PARTE 1. O Abraço da Fortaleza.
O sol de Curitiba — aquele que aparece em dias de sorte — batia na janela do quarto de Guilherme Fernandes enquanto ele organizava suas anotações de Literatura Portuguesa. O rapaz de 21 anos, magro como um eixo de vassoura e com óculos que escorregavam a cada dois segundos, suspirou ao ouvir a campainha.
— É ela — murmurou, ajustando a gola da camisa polo.
Nair Monteiro irrompeu pela porta como um furacão cearense descontrolado. Moletom cinza, jeans surrado, tênis de skate com a sola desgastada. O rabo de cavalo preto balançava violento enquanto ela carregava uma mochila que parecia conter, no mínimo, três anvils.
— Fala, professor! — gritou ela, dando um tapa nas costas de Guilherme que quase o derrubou. — Tô pronta pra virar Shakespeare!
— É... Camões. Estamos estudando Camões.
— Esse é o do skate? — Nair largou a mochila no chão com um estrondo. — Conheço um Camões lá no parque, faz uns flip sinistro.
Guilherme massageou as costelas, perguntando-se pela centésima vez por que tinha aceitado ajudar a amiguinha desastrada do Davi.
— Senta. Vamos começar com o básico: sujeito e predicado.
— Sujeito é eu — Nair apontou para o peito, sorrindo com um flash de dentes perfeitos. — Predicado é... aquele cara que vende pastel no shopping?
Três horas depois, Guilherme sentia a cabeça girar. Nair tinha uma energia inesgotável — levantava a cada cinco minutos, fazia polichinelos enquanto repetia regras gramaticais, e uma vez tentou demonstrar a diferença entre verbo transitivo e intransitivo usando uma garrafa de água e um movimento de *ollie* imaginário.
— Nair, concentração — ele pediu, já sem voz.
— Tô concentrada, uai! — ela respondeu, fazendo uma rotação no ar com o braço. — Só tô aquecendo. Depois daqui vou pra academia. Hoje é dia de costas e tríceps.
Guilherme olhou para os braços da garota. Definidos. Fortes. Capazes de, ele tinha certeza, erguer um carro compacto se necessário.
— Vamos tentar uma frase — ele disse. — "A menina correu."
— Sujeito: menina. Predicado: correu! — Nair gritou, vibrando. — Fácil!
— Muito bem. Agora: "O livro foi lido pelo menino."
Nair franziu o cenho. O silêncio durou exatos dois segundos antes que ela explodisse:
— O menino é o sujeito! Ele que tá fazendo a parada!
— Na verdade, é o livro...
— NÃO! — Nair levantou, batendo na mesa. — O menino é o cara da ação! Ele tá lendo! O livro tá só... deitado!
Guilherme tirou os óculos para limpar, contando mentalmente até dez. Quando colocou de volta, Nair estava a centímetros dele, olhando fixamente com aquela intensidade que fazia seu coração fazer coisas estranhas.
— Me explica de novo — ela pediu, mais suave. — Eu quero aprender. De verdade.
Algo naquele tom, naquela vulnerabilidade momentânea, derreteu a resistência de Guilherme. Ele explicou de novo. E de novo. E mais uma vez, até que o sol se pôs e as luzes da rua entraram pela janela.
***
Na noite seguinte, Guilherme estava na varanda de casa, recitando poesia para si mesmo — um hábito estranho que a mãe achava "fofo" e o pai considerava "preocupante" — quando seu celular vibrou.
*NAIR: NOTA 6,0!!!!!!!!!*
*NAIR: PASSEI, CARA!*
*NAIR: MÉDIA!!!!!*
*NAIR: UM MONTE DE EMOJI DE COMEMORAÇÃO*
Guilherme sorriu. Um 6,0. Nota média. Para Nair, era como ter ganhado o Nobel de Literatura. Ele estava digitando uma resposta quando ouviu um barulho distante.
Pés batendo no asfalto. Pesados. Rápidos. Determinados.
Ele levantou os olhos.
