Tudo começou na tal Festa da Primavera da escola. A diretora, num surto de “integração cultural”, decidiu que cada turma faria uma apresentação. Nossa sala, do segundo ano, foi sorteada para… cantar. Sim, cantar. “Aquarela”, do Toquinho. A escolha mais aleatória do século. O Davi, sempre o espertinho, se voluntariou na hora. “Eu e o Chico fazemos!” Ele gritou, me puxando pelo braço. Eu quase engasguei com meu chiclete. “Cara, eu não sei cantar ‘Aquarela’, eu sei cantar ‘Parabéns’ e o hino do Coritiba!” Mas era tarde. A professora de Artes, com um sorriso de esperança, anotou nossos nomes. A gente teve uma semana pra ensaiar. Uma semana que eu passei treinando embaixadinhas e pulando corrimão, com a letra da música impressa e esquecida no fundo da mochila. Na véspera, o Davi me ligou desesperado. “Mano, você decorou?” “Mais ou menos. É aquela parte do ‘nuvem no céu, traço no chão’, né?” “Chico… isso é o primeiro verso. A música tem TRÊS minutos.” “Relaxa, eu improviso. Sou craque nisso.