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O Outro

Outro (O): Em vários verbetes (por exemplo, Alteração; Categoria; Ser), abordamos a noção do “Ser outro”, com algumas referências ao que se pode denominar “o ser do Outro”. Referimo-nos com mais detalhe a esse ser do Outro – ou simplesmente, “ao Outro” – no verbete Intersubjetivo. Neste verbete, completaremos a informação ali proporcionada e, alem disso, referir-nos-emos principalmente ao “conceito do Outro” num sentido mais geral.

O “problema do Outro” – como “problema do próximo”, da “existência do próximo”, da “realidade dos outros”, do “encontro com o Outro” etc. – é um problema antigo na medida em que desde muito cedo preocupou os filósofos – para nos limitarmos a eles – a questão de como se reconhece o Outro – ou o próximo – como Outro; que tipo de relação se estabelece, ou se deve estabelecer, com ele; em que medida o Outro é, a rigor, “os outros” etc. Essa preocupação revelou-se de maneiras muito diversas: como a questão da natureza da amizade, na qual o amigo é “o outro si mesmo” e não simplesmente “qualquer outro”; como a questão de saber se é possível admitir que cada um seja livre na medida em que “se basta a si mesmo” ou possui autarquia, sem por isso eliminar “os outros” etc. André-Jean Voelke examinou as múltiplas doutrinas da “relação com o próximo” em boa parte da filosofia grega. Pode se dizer que em toda historia da filosofia, dos gregos até o presente, houve, explicita ou implicitamente, uma preocupação com “o problema do Outro”. Pedro Laín Entralgo examinou essa história, dando particular atenção à etapa moderna, na qual encontrou várias formas básicas de formulação do problema do outro. Laín Entralgo cita (e examina) as seis formas seguintes: “o problema do outro no interior da razão solitária: Descartes”; “o outro como objeto de um eu instintivo e sentimental: a psicologia inglesa”; “o outro como termo da atividade moral do eu: Kant, Fichte e Münsterberg”; “o outro na dialética do espírito subjetivo e na dialética da natureza: de Hegel e Marx”; “o outro como invenção do eu: Dilthey, Lipps e Unamuno”; “o outro na reflexão fenomenológica”. Essa simples enumeração sugere a riqueza e a complexidade que adquiriu o problema do outro entre os filósofos. O modo como Laín enumerou as várias formas básicas do “tratamento do Outro” indica, alem disso, que no problema do outro se entretece toda espécie de questões filosóficas: metafísicas, gnosiológicas, éticas, etc. Não podemos deter-nos aqui em cada uma dessas formas básicas, ou de quaisquer outras. Limitar-nos-emos a enfatizar algumas doutrinas mais recentes acerca do problema (que também Laín Entralgo examinou minuciosamente como prolegômeno à sua própria abordagem da questão). Indicaremos apenas que tomando em toda a sua generalidade, o problema do outro é mais amplo do que o do “próximo”; que não podem desvincular-se de tal problema os vários aspectos metafísicos, gnosiológicos, éticos, etc., mas que no decorrer da época moderna houve uma tendência a acentuar antes um aspecto do que o outro. Assim, por exemplo, o problema do reconhecimento do outro a partir do cogito; em Kant aparece com o problema do outro como ser moral etc.

Na filosofia contemporânea, o problema do outro não excluiu diversos aspectos, mas sublinhou, sobretudo dois deles: a constituição do outro na trama do intersubjetivo, e a realidade do outro no chamado “encontro”. Apresentaremos aqui brevemente algumas idéias

sobre o “Outro” sob esses aspectos.

Max Scheler ocupou-se, sobretudo do problema de saber se o sujeito pressupõe outros sujeitos num mundo social comum e se é possível demonstrar a existência de outros sujeitos, isto é, se pode dizer que a consciência dos outros é acessível à própria. Scheler refere-se a esse respeito a várias teorias, entre as quais a da “projeção” ou endopatia, e conclui que o reconhecimento dos outros não é primariamente intelectual, mas emocional. Portanto, o outro Não é “dado” nem por inferência nem por simpatia.