Nair apareceu na esquina como uma cena de filme de ação — moletom voando, rabo de cavalo para trás, tênis de skate fazendo um som alto, ritmado contra o chão. Ela tinha o celular na mão e um sorriso que iluminava o quarteirão inteiro.
— GUI! — o grito ecoou.
Guilherme teve exatamente dois segundos para reagir. Levantou a mão numa tentativa de aceno casual.
— Parabéns, você...
Nair não parou. Nair não diminuiu. Nair acelerou!
— CONSEGUI, MEU PROFESSOR! — ela gritou, alegre.
O impacto foi... científico. Guilherme, que mal conseguia carregar as compras do mercado sozinho, foi envolvido por braços de aço. Seu rosto enterrou-se no ombro de Nair, que cheirava a shampoo de coco e suor de skate park. Seus pés deixaram o chão.
— N-Nair... — ele conseguiu, sufocado.
— VOCÊ É O MELHOR! — ela o balançava, girava, apertava. — 6,0! EU TIREI 6,0!
— ...não... consigo... respirar...
— A MINHA MÃE VAI CHORAR! — Nair continuou, girando ele como se ele fosse uma bailarina — O MEU PAI VAI FAZER CHURRASCO!
Guilherme tentou se afastar. Colocou as mãos no peito dela — firme, musculoso, inabalável como uma parede de concreto — e empurrou. Nada. Tentou afastar as pernas, criar alguma alavanca. Nair nem notou.
— Eu... preciso... — ele pigarreou.
— EU SABIA QUE CONSEGUIA! — ela o soltou por um segundo — alívio! — apenas para pegá-lo de novo num abraço de urso, desta vez erguendo-o completamente do chão. — VOCÊ CREU EM MIM!
— Nair... por favor... minhas... costelas...
— Vou te levar pro skate park! — ela anunciou, finalmente o soltando, mas mantendo as mãos firmes em seus ombros. — Vou te ensinar a andar de skate! Você vai amar!
Guilherme cambaleou, tocando a cerca de ferro para se equilibrar. O mundo girava. Seus óculos estavam tortos. Ele sentia o coração batendo em lugares onde não deveria bater.
— Eu... não tenho... coordenação motora...
— Bobagem! — Nair deu outro tapa nas costas, quase o lançando no jardim da outra vizinha. — Você é esperto! Se consegue me ensinar português, consegue andar de skate!
Ela estava tão perto. Tão viva. Tão ali. O suor brilhava na testa, os olhos negros brilhavam com uma alegria contagiante. Guilherme ajustou os óculos, sentindo algo estranho no peito que não era apenas falta de ar.
— Nair, você... — ele começou.
— E aí? — ela inclinou a cabeça, sorrindo. — Vai aceitar? Skate park, sábado?
Guilherme pensou em Paula. Paula, a sábia da faculdade, que discutia Proust com ele entre aulas. Paula, que usava óculos igual a os dele e falava em versos. Paula, que nunca o tinha abraçado com força suficiente para quase quebrar suas vértebras.
— Sábado — ele ouviu-se dizendo.
— ISSO! — Nair deu um soco no ar, vitoriosa. — Vou buscar você às nove! Não almoça antes!
Ela saiu correndo, saltitando, desaparecendo na esquina com a mesma energia com que chegou.
Guilherme ficou na varanda, massageando as costelas, sentindo os braços formigarem onde ela o tocava. Seu celular vibrou novamente.
*PAULA: Oi! Café da tarde na livraria amanhã? Tem um novo ensaio sobre Fernando Pessoa.*
Ele olhou para a tela. Olhou para a esquina onde Nair desapareceu. Olhou para as marcas de tênis de skate no chão da calçada.
— Fernando Pessoa — murmurou, sorrindo sozinho — nunca foi abraçado por uma fúria cearense.
Digitou uma resposta para Paula... Depois entrou, fechou a porta, e pela primeira vez em anos, sentiu que algo interessante podia acontecer em sua vida organizada, previsível, literária.
No quarto ao lado, Davi — o irmão caçula, amigo de Nair na escola nova — ouviu tudo pela janela aberta. E riu sozinho, sabendo que o mundo acabou de ficar muito mais divertido.
