Добавить в корзинуПозвонить
Найти в Дзене
Nair Monteiro. A Fortona

Chico contando. Compositor por Acidente

Tudo começou na tal Festa da Primavera da escola. A diretora, num surto de “integração cultural”, decidiu que cada turma faria uma apresentação. Nossa sala, do segundo ano, foi sorteada para… cantar. Sim, cantar. “Aquarela”, do Toquinho. A escolha mais aleatória do século. O Davi, sempre o espertinho, se voluntariou na hora. “Eu e o Chico fazemos!” Ele gritou, me puxando pelo braço. Eu quase engasguei com meu chiclete. “Cara, eu não sei cantar ‘Aquarela’, eu sei cantar ‘Parabéns’ e o hino do Coritiba!” Mas era tarde. A professora de Artes, com um sorriso de esperança, anotou nossos nomes. A gente teve uma semana pra ensaiar. Uma semana que eu passei treinando embaixadinhas e pulando corrimão, com a letra da música impressa e esquecida no fundo da mochila. Na véspera, o Davi me ligou desesperado. “Mano, você decorou?” “Mais ou menos. É aquela parte do ‘nuvem no céu, traço no chão’, né?” “Chico… isso é o primeiro verso. A música tem TRÊS minutos.” “Relaxa, eu improviso. Sou craque nisso.

Tudo começou na tal Festa da Primavera da escola. A diretora, num surto de “integração cultural”, decidiu que cada turma faria uma apresentação. Nossa sala, do segundo ano, foi sorteada para… cantar. Sim, cantar. “Aquarela”, do Toquinho. A escolha mais aleatória do século.

O Davi, sempre o espertinho, se voluntariou na hora. “Eu e o Chico fazemos!” Ele gritou, me puxando pelo braço. Eu quase engasguei com meu chiclete. “Cara, eu não sei cantar ‘Aquarela’, eu sei cantar ‘Parabéns’ e o hino do Coritiba!” Mas era tarde. A professora de Artes, com um sorriso de esperança, anotou nossos nomes.

A gente teve uma semana pra ensaiar. Uma semana que eu passei treinando embaixadinhas e pulando corrimão, com a letra da música impressa e esquecida no fundo da mochila. Na véspera, o Davi me ligou desesperado.

“Mano, você decorou?”

“Mais ou menos. É aquela parte do ‘nuvem no céu, traço no chão’, né?”

“Chico… isso é o primeiro verso. A música tem TRÊS minutos.”

“Relaxa, eu improviso. Sou craque nisso.”

No dia, a ansiedade era tanta que meu estômago parecia um skate fazendo manobras radicais. Meus pais estavam na plateia. Minha mãe, com cara de “isso vai dar errado”, e meu pai, com uma câmera no celular, pronto para registrar o desastre.

Subimos no palco. As luzes estavam tão fortes que eu mal via o público. A música começou, aquela introdução suave de piano. O Davi, ao meu lado, começou certinho, com uma voz até que decente:

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo…”

Tudo bem. Até aí, eu lembrava. Minha vez. Abri a boca:

“E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo…”

Perfeito! Eu estava indo bem! Meu pai fez um sinal de positivo. Minha mãe não piscava.

Aí veio a parte do “caminho de um rio”. O Davi cantou lindamente. Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim com os olhos arregalados. Era minha vez de novo. O problema é que a letra simplesmente… evaporou. Sumiu. Ficou um vazio total na minha cabeça. A única coisa que veio à mente foi a visão do meu skate novo, parado na loja porque minhas notas eram um lixo.

Não pensei duas vezes. Fiz o que sei fazer de melhor: improvisei.

Com a melodia mais doce do mundo, soltei:

“E o caminho de um rio, que é molhado e fundo…

Leva até a loja do seu Arlindo!

Onde tem um skate shape novo, que é meu sonho…

Mas a minha mãe disse: ‘Só se passar de ano, seu dono!

O Davi, ao meu lado, engasgou. A plateia ficou em silêncio por dois segundos que pareceram dois séculos. Da primeira fila, eu vi a cara da minha mãe. Congelou. Meu pai abaixou a câmera e cobriu o rosto com a mão, mas os ombros dele tremiam.

A música continuava. Eu estava no fluxo. O Davi, percebendo que não tinha volta, decidiu entrar na onda. Ele cantou o próximo verso original, e na minha hora, eu ataquei de novo, olhando diretamente para a diretora, que usava um vestido florido horrível:

“E numa folha qualquer, eu também pinto um unicórnio…

Mas fica parecendo a diretora com seu vestido todo enfeiado e sem tino!”

Foi o estopim. Um gargalhada coletiva veio da plateia, começando pelos alunos do fundão e se espalhando como um vírus. A professora de Artes estava com os olhos arregalados de pânico, mas nem tentou nos tirar do palco. A diretora ficou vermelha que nem um pimentão.

O Davi e eu terminamos a “música”. Na parte do “vai, Brasil”, que era o final, eu gritei: “VAI, CORITIBA!”. E a gente saiu do palco correndo, sob uma salva de palmas, assobios e risadas incontroláveis.

Nos bastidores, meu pai nos encontrou, ainda se segurando para não cair de rir.

“Filho… que foi aquilo?”

“Eu… esqueci a letra, pai.”

“Esqueceu a letra e compôs um rap acústico sobre seu boletim e a diretora?!” Ele não conseguia parar de rir.

Minha mãe chegou depois, com a seriedade de sempre, mas o canto da boca dela tremia.

“Francisco, isso foi de um desrespeito… criativo. Nunca mais.” Mas antes de se virar, ela sussurrou: “A parte do skate foi boa. Mas ainda é não.”

No fim, a gente não ganhou o concurso (óbvio). Ganhamos uma semana de detenção, escrevendo “Não devo improvisar letras em apresentações cívicas” duzentas vezes. Mas também ganhamos o título de lenda da escola. Até hoje, quando me veem no corredor, os alunos cantarolam: “*Leva até a loja do seu Arlindo…*”

E o Davi? Ele só diz que foi a melhor apresentação da vida dele. E ainda me cobra os direitos autorais da nossa “obra-prima”. Como se eu, o pior aluno da turma, soubesse o que é um direito autoral. Mas sei fazer um refrão que gruda. Isso, pelo menos, a escola não me tira.