O sábado chegou com a promessa de trovoada. Nair Monteiro passou a tarde inteira na academia, levantando pesos como se cada haltere fosse a raiva que ela não conseguia nomear. O cabelo preto, preso no rabo de cavalo que balançava com cada movimento violento, contrastava com o moletom cinza que ela usava por cima da camiseta regata.
— Tá treinando pra matar alguém, Nair? — perguntou Jéssica, a instrutora, observando a garota do Ceará que havia conquistado Curitiba não só com o skate, mas com aquela força bruta que intimidava e fascinava.
— Só aquecimento — respondeu Nair, a voz grave, o sotaque nordestino ainda marcado, mesmo depois de meses no sul.
Ela estava nervosa. Havia quatro meses, Leonardo Soares — Léo, com seu cabelo loiro caindo na franja, seus dedos magros e habilidosos, sua voz doce que cantava como se o mundo fosse um lugar melhor — simplesmente disse: "Você é a pessoa mais incrível que eu já vi. Posso tocar uma música pra você?"
Desde então, eram inseparáveis. Ele, o músico meigo e sonhador. Ela, a skatista forte e protetora. Um casal improvável que fazia todo sentido quando se olhavam.
Mas hoje... hoje tinha show da banda de Léo no *Clube do Ritmo*, e Nair odiava aquele lugar. Odiava as fãs que olhavam para o namorado como se ele fosse um pedaço de carne. Odiava a vulnerabilidade dele sob os holofotes. Odiava sentir que, por um momento, Léo não era só dela.
***
O clube estava lotado. Nair chegou cedo, vestindo jeans surrado, tênis de skate e uma camiseta branca larga. Ela ficou no fundo, encostada na parede, braços cruzados, observando. O palco iluminou-se e lá estava ele — Léo, com sua camiseta preta justa, jeans escuro, tênis all-star desgastado. Ele segurava o violão como quem segura um amor antigo.
— Essa música é nova — Léo falou no microfone, os olhos azuis varrendo a multidão até encontrarem Nair no fundo. Ele sorriu, aquele sorriso torto que derretia corações. — É sobre alguém que me ensinou que força e ternura podem coexistir. Alguém que chegou do Ceará e virou meu mundo de cabeça pra baixo.
Nair sentiu o calor subir pelo pescoço. Ele ia tocar pra ela. Sempre tocava pra ela, mesmo quando ela ficava no escuro, escondida atrás da própria timidez bruta.
A música começou. Léo cantou sobre amor em tons de azul e laranja, sobre mãos grandes que seguravam as dele, sobre uma voz grossa que dizia "tô aqui" e significava "sempre". Nair sentiu os olhos marejados. Droga. Ela não chorava. Nair Monteiro não chorava. Mas amava. Amava tanto que doía.
O show foi um sucesso. As pessoas aplaudiram, gritaram, pediram bis. Léo e a banda tocaram mais três músicas. Quando terminou, o suor brilhava na testa dele, e ele parecia feliz, realizado, vivo.
Foi quando aconteceu.
Uma garota — loira, maquiagem perfeita, vestido curto — subiu no palco antes que o segurança pudesse impedir. Ela correu até Léo, que ainda segurava a guitarra, surpreso.
— Léo! — ela gritou, microfone aberto, voz ecoando pelo clube. — Eu te amo! Eu te amo há dois anos!
E então, antes que ele pudesse recuar, ela agarrou seu rosto e tentou beijá-lo.
Nair viu tudo. Cada frame gravado em sua retina como uma ferida. A mão da garota no rosto de Léo. O pânico nos olhos dele. A tentativa desajeitada dele se afastar.
Algo quebrou dentro de Nair. Não era só ciúmes. Era a sensação de que seu lugar estava sendo invadido, que a pessoa que ela protegia com unhas e dentes estava vulnerável, exposta, sendo tocada sem permissão.
Ela avançou. A multidão se abriu diante dela, assustada com a fúria da gigante de 1,8m de altura, musculosa, com olhos pretos brilhando de raiva. Nair subiu no palco em dois passos. A garota que tentou beijar Léo ainda estava ali, paralisada.
Nair ergueu o punho. A garota engasgou. Léo levantou as mãos.
— Nair, não! — ele gritou.
Nair olhou para os olhos dele. Viu o medo — não de ser atingido, mas de vê-la perder o controle. De vê-la se tornar algo que ela não era. Ela olhou para o punho erguido, para a garota tremendo, para o microfone no chão, para a bateria que ela poderia derrubar com um empurrão.
E parou.
Respirou fundo. O peito arfava. O coração batia descompassado. Ela baixou o punho, virou-se, e saltou do palco. Correu. Atravessou o clube, empurrando quem estivesse no caminho, e saiu para a noite fria de Curitiba.
***
Léo encontrou ela uma hora depois, na praça onde costumavam se encontrar depois da escola dela. Nair estava sentada no chão, encostada na base de uma estátua, joelhos dobrados, olhando para o nada. O skate estava ao lado, abandonado.
Ele se sentou ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa. O cabelo loiro ainda estava molhado do suor do show, da chuva fina que começou a cair.
— Eu não a deixei me beijar — Léo disse, a voz suave, musical mesmo quando falava. — Eu empurrei ela. O segurança levou ela embora.
Nair não respondeu. Seus braços musculosos envolviam os joelhos, a camiseta branca agora manchada de sujeira do chão.
— Nair... — ele tentou de novo. — Me olha. Por favor.
