
Nair cruzou os braços, um brilho competitivo nos olhos — o mesmo que aparecia quando ela encarava uma rampa de skate pela primeira vez.
— Aceito — ela declarou. — E se eu ganhar, você vai ter que andar de skate vestido de unicórnio no sábado no parque.
— E se eu ganhar — Davi retrucou —, vocês dois vão ter que fazer uma apresentação na frente da escola explicando a diferença entre "mas" e "mais". E vão ter que acertar.
Chico e Nair trocaram um olhar. Havia algo ali — uma conexão instantânea de dois competidores que não gostavam de perder, mesmo quando as chances eram mínimas.
— Fechado — Chico estendeu a mão, e Nair a cobriu com a dela.
— Fechado — ela confirmou.
***
Os três dias seguintes foram um espetáculo de comédia involuntária.
Na segunda-feira, Davi encontrou Chico e Nair na biblioteca da escola — um lugar onde raramente os via — tentando decifrar um livro de gramática. Nair estava com o rosto franzido, lendo em voz alta:
— "A crase ocorre quando a preposição 'a' se une ao artigo feminino 'a'..." — ela parou, confusa. — Mas como eu sei se é preposição ou artigo?
— Eu sempre achei que "crase" era o nome de uma doença — Chico admitiu, virando uma página do livro como se fosse escrito em código.
Davi sentou-se ao lado deles, tentando não rir:
— Gente, vocês estão sofrendo. Querem ajuda?
— Não! — ambos responderam em uníssono.
— Isso é guerra — Nair acrescentou, marcando a página com um lápis. — E eu não perco guerras.
— Você perdeu pro Chico no futebol semana passada — Davi lembrou.
— Futebol é diferente! — Nair bufou. — Eu sou skatista, não jogadora de futebol. Mas português... português é território neutro.
Chico fez uma careta:
— Território inimigo, você quer dizer.
Na terça-feira de manhã, antes da prova, o trio se encontrou na cantina. Chico estava pálido, Nair batia o pé nervosamente na mesa, e Davi tentava parecer confiante — embora seus amigos notassem que ele também estava mais quieto que o normal.
— Eu tive pesadelo com vírgula — Chico confessou, mordendo um pão. — Uma vírgula gigante me perseguia pela rua gritando "pausa! pausa!"
Nair soltou uma risada — a primeira em horas:
— Eu sonhei que estava numa prova oral e esqueci como falar. Só conseguia fazer sons de skate — *flip*, *grind*, *ollie*.
Davi riu de verdade dessa vez:
— Vocês são ridículos. Sabiam disso?
— Somos — Chico concordou, sorrindo. — Mas somos ridículos juntos. Isso conta para alguma coisa?
Nair olhou para os dois — Davi, seu amigo que sempre acreditou nela mesmo quando ela falava errado; Chico, seu rival de skate que de alguma forma tinha se tornado... o quê? Um cúmplice? Um parceiro de desastre linguístico?
— Conta sim — ela disse, surpreendendo-se com a própria sinceridade. — Amizade é nota dez, né?
— Nota dez — Chico confirmou, erguendo seu suco de laranja em um brinde improvisado.
— Nota dez — Davi ecoou, tocando seu copo no deles.
***
A prova foi... memorável.
Chico passou vinte minutos tentando lembrar se "exceto" ou "excesso" era a palavra certa para "todos, menos ela". Nair descobriu que tinha usado "mas" e "mais" trocados em pelo menos três frases — e isso era só o que ela conseguia identificar. Davi, por sua vez, encontrou uma questão sobre regência verbal que o fez suar frio.
Quando a professora Célia devolveu as provas na quinta-feira, a sala estava em silêncio.
— Vou anunciar as notas de três alunos que, segundo ouvi, fizeram uma aposta interessante — ela disse, ajustando os óculos. — Francisco Brandão...
Chico fechou os olhos.
— ...quatro pontos. Melhor nota sua no semestre, Francisco. Parabéns.