***
PARTE 2. O Primeiro Rolê.
O sol de Curitiba — que, para Nair Monteiro, ainda parecia uma piada de mau gosto comparado ao calor de Fortaleza — batia forte no Skate Park do Birigui. A cearense de 1,80 m, com seus músculos definidos de tanto malhar e seu moletom surrado de "CEARÁ FORTE", chegou arrastando o skate... digo, arrastando Guilherme Fernandes.
— Gui, para de travar no chão, rapaz! — Nair puxou o braço magricela do universitário. — Você parece uma porta enferrujada!
— Nair, eu estou usando camisa polo Ralph Lauren. Ralph. Lauren. — Gui ajustou os óculos com ar de pânico. — Isso aqui custou metade do meu estágio.
— E daí? — Nair deu de ombros, fazendo seu rabo de cavalo balançar. — Vai ficar mais estiloso com um pouco de poeira de skate park. Agora vem!
Gui olhou para a pista de concreto como se fosse o próprio portal do inferno. Rampas, corrimãos, escadas. Para ele, que passava 90% do tempo entre livros, aquilo parecia uma armadilha mortal planejada pelo universo.
— Lembra que você me salvou na prova de português? — Nair começou, colocando o skate aos pés dele. — Eu tirei 6,0 graças a você. Seis vírgula zero, Gui! Nunca na história da Nair Monteiro eu tinha passado em redação!
— Foi... foi só gramática básica. Concordância verbal...
— EXATO! — ela ergueu os braços como se tivesse ganho o Oscar. — Concordância verbal! Eu achava que "os meninos corre" tava certo! Você mudou minha vida, Gui. Agora deixa eu mudar a sua. Vai ser divertido.
A palavra "divertido" ecoou na cabeça de Gui como uma sentença de morte.
Nair, por outro lado, estava em seu habitat natural. Ela deu um impulso e voou pela rampa — Ollie perfeito, 180 graus no ar, aterrissagem suave. Um grupo de skatistas adolescentes parou para aplaudir.
Gui, sentado no banco de concreto mais distante possível, observava com os olhos arregalados atrás dos óculos. Nair parecia... livre. Desinibida. Uma força da natureza em tênis surrado. Por um segundo — um segundo muito breve — ele esqueceu de Paula.
Paula. A colega da faculdade. Loira, magra, séria, inteligente, óculos igual ao dele. A versão feminina de si mesmo, basicamente. Eles já tinham discutido por duas horas sobre o significado existencial em O Pequeno Príncipe. Foi mágico.
— GUI! CHEGA AQUI!
O universitário engoliu em seco. Com as pernas bambas, ele se arrastou até onde Nair estava, segurando um skate emprestado de um dos adolescentes.
— Primeira lição: ficar em cima do bichinho — ela explicou, posicionando o skate. — Coloca o pé direito aqui, o esquerdo na traseira...
— Nair, eu sou desastrado. Eu tropeço em linhas retas.
— Confia no processo! — ela sorriu, e aquele sorriso cearense quase derreteu o coração de Gui. Quase. — Eu vou segurar você.
Gui subiu no skate. Imediatamente, seus braços giraram como hélices de helicóptero descontrolado.
— EQUILÍBRIO, GUILHERME! — Nair segurava sua cintura com força. — Você não é um pêndulo de Newton!
— EU SOU UM PÊNDULO! EU SOU UM PÊNDULO! — Gui gritava, os óculos empinados no nariz.
Nair segurava firme. Muito firme. Tão firme que sentia o calor do corpo magricela dele, o cheiro de shampoo barato e livro velho. Seu rosto estava a centímetros do dele.
Beija ele, pensou o cérebro de Nair. Beija agora. Ele nunca vai notar. Ele tá com medo demais.
— NAIR, EU VOU CAIR!
— NÃO CAI NÃO, EU SEGURO!
E então aconteceu. Gui deu um tranco, o skate escorregou, e ele caiu de bunda no concreto. Mas Nair, com seus reflexos de atleta, conseguiu puxá-lo... para cima dela.