Seguindo em parte Scheler, e modificando-o em alguns pontos capitais, Alfred Schuetz falou de uma “tese geral da existência do outro (alter ego)”, a qual consiste em afirmar que a experiência da “corrente da consciência do outro” é vivida simultaneamente co a própria corrente de consciência. Assim, podemos viver, argumenta Schuetz, “apreender o pensamento do outro em sua presença e no modo pretérito”, já que o falar do outro e o nosso escutá-lo são experimentados como algo vivido “ao mesmo tempo”.

Heidegger ocupa-se do problema do outro em sua doutrina do Mitsein e do Mitdasein. Nessa doutrina, pressupõe-se que o Dasein é ao mesmo tempo Mitdasein, isto é, que o Mitdasein caracteriza de algum modo o Dasein na medida que o Dasein é “em si mesmo essencialmente Mitsein”. Isso significa, entre outras coisas, que não se pode formular a questão do outro partindo de “si mesmo”, para depois passar ao “outro”; a análise do “si mesmo” num sentido semelhante a como a análise do si mesmo inclui seu estar-no-mundo. Para Sartre, o “ser-paraoutro” está incluído no Pour soi. Esta tese parece similar à de Heidegger, e em alguns aspectos fundamentais ela o é. Não obstante, ao contrário de Heidegger, Sartre examinou em pormenor os diversos modos de o outro se dar; com efeito, o outro não se dá somente como “incluído”, mas se dá também como “objetivado” e “objetivante”. A relação entre o si mesmo e o outro (que inclui a relação entre o outro como si mesmo e o si mesmo como outro) é uma relação essencialmente “conflituosa” (tal como enfatizou Laín Entralgo). Por isso, em vez do “ser com”, Sartre sublinha o “ser para”; neste, ocorre todo tipo de “conflitos”, pois “para” não significa aqui “entregue a” ou “a favor de”, mas “ser um para (o outro)” e “ser (o outro) para um” de modos muito diversos. Entre esse modos, achar-se o transformar-se em objeto, o alienar-se, o apropriar-se, o colaborar, etc.

Ortega y Gasset tratou com freqüência do problema do outro pelo menos em dois sentidos. Por um lado, o outro se dá na sociedade. A relação entre o si mesmo e o outro neste caso é uma relação entre o autêntico e o inautêntico, já que “o social” é em larga medida uma falsificação do “individual” ou, melhor dizendo, do pessoal. Por outro lado, o outro se dá na “convivência”, que não é propriamente social, mas interpessoal. Na convivência não há, ou não há necessariamente, falsificação da personalidade, pois esta se constitui justamente em convivência com os outros. Assim, o outro, podem ser “as pessoas” ou pode ser “o próximo”, e esse dois modos de “ser outro”, embora na realidade estejam ligados, podem separar-se, pois são duas formas distintas de “ser com”, ou melhor, de “estar com”.

Gabriel Marcel expressou a idéia de que não é legítimo afirmar a prioridade do ato por meio do qual o eu se constitui como um si mesmo sobre o ato por meio do qual se afirma a realidade dos outros: “Uma força poderosa e secreta me assegura que se os outros não existissem, tampouco eu existiria”. Marcel considerou o outro primeiramente em forma “dialogante”, um pouco amaneira de Martin Buber; embora o próprio Marcel indique que sua idéia acerca do outro como próximo se assemelhe à manifestada por W. E. Hocking.