Ela virou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, mas secos. A raiva tinha ido embora, deixando apenas o vazio e a vergonha.
— Eu quase quebrei tudo, Léo — ela disse, a voz rouca. — Eu quase machuquei aquela garota. Eu quase destruí seu show. Eu sou... — ela engoliu em seco — ...eu sou muito bruta. Muito forte. Eu não sei ser delicada como você merece.
Léo se moveu então, fechando a distância entre eles. Ele era menor, mais magro, mas quando colocou a mão no rosto dela, seus dedos cobriram a bochecha de Nair completamente.
— Você acha que eu quero delicadeza? — ele perguntou, o tom suave mas firme. — Eu quero você. A Nair que me defende quando alguém é grosseiro na rua. A Nair que carrega meu equipamento quando minhas costas doem. A Nair que quase derrubou um clube inteiro porque alguém invadiu o que é dela.
— Eu tenho ciúmes — ela admitiu, a voz baixa. — Eu fico louca quando pensam que podem te ter. Você é meu. Eu sou... eu sou sua. E eu não sei lidar com isso sem querer brigar.
— Eu sei — Léo sorriu, aquele sorriso que iluminava noites. — E eu amo isso em você. Mas você precisa confiar em mim, Nair. Ninguém vai me tirar de você. Ninguém pode. O que eu sinto por você... — ele riu, baixinho — ...é maior do que qualquer show, qualquer fã, qualquer cidade.
Nair fechou os olhos. A mão dele era quente, confortável, familiar.
— Desculpa por sair correndo — ela murmurou.
— Desculpa por não ter sido mais rápido em me afastar — ele respondeu. — Desculpa por não ter visto ela subindo. Desculpa por fazer você se sentir assim.
Eles ficaram em silêncio por um momento, a chuva fina caindo ao redor, a cidade respirando. Então Léo tirou o violão da capa — ele sempre carregava um violão pequeno, quase um ukulele, para emergências musicais.
— Eu escrevi outra música — ele disse, afinando as cordas com dedos ágeis. — Hoje, enquanto você corria e eu te procurava. Quer ouvir?
Nair assentiu, ainda encostada nele, sentindo o calor do corpo magro de Léo contra seu ombro musculoso.
Ele começou a tocar. Uma melodia simples, terna, que soava como abraço. E cantou:
"Ela corre porque ama demais,
Ela para porque sabe que sou seu
Não precisa ser suave para ser meu amor
Só precisa ser meu, só meu, sempre meu."
Nair sentiu uma lágrima escapar. Ela a deixou cair. Léo a enxugou com o polegar, sem parar de tocar.
Eu sou dela, ela é minha,
O mundo pode tentar,
Mas nada tira o que é nosso,
O que é nosso, ninguém tira jamais."
Quando a música acabou, Nair o beijou. Não com a fúria de antes, mas com a ternura que ela guardava só para ele, escondida sob todas as camadas de força e proteção. Um beijo longo, profundo, que dizia *perdão* e *eu te amo* e *não me deixa e eu sempre volto*.
— Eu te amo, Léo Soares — ela disse quando se separaram, a testa encostada na dele.
— Eu te amo, Nair Monteiro — ele respondeu, sorrindo. — Mesmo quando você quer derrubar palcos.
— Eu não vou derrubar mais palcos — ela prometeu, séria.
— Eu sei. Porque da próxima vez, eu vou pular da plateia antes de você chegar lá.
Eles riram. A chuva parou. O céu de Curitiba mostrou algumas estrelas, raras, preciosas.
— Vamos pra casa? — Léo perguntou, guardando o violão.
— Vamos — Nair disse, se levantando e estendendo a mão para ele.
Ele pegou a mão grande, forte, segura. A mão que quase destruiu um clube, mas que agora o puxava para perto, para o abraço, para o amor.
Caminharam juntos pela noite, o skate de Nair rolando ao lado, as mãos entrelaçadas, os corações batendo no mesmo ritmo. Um ritmo que só eles conheciam. Um ritmo de paz, de amor, de dois mundos diferentes que encontraram harmonia.
Na esquina, antes de virarem para a rua de Léo, Nair parou. Pegou o rosto dele com as duas mãos — aquelas mãos que podiam causar tanta destruição, mas que escolhiam, sempre, tocar com amor.
— Próximo show — ela disse, séria — eu fico no palco. Do seu lado.
— Sério? — Léo arregalou os olhos. — Você, Nair Monteiro, no palco?
— É. Se alguém tentar te beijar de novo, eu vou estar bem ali. E aí eu não vou precisar correr. Eu vou só... — ela fez uma pausa, pensativa — ...eu vou só olhar pra pessoa. Com aquela cara.
Léo riu, alto e livre.
— Aquela cara de "vou quebrar você em dois sem nem suar"? Essa cara?
— Essa mesma.
— Ninguém vai subir no palco nunca mais — Léo concordou, ainda rindo. — Problema resolvido.
Eles se beijaram de novo, sob as estrelas de Curitiba, o sotaque cearense e o sotaque curitibano se misturando em risos e promessas. O amor deles não era suave. Era intenso, energético, cheio de skate e música, de músculos e melodias, de quase-desastres e reconciliações perfeitas.
Era, acima de tudo, deles. Só deles. E ninguém — nem fãs loucas, nem distâncias, nem diferenças — conseguiria mudar isso.
Porque quando o coração encontra seu ritmo, ele dança. E a dança de Nair e Léo estava apenas começando.