Caíram juntos. Nair no chão. Gui em cima de Nair. Nariz com nariz. Respiração com respiração.
O mundo parou.
Nair olhou nos olhos castanhos de Gui. O coração dela batia tão forte que ela tinha certeza que o Birigui inteiro ouvia.
Diz alguma coisa, ela pensou. Diz que gosta dele. Diz agora.
— GUI... — ela sussurrou.
— OH NÃO! — Gui gritou, levantando-se desesperado. — MEU DEUS, A MINHA CAMISA POLO!
Gui estava tentando limpar a poeira da calça jeans, completamente alheio ao momento quase-mágico que tinham acabado de compartilhar.
— Nair, eu não posso machucar as mãos. Eu tenho que digitar meu TCC. E a Paula disse que vai me ajudar com as referências bibliográficas no sábado. ABNT, sabe? É complicado.
Nair ficou no chão, processando o que aconteceu. Paula? Quem era Paula? Ela se levantou devagar. O skate estava a metros de distância, abandonado.
— Quem é Paula? — ela perguntou, tentando soar casual. Falhou miseravelmente.
— Paula? — Gui ajustou os óculos, um sorriso sonhador aparecendo. — Ela é minha colega da faculdade. Inteligente. Séria. A gente conversou sobre Sartre ontem. Três horas. Ela entendeu a minha teoria sobre o absurdo da existência em ambientes acadêmicos.
Nair sentiu o chão sumir debaixo dos pés. E não era porque ela estava de skate.
— Ah. Legal. — ela forçou uma risada. — Então... você gosta dela?
— Gostar? — Gui pareceu considerar a palavra. — Nair, ela é... como eu.
E eu sou o quê?, pensou Nair. A gorila do skate que mal sabe conjugar verbo?
Ela olhou para si mesma. Moletom largo. Tênis suado. Músculos que assustavam meninos. 1,80 m de altura enquanto Paula provavelmente era uma delicada 1,60 m. Nair quebrava pranchas de skate acidentalmente. Paula provavelmente quebrava corações com um olhar sério por cima dos óculos.
— Entendi — Nair disse, pegando seu skate. — Bom, acho que a aula acabou. Você quase andou. Quase.
— Foi divertido! — Gui disse, e pela primeira vez parecia genuíno. — Obrigado, Nair. Você é uma amiga incrível. Igualzinho o Davi falaria. E vizinha! Que sorte a gente ser vizinho, né?
Amiga. Vizinha. Irmão mais novo. Três facadas no coração da cearense, uma atrás da outra.
— É. Sorte — ela respondeu, dando um impulso no skate. — Vou dar mais uma volta.
Gui acenou, sentando-se no banco com seu celular. Provavelmente mandando mensagem para a bendita Paula.
Nair acelerou pela rampa. Saltou mais alto que nunca. Fez manobras que impressionaram até os adolescentes de verdade.
E no alto de cada salto, ela pensava: Quem precisa de ABNT?
No aterrisar, a resposta vinha: Eu preciso. Eu preciso que ele me note.
Mas Guilherme Fernandes, 21 anos, camisa polo Ralph Lauren manchada de poeira de skate park, não notou nada. Estava ocupado demais digitando:
"Oi Paula! Aqui é o Gui. Sobre Sartre... você já leu 'As Palavras'? Acho que você iria adorar. PS: Hoje quase andei de skate! rs"
Três pontinhos. Enviado.
Do outro lado do parque, Nair Monteiro, 17 anos, cearense, fortona, bruta e apaixonada, aterrissou um kickflip perfeito.
Ninguém aplaudiu. Ninguém que importava, pelo menos.
Mas ela sorriu. Porque cearenses não desistem. E amanhã tinha aula de português. E Gui tinha prometido ajudar ela de novo.
Seis vírgula zero, ela pensou. Da próxima vez eu tiro sete. E daí ele vai ter que me notar.
No horizonte de Curitiba, o sol se punha frio e distante.
Mas Nair estava só começando a esquentar.