O problema do Outro foi abordado por outros autores de múltiplas maneiras; os exemplos anteriores são simplesmente ilustrativos e, para ser um pouco completos, seria necessário mencionar junto a eles as pesquisas de Jaspers, Buber, Merleau-Ponty, Remy C. Kwant, Alphonse de Waelhens, etc. Restringir-nos-emos agora assinalar que o tratamento do problema do outro está estreitamente relacionado com a questão da comunicação enquanto

“comunicação existencial” e com a questão do chamado “encontro”. Com a finalidade de esclarecer o problema do outro, propuserem-se, além dos termos já introduzidos (o “ser com”, o “estar com”, a “convivência”, o “ser para outro” etc.), vários outros, como “alteridade”,

“alteração”, etc. J.L.L.Aranguren, por exemplo, propõe o termo ‘alteridade’ para significar”minha relação com o outro”, e o tremo ‘aliedade’ para significar “a relação entre vários ou muitos outros”. A alteridade é pessoal e impessoal; a aliedade tem caráter impessoal, objetivado. Entretanto, não se pode dizer no que diz respeito à relação ética, que a alteridade se refira ao individual e a aliedade ao social; pode haver, segundo Aranguren, uma ética individual e uma ética individual e uma ética social da alteridade. O plano da aliedade, em contrapartida, “não é puramente ético, mas político”. E como o político não se apóia – ou deve apoiar-se – no moral, conceitos como os de “liberdade”, que às vezes se consideram puramente políticos, devem fundar-se numa atitude ética: a que pode desenvolver uma “ética social da alteridade”. Tiveram importância capital no tratamento do problema do Outros termos como ‘diálogo’, ‘compreensão’, ‘encontro’ e outros similares. O vocábulo ‘encontro’, sobretudo, aparece como deveras fundamental, nele tendo-se baseado, em grande parte, Laín Entralgo em sua detalhada “teoria do Outro”. Laín Entralgo examinou o que denominou “os pressupostos do encontro” sob vários aspectos: o metafísico, o psicológico, o histórico social, considerando todos eles como básicos para a compreensão do problema do outro. O exame dos “pressupostos do encontro” constituiu a base para uma “descrição do encontro” e para uma análise das “formas do encontro”. Entre as formas do encontro, destacam-se “o encontro na existência solitária”, as “formas deficientes do encontro” (como, por exemplo, o encontro visual ou “encontro meramente visual”), as “formas especiais do encontro” (amor, comunicação, relação interpessoal, etc.) e o que Laín Entralgo chama de “forma suprema do encontro” ou “o encontro do homem com Deus”. Dicionário de filosofia Paulus

– Primeiramente, sobre o tema de hoje que seria ‘relacionamento’, preferimos o intitular ‘alteridade’, pois além de serem próximos, o segundo é mais propício ao caso, por assim dizer. – A questão do outro é um problema, e sempre foi uma temática fundamental na história do pensamento.

– Nós não teríamos que primeiro especificar de qual outro estamos falando?

– Segundo Sartre, todos são ‘o outro’, pois de alguma forma todos estão em relação a nós.

Sempre que falamos do outro consideramos algum nível de interação entre as partes. – É impressionante como as pessoas andam na rua achando que estão sozinhas, parecendo que não vêem uns aos outros.

– É também interessante quando ‘parece’ que as pessoas fingem que não vêem os outros, elas devem achar que estão num desfile de moda no meio da rua.

– Mas é fato que ninguém vive sem se preocupar com o outro, independente de quem seja esse. O problema mais do que se importar com os outros de maneira construtiva, nos preocupamos em nos mostrar aos outros, aquela coisa de ser e ter, sobretudo, na ‘Era do marketing’.

– Nós nos projetamos no outro, e podemos ou não nos identificar, pois, eu vejo em você o que gosto e o que não gosto, e só vejo isso a partir da minha representação. Portanto, vemos a partir de nosso ponto de vista.

– A realidade do relacionamento com o outro não é fácil, é difícil amar ao próximo.

– O outro pode me incomodar porque posso ver nele coisas que não gosto em mim, e por outros me apaixonar por que podem existir nele coisas que admiro e gostaria de ter. – O início da felicidade ou infelicidade humana se encontra na comparação. A partir do momento que você se sente melhor ou pior, acaba caindo em algum complexo.

– É a questão do olhar, a medida que você olha o outro e se compara surge o conflito. O homem se depara com imperfeição, mas atualmente apenas busca e aceita a perfeição. No pensamento antropocêntrico o ser humano é colocado no topo da pirâmide, mas não é propriamente o ser humano, é o homem europeu. Esse é nosso padrão de perfeição. – Fato é que o homem ‘coisifica’ qualquer coisa a seu redor se isso o for trazer algum benefício, custe o que custar.