Chico abriu os olhos, incrédulo. Quatro? Ele normalmente tirava dois!
— Nair Monteiro...
Nair segurou a respiração.
— ...quatro e meio. Também sua melhor nota.
Nair soltou o ar em um grito abafado. Ela venceu Chico! Por meio ponto!
— E Davi Fernandes...
Davi estava tenso. Ele precisava de mais de quatro e meio para vencer a aposta — a média entre quatro e quatro e meio era quatro e um quarto, então qualquer coisa acima disso...
— ...seis pontos.
A classe aplaudiu. Davi sorriu aliviado — até que fez as contas na cabeça. Seis era melhor que quatro e meio, sim, mas... ele tinha apostado que tiraria uma nota melhor que a média deles dois. A média de quatro e quatro e meio era quatro e vinte e cinco. Seis era maior que quatro e vinte e cinco.
— Espere — Chico levantou a mão, confuso. — Ele ganhou?
— Ele ganhou — Nair confirmou, rindo. — Mas foi por pouco!
Davi caiu na risada:
— Vocês são realmente... realmente especiais. Eu tirei seis, vocês dois tiraram quatro e quatro e meio, e vocês estão agindo como se eu tivesse ganhado por milésimos de segundo numa corrida!
— Pra gente, ganhou — Chico disse, sorrindo. — Mas a gente melhorou, né? Quatro e quatro e meio! Somos quase... medianos!
A professora observava a cena com um sorriso discreto. Ela tinha visto muitos alunos ao longo dos anos, mas poucos com a química daqueles três — a rivalidade saudável entre Chico e Nair, a lealdade inabalável de Davi, e algo mais que estava começando a florescer: uma amizade improvável, construída em rampas de skate, campos de futebol, e agora, em meio a crases e vírgulas.
***
No sábado seguinte, o Parque Barigui estava cheio de skatistas. No centro da pista principal, uma figura chamava atenção: Davi Fernandes, o bom aluno, o aplicado, o que não arriscava muito — vestido com uma fantasia de unicórnio branco, completa com chifre dourado na cabeça.
Chico e Nair, sentados lado a lado em um banco próximo, não conseguiam parar de rir.
— Eu ainda acho que você devia ter cumprido a aposta — Nair disse, enquanto Davi passava desastradamente por uma rampa, tropeçando na cauda da fantasia. — A apresentação sobre "mas" e "mais" seria épica.
— Não, não — Chico balançou a cabeça, ainda rindo. — Isso aqui é muito melhor. Olha a cara dele!
Davi caiu pela terceira vez, levantou-se com dificuldade — a fantasia não era exatamente feita para skate — e foi até eles, tirando a máscara de unicórnio para respirar.
— Vocês — ele apontou para os dois, ofegante — são os piores amigos que alguém poderia ter.
— Mas os melhores que você tem — Nair completou, ainda sorrindo.
— Mas os melhores — Chico concordou.
Davi olhou para eles — Chico com seu sorriso descontraído de sempre, Nair com aquele brilho competitivo nos olhos que ele já conhecia bem — e não conseguiu segurar o próprio sorriso.
— São — ele admitiu. — São mesmo.
Nair estendeu a mão, e os três fizeram aquele aperto de mão que tinham inventado — uma combinação de aperto de skatistas, toque de jogadores de futebol, e algo que era só deles.
— Próximo desafio — Nair disse, olhando para Chico —, eu quero uma revanche no futebol. E daí a gente vê quem é o pior em matemática.
— E daí eu ganho de vocês dois — Davi acrescentou, já tirando a fantasia de unicórnio.
— Sonha — Chico e Nair disseram juntos.
E enquanto o sol se punha sobre Curitiba, três amigos — um paranaense que nunca desistia, uma cearense que conquistava tudo o que encarava, e um bom aluno que sabia não levar a vida a sério — caminhavam juntos em direção às rampas, prontos para novos desafios, novas risadas, e para provar que, mesmo sendo os dois piores em português, na amizade eles eram, sem dúvida, nota dez.