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Nair Monteiro. A Fortona

Chico contando. A Maior Burrada de Chico

Tudo começou com a minha maior burrada do ano. E olha que, como o pior aluno da turma, a concorrência é forte. As férias tinham acabado de estourar, o sol estava um absurdo de bom, e a única coisa que importava era que a Lu estava chegando hoje. Luciana. Mineira, meu porto seguro desde que a gente tinha seis anos e eu caí do muro tentando pegar a manga da árvore dela. Ela passa todas as férias na casa dos tios, que são vizinhos dos meus pais. É o nosso ritual. Noventa dias sem vê-la é uma eternidade. Só que eu também sou o melhor atacante do time sub-17 do clube, e o treino decisivo pra um torneio regional era… exatamente na mesma hora que o ônibus dela chegava. E eu, no meu brilhantismo típico, simplesmente esqueci de avisar. Não foi por mal. Juro. É que a minha cabeça às vezes parece um pátio vazio: uma bola entra, todas as outras informações saem. O dia chegou. Eu estava no campo, suando a camisa, quando meu celular, escondido dentro da meião, começou a vibrar que parecia um enxame

Tudo começou com a minha maior burrada do ano. E olha que, como o pior aluno da turma, a concorrência é forte.

As férias tinham acabado de estourar, o sol estava um absurdo de bom, e a única coisa que importava era que a Lu estava chegando hoje. Luciana. Mineira, meu porto seguro desde que a gente tinha seis anos e eu caí do muro tentando pegar a manga da árvore dela. Ela passa todas as férias na casa dos tios, que são vizinhos dos meus pais. É o nosso ritual. Noventa dias sem vê-la é uma eternidade.

Só que eu também sou o melhor atacante do time sub-17 do clube, e o treino decisivo pra um torneio regional era… exatamente na mesma hora que o ônibus dela chegava. E eu, no meu brilhantismo típico, simplesmente esqueci de avisar. Não foi por mal. Juro. É que a minha cabeça às vezes parece um pátio vazio: uma bola entra, todas as outras informações saem.

O dia chegou. Eu estava no campo, suando a camisa, quando meu celular, escondido dentro da meião, começou a vibrar que parecia um enxame de abelhas. Ignorei. Depois da quinta chamada, o técnico me olhou com a cara da morte. Só aí eu me toquei. Merda. A Lu.

Quando o treino acabou, eu corri como um louco, ainda de chuteira, com a mochila nas costas. Cheguei no ponto de ônibus e ela não estava mais lá. Meu coração deu um salto mortal e aterrissou no estômago. Mandei mil mensagens. Nada. Até que o Davi, meu parceiro de todas as horas, tanto em campo quanto nas bagunças em sala de aula, respondeu:

“Relaxa, craque. A situação tá controlada. Mais ou menos. Ela tá aqui em casa, com cara de quem quer te matar e depois dar um abraço. Vem.”

A casa do Davi fica a duas quadras da minha. Eu fui pulando os muros, uma coisa que a gente treina mais do que tabelinha. Quando cheguei, ele estava na garagem, com aquele seu sorriso maroto de quem já tem um plano.

- E aí, gênio? Esquecer a namorada é nível novo, hein? - ele falou, dando um tapa na minha nuca. - Olha, eu expliquei pra ela sobre o treino, sobre o torneio, sobre a sua cabeça oca. Ela entendeu, mas tá magoada. Aí, eu tive uma ideia.

Ele me levou até o quintal. E lá estava ela. Sentada na beirada da piscina vazia, balançando os pés, olhando pro nada. Meu coração apertou. O Davi tinha colocado umas velinhas no chão, daquelas baratas de festa junina, formando um caminho até ela. No rádio portátil dele, tocava aquela música lenta que a gente sempre dançou nas festas da escola, meio sem jeito.

- A parte romântica é com você, campeão, - sussurrou o Davi, me empurrando pra frente. - Eu vou é ficar longe, antes que ela jogue algo em mim também.

Fiquei parado uns segundos, me sentindo o maior idiota do universo. Então respirei fundo e caminhei até ela. As velinhas tremulavam, criando sombras dançantes no concreto.

- Lu, - eu disse, a voz saindo mais grossa do que eu queria.

Ela virou o rosto. Os olhos dela estavam brilhando, mas não sei se era das lágrimas ou do reflexo das chamas.

- Francisco Anísio Brandão, - ela falou, usando o nome completo, que é sempre mau sinal. - Três meses. A gente se fala todo dia, e você não consegue lembrar de me avisar que não ia estar aqui?

- Eu… eu treinei o dia todo pra esse torneio. A minha cabeça tá uma bagunça. Não é desculpa, é a verdade. Eu sou burro mesmo, você sabe.

Um cantinho da boca dela tremeu, quase um sorriso.

- Eu sei. É um dos seus ‘charmes’.

Me aproximei mais e sentei do lado dela, nossos ombros se encostando. O cheiro dela, sempre de sabão em pó e algo doce, me invadiu. Era o cheiro das minhas férias, das minhas melhores lembranças.

- Eu tô muito errado, Lu. Prometo que não acontece de novo. Vou colocar um alarme no celular, um na testa, o que for preciso.

Ela ficou quieta por um tempo, ouvindo o final da música. “O Davi contou que esse torneio é importante pra você. Que os olheiros podem vir.”

- É. Mas não é mais importante que você.

Ela finalmente olhou diretamente pra mim, e a máscara de raiva se dissolveu, deixando só a Lu de sempre, a que me conhece melhor do que eu mesmo.

- Que bonitinho. Tá ensaiando?

- Nunca. Falei na hora.

Ela deu um suspiro, derrotada.

- Eu fiquei tão chateada, Chico. Fiquei horas no ônibus imaginando você aí, me esperando. Aí chego e… nada.

- Eu nunca te deixaria na mão de propósito. Você é a minha pessoa, Lu.
As palavras saíram antes que eu pudesse pensar nelas, e eu senti as orelhas esquentando.

Um sorriso verdadeiro, lento e lindo, apareceu no rosto dela. Ela encostou a cabeça no meu ombro. “Seu burro.”

Ficamos ali em silêncio, ouvindo a próxima música começar. O Davi, o traíra, estava espiando pela janela da cozinha, dando um joinha. Eu ignorei ele.

- E aí - , ela murmurou depois de um tempo. - Como foi o treino? Você machucou o joelho de novo?

E naquele momento, com ela perguntando sobre meu treino, com a cabeça dela pesando no meu ombro e as velinhas idiotas do Davi quase apagando, eu soube que estava tudo bem. Melhor que tudo bem. Era perfeito. A gente não precisou de grandiosidades, só de um pouquinho de verdade, uma intervenção besta do melhor amigo e do nosso jeito simples de ser.

As férias, finalmente, tinham começado de verdade.