– É nesse ponto que entra uma briga atual contra uma ‘devastação natural’ da vida em nosso planeta. O que vem sendo chamado de ‘bioética’, é uma corrente que defende um trato com dignidade com animais e plantas. É um movimento contrário à tendência de se pensar que se não é racional, não tem sentimento, e, portanto, não merece respeito. As pessoas pensam que tudo que não se mexe, não tem vida, porém tudo no universo é vida.

– Tem pessoas que conseguem ver os outros, há lugares que freqüentamos em que conseguimos nos sentir ‘alguém’, pois ‘o outro’ nos vê como pessoa. Você sabe até o nome do garçom que está te servindo. Ser tratado com respeito é muito bom, assim como fazer alguém perceber que é respeitado; e afinal de contas não custa nada. Às vezes dar um sorriso para a pessoa vale a pena, do mesmo modo como é bom recebê-lo.

– Até mesmo nas relações pessoais sofremos influência do capitalismo, a competição não permite uma completa interação.

– As pessoas têm tanto medo que preferem se resguardar.

– As pessoas se fecham por causa do medo.

– Nós somos como ratos de laboratórios, adestrados pelo medo, que levamos choque ao tentar pegar comida.

– É difícil tentar compreender a consciência – interpretação – que os outros têm do mundo.

Sartre coloca essa tarefa como impossível.

– Para começar, mal sabemos escutar. Talvez seja uma questão cultural, mas essa é uma ‘habilidade’ que não é fácil de se desenvolver.

– O fator que talvez mais dificulte essa ‘tarefa’, seja o fato de que ao ouvir o que o outro tem a dizer. Interpretamos o dito com nossa consciência e assim não compreendemos totalmente o que foi exposto e muitas vezes sem esperar o outro acabar de expor seu raciocínio o atropelamos com questionamentos para convencê-lo do contrário do que não chegou a ser dito.

– Por isso é interessante a investigação dialógica, pela qual o dialogo configura dois lados opostos, os quais irão apresentar suas idéias e tentar se desenvolver pela comparação das idéias expostas.

– Mas até que ponto nos interessa ouvir? Muitas vezes as interrupções podem ser uma certeza do nosso conhecimento, da nossa opinião, e não nos interessa ouvir outra.

– O que seria um absurdo! Não somos tão completos a ponto de dispensar ouvir novas idéias, sempre há algo novo para aprender.

– Temos, antes de escutar, que nos prepararmos para tal e desfazermos nossas defesas para podermos receber novas idéias sem preconceito.

– É verdade, o novo parece ofender as pessoas as vezes, e essa seria uma boa explicação para nos fecharmos.

– Mas há também a possibilidade de gostarmos do novo, mas com o complicador de termos medo de mudar, às vezes pelo simples fato de ser difícil abandonar determinada posição. A construção surge da desconstrução, e esta não é nada simples.

– Quanto menos eu me conheço menos vou me relacionar com o outro no sentido de aprofundamento da relação, por isso o autoconhecimento é importante para podermos ter cada vez mais, melhores e mais proveitosos relacionamentos.

– Quais são as fontes que a educação mundial deve trabalhar?

– Na verdade os métodos de estudo não devem ir contra o relacionamento do outro quanto à capacidade de abertura de cada um para a alteridade. A alteridade é algo que pode ser construída. É interessante o aspecto pedagógico disso.

– Temos que entender o ponto de vista dos outros, entender seus ‘porquês’, participar de grupos que fazem reflexão, debates, que têm dialogo.

– Seria bom se víssemos a diferença com outros olhos além de uma visão taxativa.

– Podemos discordar de alguém e mesmo assim encontrar semelhanças nos raciocínios, principalmente quando se trata de casos em que a formação cultural é diferente.

– A questão é de saber respeitar e entender a diferença; o outro, sendo esse o outro ou nós mesmos, tem direito a ela.