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Nair Monteiro. A Fortona

Chico contando. Imitando os Professores

A gente tem um hobby: imitar os professores. A nossa obra-prima é o professor de História, o Seu Waldir. O homem tem um bigode que parece duas minhocas em guerra e fala com uma pausa dramática depois de cada vírgula. O Davi pega o estojo, segura como se fosse um livro, e começa: “E então… Napoleão… (pausa para olhar o infinito)… percebeu que a Rússia… (outra pausa, esfregando o bigode imaginário)… era fria… demais para seus soldados… de calção.” Eu caio no chão de rir, quieto, claro, com a cara enterrada no braço. Ou a Dona Célia, de Português, que tem um tique de ajustar os óculos a cada três palavras. Aí eu entro em ação: “Classiquissimamente" (ajusto os óculos invisíveis), a oração subordinada (ajusto de novo) adverbial concessiva (mais um ajuste) nos presenteia com uma ideia de oposição (óculos quase caindo do nariz).” O Davi faz que vai espirrar para disfarçar o riso. É assim. Entre uma aula que não entra na minha cabeça e outra, a gente cria nosso próprio entretenimento. No camp

A gente tem um hobby: imitar os professores. A nossa obra-prima é o professor de História, o Seu Waldir. O homem tem um bigode que parece duas minhocas em guerra e fala com uma pausa dramática depois de cada vírgula. O Davi pega o estojo, segura como se fosse um livro, e começa: “E então… Napoleão… (pausa para olhar o infinito)… percebeu que a Rússia… (outra pausa, esfregando o bigode imaginário)… era fria… demais para seus soldados… de calção.” Eu caio no chão de rir, quieto, claro, com a cara enterrada no braço.

Ou a Dona Célia, de Português, que tem um tique de ajustar os óculos a cada três palavras. Aí eu entro em ação: “Classiquissimamente" (ajusto os óculos invisíveis), a oração subordinada (ajusto de novo) adverbial concessiva (mais um ajuste) nos presenteia com uma ideia de oposição (óculos quase caindo do nariz).” O Davi faz que vai espirrar para disfarçar o riso.

É assim. Entre uma aula que não entra na minha cabeça e outra, a gente cria nosso próprio entretenimento. No campo, é sério. Eu corro, driblo, chuto. É meu território. Na sala de aula, o território é do tédio, então a gente invade com comédia.

O problema é que a ponte entre o campo e a sala de aula é o boletim. E esse boletim é a barreira entre eu e meu skate novo, entre eu e a paz doméstica. Minha mãe já ameaçou me tirar do time. Do time! Foi como se ela tivesse dito que ia proibir o sol de nascer.

Então a grande missão do Chico (além de fazer gols e mandar um ollie decente) é sobreviver ao terceiro bimestre sem que a chefe da casa decrete lei marcial e corte meu suprimento de futebol. O Davi já até sugeriu que a gente tente imitar a maneira como a matéria é dada, para ver se fixa melhor. Achei a ideia idiota. Mas, considerando que minha próxima prova de Física é sobre força e movimento… quem sabe uma imitação do professor, falando sobre aceleração enquanto escorrego no corredor com meus tênis, não ajude?

É, a vida tá complicada. Mas pelo menos eu tenho minhas jogadas, minhas manobras e minhas imitações. E, no fim das contas, dar risada com o Davi ainda é melhor do que entender o que é uma oração subordinada adverbial concessiva. "Classiquissimamente".